Especial
O
perigo mora ao lado
Fantasma
da guerra biológica ronda a Amazônia com a intenção do governo americano
de jogar fungos na Colômbia para combater o tráfico
Florência
Costa – Bogotá
O governo
brasileiro está se fingindo de morto diante de uma verdadeira
bomba-relógio em que se transformou a Colômbia, separada
do Brasil por 1.600 quilômetros de extensão de terra
na floresta amazônica. Mas agora, com a poderosa injeção
de US$ 930 milhões que os Estados Unidos vão aplicar
na Colômbia a maior parte para alimentar o desacreditado
aparato militar do País, sob o pretexto de combater o narcotráfico,
através do polêmico Plano Colômbia , o
Brasil terá seus dias contados para permanecer em cima do
muro. É que um fantasma começa a rondar a América
do Sul: o de uma possível vietnamização
e balcanização da Colômbia, começando
pelo Sul do país, que faz fronteira com Equador, Peru e Brasil.
Este cenário inclui ingredientes explosivos como guerra biológica
e fumigações com produtos químicos em plena
porta de entrada da Amazônia, para combater as plantações
de coca e de papoula (da qual se fabrica a heroína), escalada
de conflito armado patrocinada pelos dólares, assessores
e helicópteros militares americanos numa região dominada
pelas guerrilhas esquerdistas colombianas. Para completar, a entidade
internacional Via Campesina prevê uma onda de 150 mil refugiados
camponeses na região de Putumayo, onde o Plano Colômbia
vai começar a ser implantado. Os guerrilheiros já
advertiram que vão derrubar os helicópteros militares
doados pelos gringos.
Novo
Vietnã O Equador onde os Estados Unidos
instalaram uma base militar, em Manta já começa
a ter pesadelos com as previsões de que cerca de 25 mil camponeses,
segundo o jornal Guardian Weekly, podem desembarcar em seu território,
fugindo da guerra química, biológica e militar. Além
disso, eles temem acabar envolvidos no conflito armado. O
Equador não poderá se converter num novo Camboja se
na Colômbia acontecerem conflitos como os do Vietnã,
advertiu o presidente do Congresso, Juan José Pons. O governo
brasileiro continua quieto e não se pronuncia sobre os aspectos
militares e políticos da ajuda militar americana à
Colômbia, considerando esse assunto uma questão
bilateral, apesar de todos os reflexos que isso possa trazer
ao Brasil, como muitos analistas vêm advertindo. Mas o perigo
de uma guerra biológica na Amazônia fez com que a diplomacia
brasileira rompesse a barreira do silêncio. Segundo o Itamaraty,
o governo Fernando Henrique Cardoso está atento e preocupa-se
com uma possível utilização de fungos
contra os cultivos ilícitos que possam contaminar a rede
fluvial brasileira (rios Içá e Japurá).
Se armas biológicas forem utilizadas, de acordo com a nossa
diplomacia, o governo vai fazer gestões e requerer
garantias de que o território brasileiro não será
afetado.
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Foto:
REUTERS
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| O
general McCaffrey: dólares e ajuda militar "para
fortalecer a democracia na Amércia Latina" |
A
grande preocupação para nós é a guerra
biológica na Amazônia. O Brasil tem que se precaver
se forem usar os fungos, como o Fusarium oxysporum, que podem atingir
também outros cultivos, não ilícitos, que são
de sobrevivência dos camponeses da região. Além
do mais, quem garante que essas armas biológicas não
possam vir a atingir a Amazônia brasileira? As fumigações
(com utilização de produtos químicos espalhados
por aviões, que matam não só as plantações
de coca e papoula, mas os cultivos normais, de subsistência,
ambos desenvolvidos pelos camponeses) já foram feitas nos
últimos oito anos e a área plantada de coca cresceu
30%, advertiu Walter Maierovitch, ex-secretário nacional
antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Geovanni Falconi,
dedicado ao estudo de assuntos como criminalidade organizada. Ele
ressalta ainda que as fumigações provocam danos ecológicos,
fazendo com que os camponeses se desloquem. Esta é
outra preocupação, os deslocamentos populacionais
para os países vizinhos, que sempre acontecem em guerras,
como na Europa, onde espalharam-se refugiados da guerra dos Bálcãs,
acrescentou. A guerra química e biológica não
é uma novidade para os americanos, que utilizaram no Vietnã
o agente laranja, que desfolhava as selvas do país atacado.
Com
suas atenções voltadas muito mais para o oceano Atlântico,
o Brasil não vê, mas bem ali, do nosso lado esquerdo,
a Colômbia transformou-se num palco de um drama humanitário,
com cenas de barbárie semelhantes às que chocaram
os europeus durante a guerra de Kosovo, por exemplo. As vítimas
preferenciais são os camponeses, cerca de 14 milhões
em todo o país, um verdadeiro exército desarmado praticamente
esquecido pelo Estado, que se transformou em alvo de uma guerra
suja patrocinada principalmente pelos grupos paramilitares, financiados
por narcotraficantes e latifundiários. Esses verdadeiros
pelotões de tortura e morte, também apelidados como
paras, liderados por Carlos Castaño, o chefão
das temidas Autodefesas Unidas de Colômbia (AUC), contam com
a conivência e ajuda de boa parte do próprio Exército
colombiano. Este, por sua vez, terá a valiosa mãozinha
de Washington. Os pelotões da morte se especializaram em
massacrar e torturar pequenos e médios agricultores, que
vêm sendo expulsos de suas terras, dentro de um processo que
vem sendo chamado de contra-reforma agrária.
