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BRASIL
Especial

O perigo mora ao lado
Fantasma da guerra biológica ronda a Amazônia com a intenção do governo americano de jogar fungos na Colômbia para combater o tráfico

Florência Costa – Bogotá

Foto: Carlos Hungria

O governo brasileiro está se fingindo de morto diante de uma verdadeira bomba-relógio em que se transformou a Colômbia, separada do Brasil por 1.600 quilômetros de extensão de terra na floresta amazônica. Mas agora, com a poderosa injeção de US$ 930 milhões que os Estados Unidos vão aplicar na Colômbia – a maior parte para alimentar o desacreditado aparato militar do País, sob o pretexto de combater o narcotráfico, através do polêmico Plano Colômbia –, o Brasil terá seus dias contados para permanecer em cima do muro. É que um fantasma começa a rondar a América do Sul: o de uma possível “vietnamização” e “balcanização” da Colômbia, começando pelo Sul do país, que faz fronteira com Equador, Peru e Brasil. Este cenário inclui ingredientes explosivos como guerra biológica e fumigações com produtos químicos em plena porta de entrada da Amazônia, para combater as plantações de coca e de papoula (da qual se fabrica a heroína), escalada de conflito armado patrocinada pelos dólares, assessores e helicópteros militares americanos numa região dominada pelas guerrilhas esquerdistas colombianas. Para completar, a entidade internacional Via Campesina prevê uma onda de 150 mil refugiados camponeses na região de Putumayo, onde o Plano Colômbia vai começar a ser implantado. Os guerrilheiros já advertiram que vão derrubar os helicópteros militares doados pelos “gringos”.

Novo Vietnã – O Equador – onde os Estados Unidos instalaram uma base militar, em Manta – já começa a ter pesadelos com as previsões de que cerca de 25 mil camponeses, segundo o jornal Guardian Weekly, podem desembarcar em seu território, fugindo da guerra química, biológica e militar. Além disso, eles temem acabar envolvidos no conflito armado. “O Equador não poderá se converter num novo Camboja se na Colômbia acontecerem conflitos como os do Vietnã”, advertiu o presidente do Congresso, Juan José Pons. O governo brasileiro continua quieto e não se pronuncia sobre os aspectos militares e políticos da ajuda militar americana à Colômbia, considerando esse assunto uma “questão bilateral”, apesar de todos os reflexos que isso possa trazer ao Brasil, como muitos analistas vêm advertindo. Mas o perigo de uma guerra biológica na Amazônia fez com que a diplomacia brasileira rompesse a barreira do silêncio. Segundo o Itamaraty, o governo Fernando Henrique Cardoso está atento e preocupa-se “com uma possível utilização de fungos contra os cultivos ilícitos que possam contaminar a rede fluvial brasileira (rios Içá e Japurá)”. Se armas biológicas forem utilizadas, de acordo com a nossa diplomacia, o governo vai “fazer gestões e requerer garantias de que o território brasileiro não será afetado”.

Foto: REUTERS
O general McCaffrey: dólares e ajuda militar "para fortalecer a democracia na Amércia Latina"

“A grande preocupação para nós é a guerra biológica na Amazônia. O Brasil tem que se precaver se forem usar os fungos, como o Fusarium oxysporum, que podem atingir também outros cultivos, não ilícitos, que são de sobrevivência dos camponeses da região. Além do mais, quem garante que essas armas biológicas não possam vir a atingir a Amazônia brasileira? As fumigações (com utilização de produtos químicos espalhados por aviões, que matam não só as plantações de coca e papoula, mas os cultivos normais, de subsistência, ambos desenvolvidos pelos camponeses) já foram feitas nos últimos oito anos e a área plantada de coca cresceu 30%”, advertiu Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Geovanni Falconi, dedicado ao estudo de assuntos como criminalidade organizada. Ele ressalta ainda que as fumigações provocam danos ecológicos, fazendo com que os camponeses se desloquem. “Esta é outra preocupação, os deslocamentos populacionais para os países vizinhos, que sempre acontecem em guerras, como na Europa, onde espalharam-se refugiados da guerra dos Bálcãs”, acrescentou. A guerra química e biológica não é uma novidade para os americanos, que utilizaram no Vietnã o agente laranja, que desfolhava as selvas do país atacado.

Com suas atenções voltadas muito mais para o oceano Atlântico, o Brasil não vê, mas bem ali, do nosso lado esquerdo, a Colômbia transformou-se num palco de um drama humanitário, com cenas de barbárie semelhantes às que chocaram os europeus durante a guerra de Kosovo, por exemplo. As vítimas preferenciais são os camponeses, cerca de 14 milhões em todo o país, um verdadeiro exército desarmado praticamente esquecido pelo Estado, que se transformou em alvo de uma guerra suja patrocinada principalmente pelos grupos paramilitares, financiados por narcotraficantes e latifundiários. Esses verdadeiros pelotões de tortura e morte, também apelidados como “paras”, liderados por Carlos Castaño, o chefão das temidas Autodefesas Unidas de Colômbia (AUC), contam com a conivência e ajuda de boa parte do próprio Exército colombiano. Este, por sua vez, terá a valiosa “mãozinha” de Washington. Os pelotões da morte se especializaram em massacrar e torturar pequenos e médios agricultores, que vêm sendo expulsos de suas terras, dentro de um processo que vem sendo chamado de contra-reforma agrária.

