CAPA
 ÍNDICE
 Exclusivo Online
 REPORTAGENS
 MULTIMÍDIA
 FOTO DA SEMANA
 ENSAIOS
 FOTOGRÁFICOS
 ISTOÉ CONFERE
 ARTIGOS
 ESTAÇÃO DA LUZ
 BATE-PAPO ÍNTEGRAS
 Editorias
 ARTES & ESPETÁCULOS
 BRASIL
 CIÊNCIA & TECNOLOGIA
 COMPORTAMENTO
 ECONOMIA & NEGÓCIOS
 EDUCAÇÃO
 ENTREVISTA
 INTERNACIONAL
 MEDICINA & BEM-ESTAR
 POLÍTICA
 Seções
 A SEMANA
 CARTAS
 DATAS
 EDITORIAL
 EM CARTAZ
 FAX BRASÍLIA
 GENTE
 SÉCULO 21
 VIVA BEM
 Busca
  Procure outras matérias
ENTREVISTA

Belo engajado
Depois de dar adeus ao futebol, Raí quer estar mais perto
do povo, viajar muito, tomar bons vinhos, estudar e dormir
até tarde

Chico Silva

Foto: Ricardo Giraldez

RAÍ: “É hora de enfrentar novos desafios. Parei por cima”

São 20h58. A um quilômetro do estádio do Morumbi, em São Paulo, não se consegue mais andar de carro. Dentro de 42 minutos, começa a partida entre Brasil e Argentina, válida pelas Eliminatórias para Copa 2002. Raí, convidado pelo canal de tevê francês Plus para comentar a partida, pega carona no carro da reportagem e acaba preso no engarrafamento. Não vê alternativa. “Vou correndo”, avisa. Ele abre a porta e se lança na multidão de torcedores que caminha com passos apressados em direção ao estádio. Poucos se atrevem a falar com o ídolo e, em dez minutos, ele chega ao portão que dá acesso a fotógrafos e câmeras de tevê. Daqui para a frente vai ser assim. O jogador, que há duas semanas deu adeus ao futebol, quer estar mais perto do povo. Aos 35 anos, avô precoce de Naira, um ano e meio, ele pretende dedicar parte de seu tempo à Fundação Gol de Letra, instituição beneficente criada em parceria com o amigo e também jogador Leonardo, do Milan, da Itália. A Gol de Letra já atende mais de 150 crianças carentes na periferia de São Paulo. Longe do campo e com tempo livre, o jogador descobriu seu lado intelectual-politizado. Anda lendo Darci Ribeiro, Gandhi e repetindo que “está na hora de as elites históricas do País investirem nas massas”. Também quer estudar Filosofia, Antropologia ou Sociologia. “Sou um humanista”, define-se. Mas há planos também para as distrações mundanas. O ex-craque da Seleção Brasileira, Botafogo de Ribeirão Preto, Ponte Preta, São Paulo e Paris Saint-Germain, da França, quer aproveitar, e muito, os dias sem treinos, jogos e concentrações. Pretende dormir até tarde, viajar a Paris pelo menos três vezes por ano e renovar sua adega com bons vinhos franceses. Raí agora vai curtir a vida. Dinheiro não irá faltar. Comenta-se que o craque teria encerrado a carreira com o maior salário do futebol brasileiro: algo em torno de R$ 400 mil. Ele deu entrevista a ISTOÉ na sede da Fundação Gol de Letra, em São Paulo.

ISTOÉ – Existe um momento ideal para pendurar as chuteiras?
Raí
– Cada jogador tem que saber qual é o seu. O meu é agora. É hora de enfrentar novos desafios. Estou me sentindo bem por ter parado. Foi num momento legal. Parei por cima, me recuperei da contusão (Raí ficou mais de oito meses parado em decorrência de uma lesão no joelho causada por uma entrada desleal do zagueiro Wilson Gottardo, do Cruzeiro, num jogo entre o tricolor paulista e o time mineiro válido pelo Brasileiro de 98) e ajudei o São Paulo a conquistar o Paulistão 2000.

ISTOÉ – Alguns ex-jogadores têm sérios problemas para encarar o fim da carreira. Muitos caem no alcoolismo, outros têm sérias crises de depressão. Você está preparado para a nova vida?
Raí
– Estaria mentindo se dissesse que estou inteiramente preparado. Ninguém está, ainda mais quando se passa 20 anos nessa rotina. Ainda não deu para avaliar os efeitos de minha decisão, mas tenho consciência das dificuldades que virão pela frente. Às vezes, é melhor não estar preparado mesmo. Deve ser pior ficar se enganando.

ISTOÉ – Você foi ídolo no São Paulo e no Paris Saint-Germain. Apesar de ter conquistado o tetracampeonato mundial nos Estados Unidos, em 1994, nunca fez o mesmo sucesso na Seleção. Por quê?
Raí
– Fui capitão da Seleção durante os três anos que antecederam o Mundial. O problema é que nos momentos marcantes da Copa não fui bem. Eu reconheço que não estava na minha melhor forma. Havia também uma pressão muito grande. Era o homem de confiança do Parreira. Muitos queriam a sua saída. Como eu era o símbolo do time dirigido por ele, pediam a minha saída também. Apesar de tudo, sinto orgulho de ter sido coadjuvante daquele time. Não foi a Copa dos meus sonhos, mas foi a do sonho de milhões de brasileiros. Há 24 anos não comemorávamos um título.

