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O empreiteiro abre o bico - continuação


Foto: Caio Guatelli/AE
“O Di Gênio paga tudo para o ACM. O senador não sai do avião dele, mas vive perguntando quem viaja no avião de quem”

ISTOÉ – A imprensa toda falou que a Incal era do Luiz Estevão e mostrou aquele contrato que foi encontrado na sua casa, que seria um contrato de gaveta. A Incal é do Luiz Estevão?
Monteiro de Barros
– Até gostaria que fosse dele porque ele ficava com esse ônus todo. Num processo licitatório é normal os concorrentes ligarem, tentarem se associar. Nós tivemos algumas conversas com o Luiz e eu realmente achei que talvez, por ele morar em Brasília e ser um sujeito extremamente articulado lá, pudesse vir a somar com um lado que eu não tinha, que era esse lado de lá, num projeto desse tamanho. Ele naquela época estava querendo entrar em São Paulo, o grupo dele estava se expandindo muito. Então tinha uma sinergia de interesses. Nós chegamos a conversar e fazer num determinado momento uma associação. O Luiz é um sujeito brilhante mas muito difícil. Não deu certo porque ele emperrou num problema técnico. Ele queria fazer um prédio horizontal e nós, vertical.

ISTOÉ – O TRT de Belo Horizonte não foram vocês que venderam?
Monteiro de Barros – Não. Nós estivemos no TRT de São Paulo e eu fui corretor, intermediando. Eu tinha 23 anos e era muito amigo do Mário Zotti, dono da GTO. O Zotti tinha uns empreendimentos fantásticos, eram três empreendimentos. Ele começou a ter problemas e era muito financiado pela Haspa.
ISTOÉ – A Haspa parece que era do sogro do Luiz Estevão.
Monteiro de Barros
– Não. A Haspa era dos Stockler. Aí ele não conseguiu cumprir e entregou os imóveis para a Haspa, que engoliu a GTO. A Haspa quase quebrou, os Stockler não aguentaram a porrada e saíram atrás de um sócio. Pegaram o Sérgio Chofi, que comprou a Haspa. Nessa época o tribunal de São Paulo queria comprar um prédio. Eu ofereci dois prédios para o tribunal. O tribunal acabou comprando. O Chofi acabou o prédio e entregou para o tribunal. Quando já tinha vendido o prédio, ele teve problemas na Haspa. Aí ele se associou à Colméia, que era do sogro do Luiz, o Cleto Meirelles. Aí rodaram a Haspa e a Colméia juntas. Então eu fiz negócio para o Sérgio Chofi. Seu Cleto Meirelles eu não conhecia nem de binóculo. Eu vim a saber que ele participava depois de muito tempo.

ISTOÉ – E os outros tribunais?
Monteiro de Barros
– No caso do TRT de Brasília algumas empresas me chamaram para dizer: “Como vocês resolveram esse problema em São Paulo?” E é evidente que eu cobrei. Vou trabalhar de graça? Então não é que eu fiz o negócio.

ISTOÉ – O sr. deu uma consultoria.
Monteiro de Barros
– Exato.

ISTOÉ – E Porto Alegre?
Monteiro de Barros
– Eu tinha negócio com a Aplub. O presidente da Aplub, que é o dr. Rolf Zelmanoviz, um dos brasileiros mais brilhantes que eu conheço, tinha conseguido associar a Aplub, que era uma pulga, com o Bank of America, que era o maior banco do mundo, formando o Multibanco, que era atrás do meu escritório na 24 de Maio com D. José de Barros. Então eu conhecia ele porque aquele prédio esteve à venda algumas vezes e a Aplub tinha 51% do Multibanco. O Bank of America tinha 49%. E o dr. Rolf era o presidente. Alguns anos depois, lá em Porto Alegre, a Aplub fez com uma outra empresa, não sei o nome, um negócio com o tribunal de lá e viabilizou o prédio de lá. Ele me chamou algumas vezes: como vocês fizeram isso, como fizeram aquilo? Mas coisas normais. Nunca tive uma reunião em tribunal nenhum.