Guerrilha – Os “desplazados” (desalojados), quase dois milhões de pessoas, segundo a ONG colombiana Consultoria para Direitos Humanos e Deslocamentos, perambulam pelas montanhas, fogem para as cidades, onde abrigam-se em favelas, nas ruas, debaixo das pontes e vivem de bicos e esmolas num país que amarga hoje uma das suas piores crises econômicas, com a taxa de desemprego chegando a 20%. Elo mais frágil da tragédia colombiana, os camponeses vivem ainda sob fogo cerrado da sangrenta guerra travada entre as duas guerrilhas de esquerda há quase quatro décadas – as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN), que dominam 40% do território –, exército, polícia e grupos paramilitares. As perseguições aos camponeses vão ser denunciadas na ONU, em relatório que será entregue em novembro, preparado pela organização Via Campesina, sediada na Bélgica, que reúne entidades representativas de camponeses e pequenos agricultores do mundo todo, entre elas o MST, que já começou a se manifestar no Brasil em defesa dos companheiros colombianos. Patrocinadora de uma campanha internacional pela reforma agrária, a Via Campesina enviou, há três semanas, uma missão de observação à Colômbia, incluindo um representante do MST, que viajou pelo interior do país para verificar as condições de vida dos camponeses.

Idealizado pelo presidente Andrés Pastrana – teoricamente para tirar o país do atoleiro econômico, da guerra e das teias do narcotráfico –, o Plano Colômbia está roubando o sono de muita gente, entre políticos, entidades defensoras dos direitos humanos, ambientalistas, ONGs e especialistas em questões militares na Colômbia, na Europa e nos Estados Unidos. “A zona escolhida para começar o Plano Colômbia tem interesses estratégicos para o Estado, como megaprojetos de exploração petrolíferas. É o ponto de entrada e controle da Amazônia, com toda a sua biodiversidade e recursos naturais. A escalada militar em Putumayo é uma aventura de resultados imprevisíveis”, observa o economista colombiano Hector Mondragón. “O Plano Colômbia é uma intervenção branca dos Estados Unidos na Colômbia. Os americanos querem, na verdade, que os governos vizinhos à Colômbia, inclusive o Brasil, coloquem suas tropas no país para combater os guerrilheiros e o narcotráfico. Mas as Forças Armadas brasileiras não querem intervir de forma nenhuma no conflito colombiano”, diz o deputado federal José Genoíno (PT-SP), um dos parlamentares que mais se dedicam às questões de defesa do Brasil. Mas o diretor do Escritório de Política Nacional para o Controle de Drogas da Casa Branca, general Barry McCaffrey, conhecido como o czar da luta contra o narcotráfico, afirma que a colaboração americana vai “ajudar o governo colombiano a controlar seu território, reduzir a produção de drogas e o seu tráfico para os Estados Unidos”, além de “fortalecer a democracia, a estabilidade econômica e os direitos humanos na Colômbia”.

Ingerência – Um dos maiores temores é de que com o militarizado Plano Colômbia, orçado em US$ 7,5 bilhões (sendo que o governo colombiano aplicaria US$ 4 bilhões e o restante seria financiado pela comunidade internacional) as atuais negociações de paz entre as guerrilhas e o governo colombiano vão acabar sendo enterradas. Diante da atuação de Tio Sam nas barbas do Brasil, os partidos de esquerda latino-americanos, reunidos no chamado Foro de São Paulo, vão reivindicar dos presidentes da América do Sul, que se encontram neste mês em Brasília, que rejeitem a “ingerência americana na América do Sul”. O coronel da reserva Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, lembra que a nossa fronteira com a Colômbia já está guarnecida militarmente com cinco mil homens, mas diz que o problema é que não se sabe o que vai acontecer como consequência do Plano Colômbia. “A neutralidade da diplomacia brasileira não conduz a nada. O Brasil deveria se pronunciar a favor da negociação de paz entre a guerrilha e o governo colombiano. Mas nem os Estados Unidos nem o governo colombiano querem um acordo porque sabem que teriam que conceder poder à guerrilha, que até agora está sendo vitoriosa. Para o governo da Colômbia é muito mais cômodo manter o narcotráfico e continuar recebendo dinheiro americano para combater a guerrilha”, analisou Cavagnari, advertindo que o uso militar para combater o narcotráfico nunca deu certo.

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