ISTOÉ – Comenta-se que Zagallo, coordenador técnico da Seleção em 1994, teria sido o responsável pela sua saída da equipe após a terceira partida da Copa. Ele também não o convocou para o Mundial da França, em 1998, país onde você jogava e era ídolo. Zagallo não gosta de você?
Raí
– Em 1998, Zagallo me convocou para o último jogo contra a Argentina antes da Copa, no Maracanã. Fui mal. Eu sabia que não era um dos preferidos do Zagallo, mas não tenho nada contra ele. Acredito que nem ele contra mim. Não se tratava de um problema pessoal e, sim, de uma opção tática e técnica dele. Mas não dá para negar que achei estranha aquela convocação. Desde a Copa de 1994, ele não tinha me chamado para nenhuma partida. Talvez fosse melhor nem ter jogado. Seria o mais lógico.

ISTOÉ – Qual a maior alegria que o futebol lhe deu?
Raí
– Os títulos são sempre importantes. Mas dois momentos ficarão marcados na minha memória. A primeira vez em que fui titular nos juniores do Botafogo de Ribeirão Preto (time que revelou Raí e o irmão Sócrates) foi um deles. Era uma partida preliminar do time profissional. Quando entrei em campo com aquela camisa 10, senti um prazer indescritível. Ali descobri o que queria ser na vida. Outro momento foi um dos jogos do Paris Saint-Germain contra o Lyon, em 1997. O time passava por um momento difícil. Como um dos jogadores mais experientes do grupo, pedi a palavra antes de entrarmos em campo. Foi uma coisa tão forte que quando acabei de falar (em francês) todos estavam chorando. Um companheiro de time chegou a dizer que se não ganhássemos aquele jogo nunca mais venceríamos partida alguma. Acabou 3 a 1 para nós. Senti o poder que poderia ter sobre o grupo. Levarei isso para o resto da minha vida.

ISTOÉ – Quem foi melhor? Você ou seu irmão Sócrates?
Raí
– Ele era um ídolo dentro de casa e me motivou a ser jogador de futebol. Sócrates era genial, craque. Eu fui atleta. Ganhei mais títulos, mas ele foi melhor jogador. Sócrates era fora de série.

ISTOÉ – Você jogou no Paris Saint-Germain de 93 a 98. Como foi sua passagem pela França?
Raí
– Conheci uma civilização muito mais evoluída que a nossa. Percebi que coisas utópicas no Brasil lá são possíveis. A França é uma democracia cultural e educacional. Gente como a filha da minha empregada tem acesso a ensino público e sistema de saúde de qualidade e gratuitos. Para quem vem de um país como o nosso, é difícil acreditar que haja no mundo justiça social. Isso me deixou mais otimista, esperançoso.

ISTOÉ – O País está perdendo um craque e ganhando um político?
Raí
– Não sou um homem de pretensões políticas, mas de ações políticas. Quero usar o meu prestígio e a minha credibilidade para mobilizar a sociedade civil e o meio esportivo. Está na hora de as elites históricas do País investirem nas massas. Acreditar no potencial do povo é apostar num futuro mais digno para o Brasil. Não sou filiado e nem pretendo me filiar a nenhum partido. Meu instrumento de mobilização é, por enquanto, a Fundação Gol de Letra.

ISTOÉ – O que acha do presidente Fernando Henrique?
Raí
– Votei nele na última eleição. Hoje, dificilmente votaria de novo. Fernando Henrique não desenvolveu um plano social radical, a exemplo do que fez para a economia com o Real. Esperava que ele colocasse para fora seu lado sociólogo. A educação é fundamental para a mudança do Brasil e não se investiu nela. Como é um investimento a longo prazo, os resultados só aparecerão daqui a algumas gerações. Mas não adianta só culpar o presidente. A sociedade civil precisa se mobilizar, pressionar, cobrar das autoridades. Por isso vejo com bons olhos o crescimento de movimentos como o dos sem-terra e, recentemente, dos professores aqui em São Paulo. Apesar de alguns excessos, que eu não aprovo, são esses legítimos movimentos que fazem a coisa ir na direção que a gente quer. As reivindicações são justas. Há muito deveriam ter sido atendidas.

próxima >>


 
ENQUETE 1

Eleições 2000
Quem vai ser o próximo prefeito de São Paulo?

 
Marta Suplicy
Paulo Maluf
Luíza Erundina
Geraldo Alckmin
Romeu Tuma
Fernando Collor
Marcos Cintra

ENQUETE 2

Ser bom pai é:

Estipular regras, alimentar e cuidar da educação dos filhos

Atender todos os desejos dos filhos

Ser companheiro e orientar os filhos, ouvindo suas opiniões

Não esconder suas falhas, mas impor limites

Levar os filhos na escola e brincar com eles

FÓRUM
Raí, o belo
Por que Raí é tão diferente dos outros jogadores de futebol?

» Outros fóruns


EDIÇÕES
ANTERIORES


ESPECIAIS

ASSINATURAS

EXPEDIENTE

PUBLICIDADE

FALE CONOSCO


ASSINE A
NEWSLETTER


| ISTOÉ ONLINE | DINHEIRO | ISTOÉ GENTE | PLANETA | ÁGUA NA BOCA | EDIÇÕES ANTERIORES | ESPECIAIS |
| ASSINE A NEWSLETTER | ASSINATURAS | EXPEDIENTE | FALE CONOSCO | PUBLICIDADE |
© Copyright 1996/2000 Editora Três