Livros
Mito mascarado
Biografia
de Renato Russo esconde fatos mais picantes do ex-vocalista da Legião
Urbana
Apoenan
Rodrigues
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Pedro Agilson
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Russo: visão de Elvis Presley transformado em Jerry Adriani |
Durante
visita a uma rádio de Goiânia, Jerry Adriani ouviu
uma canção desconhecida numa voz idêntica à
sua. Espantado, foi logo perguntando: Que música é
essa que eu gravei? Desfeito o engano, Adriani ficou sabendo
que a canção tinha o título de Será,
fazia parte do disco de estréia de uma banda de Brasília
chamada Legião Urbana e quem cantava era um tal de Renato
Russo. Por algum tempo, muita gente iria confundir as duas vozes.
Mas a semelhança extrapolaria a barreira das coincidências.
Num certo vôo para Porto Alegre, os dois se encontraram e
o vocalista confidenciou ao ídolo dos anos 60 como aconteceu
sua decisão de se tornar cantor. Contou ter sonhado com uma
luz no céu, que a luz se transformava em Elvis Presley e
este em Jerry Adriani, que lhe falou: Filho, vai em frente.
As duas histórias estão descritas no livro Renato
Russo (Relume Dumará, 184 págs., R$ 15), da série
Perfis do Rio, do jornalista e crítico musical carioca
Arthur Dapieve, que nas páginas internas batizou seu trabalho
de O trovador solitário.
Com um recheio de 15 fotos em preto-e-branco, O trovador solitário
chega nesta semana às livrarias antecedido de certa ansiedade.
Afinal, até sua morte em decorrência da aids, em 11
de outubro de 1996, Renato Russo arrebanhou milhares de fãs
que por muito tempo integrariam a chamada religião
urbana, tal o fanatismo em torno do grupo de rock. Compromisso
assumido, Dapieve saiu a campo. Entrevistou a família, amigos
e colegas do cantor e supôs ter um bom material à mão.
Se a intenção do jornalista era fazer uma cronografia
da Legião Urbana, tendo Russo como figura de proa, apenas
pincelando dados sobre sua personalidade ariana, ou seja, de caráter
forte, de extremos, o resultado contenta. Mas, ao que parece, o
intuito era escrever uma biografia daquele que rivalizou com Cazuza
não só na intensidade de seus versos, mas na maneira
rápida e sempre bombástica de viver. Neste sentido,
é um trabalho frustrante. O trovador solitário
está longe de ser um livro corajoso. É um testamento
de fã contido, que, talvez em benefício de um jornalismo
isento, joga o leitor na frigidez dos comuns.
Renato Russo foi uma pessoa atípica, como o próprio
Dapieve descreve nos raros momentos em que não se sente acuado
por tocar em assuntos pouco convenientes à memória
e à família do cantor como a homossexualidade e o
prazer que sentia na autodestruição, com passagens
por drogas pesadas, entre elas a heroína. Russo também
adorava beber. Chegava ao cúmulo de entornar copos enormes
do licor Cointreau, em pleno sol do Nordeste. Ao longo do livro
adivinha-se duas situações incômodas. Primeiro,
a insuficiência de material, o que fez com que o autor se
debruçasse capítulos a fio comentando faixa por faixa
dos discos da Legião recurso desnecessário
tanto para os fãs conhecedores da obra da banda quanto para
os meros curiosos. Segundo, o medo de causar sensacionalismo. Ora,
quando se opta por escrever uma biografia, autorizada ou não,
quem compra quer saber detalhes da vida pessoal do biografado, curiosidades
e fatos picantes. Está provado que é possível
trilhar este caminho, sem despencar para o lado marrom dos fatos.
Lucinha Araujo, em parceria com Regina Echeverria, moldaram um retrato
contundente, belo, supercorajoso de Cazuza no livro Só
as mães são felizes. A memória de Renato
Russo permanece merecendo um trabalho do mesmo porte. 
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