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Coroné dos zóio azul
O governador Tasso Jereissati é acusado de beneficiar suas empresas
com di nheiro público e de repetir as mesmas práticas dos velhos caciques
cearenses
Francisco
Alves Filho – Fortaleza
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Foto:
Eugênio Novaes
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Conhecido
como o homem que derrotou os antigos coronéis da política
cearense em nome da modernidade, o governador Tasso Jereissati (PSDB),
chamado carinhosamente pelos eleitores de Galeguin dos Zóio
Azul, chega à metade de seu terceiro mandato mergulhado em
contradição. Está sendo acusado de repetir
um dos principais pecados da velha oligarquia do Estado: receber
dinheiro público de forma privilegiada para usar em proveito
próprio. Os autores da acusação não
são os políticos de oposição, mas os
auditores do Tribunal de Contas da União, que fizeram várias
investigações no Banco do Nordeste do Brasil, instituição
federal presidida por Byron Queiroz, indicado para o cargo por Tasso,
de quem foi secretário de Planejamento. De acordo com os
auditores do TCU, a administração do banco é
marcada por várias irregularidades. Uma delas foi o empréstimo
à empresa Refrescos Cearenses cujo proprietário
é Tasso de cerca de R$ 24 milhões, quase três
vezes mais que o valor máximo fixado por técnicos
do próprio BNB, com dinheiro do Fundo Constitucional de Desenvolvimento
do Nordeste (FNE). Essas e outras irregularidades praticadas pelo
banco com dinheiro do FNE serão julgadas nos próximos
dias no TCU, em Brasília. Além disso, o BNB também
concedeu à empresa de Tasso um outro financiamento, com juros
de 7,7%, muito abaixo do cobrado a outras empresas, que pagaram
taxas de 11,37%. O governador também é um dos nomes
investigados pela CPI do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor),
instalada na Câmara Federal. Ele foi acusado de usar em suas
empresas notas frias para fraudar a prestação de contas
ao BNB.
A
tese polêmica Criado há 46 anos, o BNB nasceu
para fomentar o desenvolvimento do Nordeste e uma das suas principais
atividades é a concessão de financiamento às
empresas da região com dinheiro do FNE. Sua sede fica em
Fortaleza. Desde a posse de Queiroz, várias irregularidades
passaram a ser cometidas no banco, de acordo com a avaliação
dos auditores do TCU. Uma delas foi a concessão de crédito
a algumas empresas acima do estabelecido em suas próprias
normas. A empresa de Tasso uma engarrafadora da Coca-Cola
que, pela classificação de risco feita pelos
técnicos do BNB só poderia receber créditos
de até R$ 9 milhões, acabou levando quase três
vezes mais. O relatório do TCU afirma que o banco permitiu
concentração de recursos para um único
grupo econômico. Para justificar essa liberalidade,
Queiroz tem uma tese lapidar. Quem faz as normas não
é escravo delas, afirmou em entrevista ao jornal cearense
O Povo, no mês passado.
A Refrescos
Cearenses teria sido também beneficiada em outra operação
de crédito. O BNB captou dinheiro no Exterior para emprestar
no mercado brasileiro. Mais de 90% dos financiamentos concedidos
com esses recursos foram feitos a uma taxa de juros de 11,37% ao
ano. Para a empresa do governador, que tomou dinheiro em 1997, a
taxa foi bem diferente. Ficou em módicos 7,7% a mais
baixa de todas. Procurado para comentar esse possível favorecimento
ao governador, Queiroz preferiu não dar entrevista. A assessoria
técnica do BNB enviou fax à ISTOÉ rebatendo
as irregularidades identificadas pelos auditores do TCU. Os técnicos
afirmam que o secretário de Controle Externo do TCU no Ceará,
Paulo Nogueira de Medeiros, reformulou o relatório
dos auditores do próprio tribunal, dando como regular a operação
em que a empresa de Tasso recebeu o empréstimo. De acordo
com as normas do TCU, no entanto, o secretário não
tem o poder de reformular relatórios, apenas de convocar
ou divergir da opinião dos auditores. Em Brasília,
a interpretação de Medeiros não teve eco. O
ministro-relator do TCU, Adylson Motta, analisou o processo e concluiu
que houve concessões de crédito a empresas em
desacordo com pareceres técnicos do próprio BNB, bem
como com suas próprias normas internas.
Procurado várias vezes por ISTOÉ para comentar as
acusações, o governador não deu retorno. Talvez
por estar ocupado demais com o cenário político. Tasso
continua sonhando em disputar a sucessão de Fernando Henrique
com apoio do próprio presidente, que chegou a sinalizar
antes do episódio Eduardo Jorge que o governador poderia
ser seu candidato dentro do PSDB. Ultimamente, Tasso tem se aproximado
de seu afilhado Ciro Gomes, presidenciável do PPS. Os dois
têm se encontrado no palanque de Patrícia Gomes, ex-mulher
de Ciro e candidata à Prefeitura de Fortaleza coligada com
os tucanos locais.
Os ministros do TCU terão muito trabalho quando começarem
a julgar os deslizes cometidos no BNB. Os auditores constataram
que apesar de o banco ter recebido nos últimos dez anos o
valor de R$ 9,2 bilhões por conta do FNE, só tem de
patrimônio a quantia de R$ 5,9 bilhões. Ou seja, o
BNB tem disponível apenas 64% da quantia enviada pelo Tesouro
Nacional. Além disso, os auditores reclamam de operações
em atraso que não são lançadas no balanço
como prejuízo. As 12 principais empresas inadimplentes estão
em difícil situação financeira ou já
faliram. Outro ardil: uma renegociação com empresas
de duvidosa capacidade de pagamento transformou os saldos atrasados
em normais, fazendo com que o balanço do FNE apresente um
ativo saudável quando na verdade é de liquidez
duvidosa. Os auditores afirmam no documento que o BNB dita
regras favoráveis ao banco e prejudiciais ao fundo. Mas talvez
o mais grave tenha sido a grande concentração de recursos
liberados para um pequeno número de empresas. De um
total de 334.812 operações realizadas, 3.776 (1%)
concentraram 40,99% dos recursos, apontam os técnicos.
Do saldo devedor bruto de R$ 6,2 bilhões, nada menos que
R$ 2,5 bilhões destinaram-se a 1% dos beneficiários.
O interessante
é que toda essa farra acontece sob as vistas do conselho
de administração do banco, que tem um ilustre na presidência:
o ministro do Planejamento, Martus Tavares. A atuação
à frente do ministério não exime Tavares de
suas responsabilidades junto ao BNB ele foi, inclusive, notificado
judicialmente de todas as irregularidades. ISTOÉ encaminhou
ao ministro várias perguntas sobre os problemas detectados
pelo TCU, mas ele repassou à direção do BNB
a tarefa de responder. A assessoria do banco enviou texto manifestando
a sua discordância dos critérios utilizados pelos auditores
do TCU. Um dos pontos de divergência é a acusação
de concentração de recursos em poucas empresas beneficiadas.
A informação levantada não trata de desembolso,
mas de saldos devedores de uma data estática, não
se prestando para tal afirmação, diz o BNB.
Sobre o expediente de apresentar como ativo saudável o que
é de liquidez duvidosa, a assessoria afirma que as
renegociações de dívidas do BNB são
efetivadas com base em dispositivos legais. Apesar dessa argumentação,
o ministro Adylson Motta acolheu o relatório do TCU.
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