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Manifesto trapalhão - continuação

Empresários defendem FHC, brigam entre si e expõem ainda mais o presidente

Luiz Antonio Cintra

De tempos em tempos, o empresariado nacional vem a público para defender reformas nos sistemas tributário e de previdência, redução das taxas de juros, linhas de financiamento mais generosas. Na semana passada, foi diferente. Articulado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), um manifesto publicado quarta-feira 2, nos principais jornais do País, tinha o objetivo de demonstrar confiança no presidente Fernando Henrique Cardoso. Aproveitava para elogiar a condução da política econômica, afirmando que o País está “no caminho certo”. Que coincidência: no mesmo dia, o governo enviava à Câmara dos Deputados um projeto de reforma tributária que vai em sentido contrário às conhecidas reivindicações dos que assinaram o documento – por exemplo, ao tornar permanente a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF).

Além de associações de classe, aderiram trinta empresários de peso, como Jorge Gerdau Johannpeter, Antonio Ermírio de Moraes, Emílio Odebrecht, Olavo Setúbal e um crítico notório das políticas econômicas desnacionalizantes, Cláudio Bardella. O objetivo político do manifesto era tentar atenuar a crise detonada pelo escândalo do TRT e as denúncias envolvendo o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge. Mas acabou servindo para expor ainda mais a fragilidade do presidente. Além disso, levou o empresariado brasileiro à desunião – basicamente, por vaidades e discordâncias nos detalhes.
A reação contrária mais vigorosa foi a do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. Ele recusou-se a assinar a declaração e criticou abertamente a iniciativa da CNI, comandada pelo deputado federal Carlos Eduardo Moreira Ferreira (PFL – SP), ex-presidente da Fiesp. A análise de Piva foi a seguinte: não há, no momento, crise de governabilidade. Pela forma como o apoio foi dado, ficou parecendo que a própria legitimidade do governo está sendo questionada, ou, no limite, que a democracia estaria em perigo no País. Piva reafirmou, entretanto, seu apoio ao governo e ao presidente.

Chamou a atenção também a reação do presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Clésio Andrade. Em nota divulgada no dia do manifesto, Andrade afirma que seu nome foi colocado ali sem o seu consentimento. A CNI reconheceu que tinha atropelado a confederação de empresas de transporte, afirmando, também em uma nota, que, como o CNT não respondera no prazo combinado, havia entendido que “consentira tacitamente” com os termos da declaração.
A iniciativa da CNI aparentemente pretendia acalmar os investidores estrangeiros, demonstrando que o País está longe de uma crise institucional. Os números mostram que, ao menos por ora, o ânimo deles não é dos melhores: em julho tiraram R$ 310 milhões da Bolsa de Valores de São Paulo.

Enquanto as lideranças empresariais nacionais discutem a melhor forma de declarar seu apoio ao governo, sua participação na economia brasileira perde força. De 1995 para 1999, o total investido por estrangeiros no País cresceu de 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para 9,7%. Um exemplo emblemático do processo de desnacionalização foi a Metal Leve, do setor de autopeças, que pertenceu ao empresário paulista José Mindlin – aliás, um dos que assinaram o manifesto a favor de FHC.

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