ISTOÉ – Como funciona o processo de liberação de verbas?
Monteiro de Barros
– O que o governo reparte, o que é? Ele tem, digamos, 20 bilhões para investir no ano. O DNER, Ministério dos Transportes, precisa de 15 bilhões. Não tem jeito, vai parar o País se não tiver 15 bilhões para o DNER. Sobraram cinco. A saúde precisa de três. Sobraram dois. Vão para tais, tais e tais. Então não há mais para fazer o prédio em São Paulo. Corta o orçamento pela metade. Não interessa se contratou ou não.

Foto: Dida Sampaio/AE
“Eu conheci o ministro Eduardo Jorge socialmente”

ISTOÉ – Como ficou a obra do tribunal de Rondônia?
Monteiro de Barros
– Vieram 75 milhões, 50 para a Eleitoral e 25 para a Justiça do Trabalho. Estou dando números grosseiros, 20 para São Paulo e cinco para Rondônia. Nomeia-se o relator e esse projeto de lei que está dentro do Congresso vem para a mesa do Congresso Nacional. Como a comissão de orçamento é mista, composta por deputados e senadores, o presidente do Congresso é que determina o presidente da comissão e o presidente da comissão nomeia o relator. Nomeou o senador Valdeck Ornellas. O senador pegou o projeto de lei, pediu informações, o tribunal nos solicitou informações, forneci informações. Eu não saía do Congresso, desesperado com os fornecedores, aquela coisa. Tinha uma programação, pô. O Giovanni Queiroz não queria aprovar porque Rondônia seria beneficiada e o candidato dele em Rondônia, do PDT, estava indo muito bem na tal eleição que ia ter. Se o tal projeto de lei fosse aprovado, o Odacyr Soares seria beneficiado de alguma maneira pelo dinheiro que ia para o tribunal de Rondônia. Bem, o Valdeck viu aquela polêmica e rachou o projeto de lei, liberou (a Justiça Eleitoral aprovou) e renunciou à relatoria da Justiça do Trabalho. Aí o projeto voltou para a comissão, da parte da Justiça do Trabalho. Foi nomeado um outro relator, o Odacyr Soares. Foram mandados todos os subsídios para a assessoria do Senado. A assessoria do Senado fez um dossiê desta altura aqui e passou para o senador Odacyr Soares, que foi para a comissão e defendeu o PL e aprovou, em meio a uma briga no plenário de dedo na cara do Giovanni Queiroz.

ISTOÉ – O que aconteceu?
Monteiro de Barros
– Durante dois meses e meio aquela coisa ia para a sessão, dava briga e o Giovanni Queiroz com o Odacyr Soares não aprovavam. Aí o senador Odacyr Soares pegou e deu 10% do projeto de lei (que também é uma prerrogativa do relator) para o fundo partidário. Sabe o que dá isso? Dava 2,5 milhões. Chega na hora de apresentar o projeto de lei, o Odacyr Soares apresenta, o PDT do Giovanni Queiroz levanta-se contra. Cadê o PT para ficar contra? Tinha saído da sessão. E aprovou. Só o PDT foi contra. Aí o sujeito do PT diz: “Porra, eu estava no café. Não vi.” Não viu por quê? Não vem com essa conversa pra cima de mim. Não foi lá porque recebeu 10% para o fundo partidário, todos os partidos receberam o dinheiro e acertou o caixa deles todos.

ISTOÉ – Mas no tribunal da Paraíba o sr. não fez corretagem?
Monteiro de Barros – Nunca nem ouvi falar disso da Paraíba, nunca nem estive lá. Talvez eu conheça um ou dois paraibanos na minha vida. Nas minhas obras deve ter bastante paraibano.

ISTOÉ – O sr. conhece Almir Pazzianotto?
Monteiro de Barros
– Conheci-o na época em que foi secretário de Estado aqui em São Paulo. Sei que ele era contra a centralização das Juntas em um determinado momento e sei que a briga do ACM em cima de nós e da Justiça do Trabalho foi por causa dele, porque ele foi falar alguma malcriação pro ACM publicamente. E o ACM achou que ele era padrinho do empreendimento de São Paulo. Isso foi um mês antes de ele vir visitar o nosso prédio. E quem trouxe o ACM para visitar o nosso prédio foi o Di Gênio, que vocês deviam perguntar. Porque o ACM pergunta tanto quem viaja no avião de quem, como, quem paga o que pra quem. E o Di Gênio paga tudo pro ACM e ele não sai do avião dele, não sai do avião dele.

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