Guerrilha
Os desplazados (desalojados), quase dois milhões
de pessoas, segundo a ONG colombiana Consultoria para Direitos Humanos
e Deslocamentos, perambulam pelas montanhas, fogem para as cidades,
onde abrigam-se em favelas, nas ruas, debaixo das pontes e vivem
de bicos e esmolas num país que amarga hoje uma das suas
piores crises econômicas, com a taxa de desemprego chegando
a 20%. Elo mais frágil da tragédia colombiana, os
camponeses vivem ainda sob fogo cerrado da sangrenta guerra travada
entre as duas guerrilhas de esquerda há quase quatro décadas
as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(Farc) e o Exército de Libertação Nacional
(ELN), que dominam 40% do território , exército,
polícia e grupos paramilitares. As perseguições
aos camponeses vão ser denunciadas na ONU, em relatório
que será entregue em novembro, preparado pela organização
Via Campesina, sediada na Bélgica, que reúne entidades
representativas de camponeses e pequenos agricultores do mundo todo,
entre elas o MST, que já começou a se manifestar no
Brasil em defesa dos companheiros colombianos. Patrocinadora de
uma campanha internacional pela reforma agrária, a Via Campesina
enviou, há três semanas, uma missão de observação
à Colômbia, incluindo um representante do MST, que
viajou pelo interior do país para verificar as condições
de vida dos camponeses.
Idealizado
pelo presidente Andrés Pastrana teoricamente para
tirar o país do atoleiro econômico, da guerra e das
teias do narcotráfico , o Plano Colômbia está
roubando o sono de muita gente, entre políticos, entidades
defensoras dos direitos humanos, ambientalistas, ONGs e especialistas
em questões militares na Colômbia, na Europa e nos
Estados Unidos. A zona escolhida para começar o Plano
Colômbia tem interesses estratégicos para o Estado,
como megaprojetos de exploração petrolíferas.
É o ponto de entrada e controle da Amazônia, com toda
a sua biodiversidade e recursos naturais. A escalada militar em
Putumayo é uma aventura de resultados imprevisíveis,
observa o economista colombiano Hector Mondragón. O
Plano Colômbia é uma intervenção branca
dos Estados Unidos na Colômbia. Os americanos querem, na verdade,
que os governos vizinhos à Colômbia, inclusive o Brasil,
coloquem suas tropas no país para combater os guerrilheiros
e o narcotráfico. Mas as Forças Armadas brasileiras
não querem intervir de forma nenhuma no conflito colombiano,
diz o deputado federal José Genoíno (PT-SP), um dos
parlamentares que mais se dedicam às questões de defesa
do Brasil. Mas o diretor do Escritório de Política
Nacional para o Controle de Drogas da Casa Branca, general Barry
McCaffrey, conhecido como o czar da luta contra o narcotráfico,
afirma que a colaboração americana vai ajudar
o governo colombiano a controlar seu território, reduzir
a produção de drogas e o seu tráfico para os
Estados Unidos, além de fortalecer a democracia,
a estabilidade econômica e os direitos humanos na Colômbia.
Ingerência
Um dos maiores temores é de que com o militarizado
Plano Colômbia, orçado em US$ 7,5 bilhões (sendo
que o governo colombiano aplicaria US$ 4 bilhões e o restante
seria financiado pela comunidade internacional) as atuais negociações
de paz entre as guerrilhas e o governo colombiano vão acabar
sendo enterradas. Diante da atuação de Tio Sam nas
barbas do Brasil, os partidos de esquerda latino-americanos, reunidos
no chamado Foro de São Paulo, vão reivindicar dos
presidentes da América do Sul, que se encontram neste mês
em Brasília, que rejeitem a ingerência americana
na América do Sul. O coronel da reserva Geraldo Cavagnari,
do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, lembra
que a nossa fronteira com a Colômbia já está
guarnecida militarmente com cinco mil homens, mas diz que o problema
é que não se sabe o que vai acontecer como consequência
do Plano Colômbia. A neutralidade da diplomacia brasileira
não conduz a nada. O Brasil deveria se pronunciar a favor
da negociação de paz entre a guerrilha e o governo
colombiano. Mas nem os Estados Unidos nem o governo colombiano querem
um acordo porque sabem que teriam que conceder poder à guerrilha,
que até agora está sendo vitoriosa. Para o governo
da Colômbia é muito mais cômodo manter o narcotráfico
e continuar recebendo dinheiro americano para combater a guerrilha,
analisou Cavagnari, advertindo que o uso militar para combater o
narcotráfico nunca deu certo.
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