Capa
O empreiteiro abre o bico
Fábio Monteiro de Barros construiu o TRT de Nicolau, foi preso
e agora conta como funciona o poder no Brasil
Carlos
Drummond, Mino Pedrosa, Tales Faria
| Foto:
João Primo |
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| Fábio
em frente ao prédio fatídico: “Quem vai pagar meu prejuízo é
o contribuinte” |
O empresário
Fábio Monteiro de Barros Filho, principal responsável
pela construção polêmica do Tribunal Regional
do Trabalho de São Paulo, é um bom contador de histórias.
Não perde a calma quando acuado, aos poucos vai deixando
a cerimônia de lado e aumentando o número de palavrões
em suas falas. Aos 44 anos, filho de uma família tradicional
de São Paulo, que dava, em 1823, o primeiro governador da
história de São Paulo: Lucas Antônio Monteiro
de Barros. Recém-separado, pai de três filhas, Fábio
está vivendo um dos piores momentos de sua vida. Acusado
de vários crimes contra os cofres públicos, acaba
de sair da prisão da Polícia Federal. Ao lado do juiz
Nicolau dos Santos Neto e do ex-senador Luiz Estevão, é
acusado de desviar verbas. O empresário nega tudo. Diz-se
injustiçado e, de certa maneira, vítima de encontros
infelizes. Era o homem errado no lugar errado. É uma versão.
Na entrevista a seguir, além de se defender, Fábio
Monteiro de Barros ataca com grande poder bélico.
ISTOÉ
O que o sr. acha do juiz Nicolau?
Fábio Monteiro de Barros Filho É um homem
muito severo, muito autoritário, porém extremamente
responsável e exigente. Ele não nos dava a menor liberdade
e exigia o máximo o tempo todo. A história dele é
uma história de regime autoritário, era um homem ligado
às Forças Armadas durante todo o período ditatorial.
Pelo que consta, parece que ele era o financeiro do Doi-Codi (organismo
do Exército de repressão política criado no
tempo da ditadura militar). Tinha o Tuma dentro do Dops e ele era
o financeiro do Doi-Codi. O Tuma agora diz que nem conhece ele,
mas eu presenciei o juiz Nicolau algumas vezes chamando-o chefe.
Era assim que ele se dirigia ao Tuma. Eu presenciei duas ou três
vezes ele falando no telefone.
ISTOÉ Pelo que o sr. sabe, ele era amigo de Tuma?
Monteiro de Barros Muito amigo, muito amigo. São
coisas absolutamente públicas. É só pegar a
história dos dois e ver quantas pessoas conhecem isso, todo
mundo sabe. É que no Brasil as pessoas têm vergonha
de dizer certas coisas.
ISTOÉ O sr. é amigo dele?
Monteiro de Barros Não. Eu tive com ele uma relação,
eu diria, intensa. Como ele é autoritário, foi o único
presidente do TRT-SP que conseguiu viabilizar e tocou o prédio.
O atual presidente pretendeu ocupar esse espaço, dando um
tiro no próprio pé. Houve também uma briga
no início da polêmica entre o tribunal e o Ministério
Público. O tribunal é composto de juízes de
segunda instância que não aceitam conversar com o Ministério
Público da forma que o Ministério Público quer
conversar. Então havia um mal-estar mais antigo por parte
do Ministério Público em relação a esses
homens. E eu acho que conheciam a biografia do juiz Nicolau e tinham
um certo posicionamento contrário a uma outra geração
do Ministério Público que sofreu na ditadura de uma
outra forma. Então era natural.
ISTOÉ Por falar em amizades, o sr. é amigo
do ex-senador Luiz Estevão?
Monteiro de Barros Sou amigo. Minha filha é amiga
da filha dele também. Eu falei com eles poucas vezes depois
da cassação, mas falei. Considero-o um dos homens
mais inteligentes que eu conheço, trabalhador, brilhante,
um exemplo de garra inacreditável.
ISTOÉ Qual foi o resultado da paralisação
da obra?
Monteiro de Barros Nós perdemos o dinheiro, perdemos
as empresas, demitimos mais de 2.200 funcionários. Trabalhávamos
em oito Estados, saímos de R$ 150 milhões de faturamento
anual para zero. Todos os bens foram bloqueados, contas bancárias,
inclusive das pessoas físicas. A caderneta de poupança
da minha filha foi bloqueada porque ela tinha o meu CIC, é
menor. É um negócio que demole a gente inteiro. Nós
vamos recompor isso e, infelizmente, quem vai pagar todo esse prejuízo
vai ser o erário.
| Foto:
Ed Ferreira/AE |
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| “Presenciei
o juiz Nicolau chamando o Tuma de chefe” |
ISTOÉ
Qual é a sua relação com Eduardo Jorge?
Monteiro de Barros Eu conheci o ministro Eduardo Jorge
socialmente, como conheço praticamente todas as autoridades,
porque a gente frequenta os lugares. Nunca tive nenhum contato mais
próximo, nunca tratei com ele do assunto.
ISTOÉ O próprio juiz Nicolau admitiu na
conversa gravada que Eduardo Jorge atuava para liberar recursos
atrasados.
Monteiro de Barros E daí? Qual o problema? Isso
é legítimo.
ISTOÉ Mas por que o governo não assume
se isso é legítimo?
Monteiro de Barros E eu vou saber? Provavelmente o governo
não pode dizer: eu dou dinheiro pra cá, não
dou pra lá, dou pra lá, não dou pra cá.
Todo mundo pede dinheiro para o governo o tempo inteiro.
ISTOÉ O que o Eduardo Jorge fez não foi tráfico
de influência? Favorece uma pessoa porque ela está
ajudando o governo em outra causa. E por que o governo não
assume isso se é normal?
Monteiro de Barros Sabe por quê? Porque não
teve alguém lá brigando para não acabar. Se
tivesse alguém lutando para acabar, acabava.
ISTOÉ
A quebra do sigilo telefônico da CPI encontrou 15 ligações
suas para o Eduardo Jorge nesse período em que ele era ministro.
O que foi tratado?
Monteiro de Barros Eu verifiquei as ligações
e eram todas de um minuto. Então eram ligações
que não existiram. O que pode ter ocorrido nisso? Passar
um fax a pedido do tribunal. Algumas vezes o tribunal precisa de
elementos, subsídios. É normal.
| Foto:
Dida Sampaio/AE |
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| “O
Nicolau era o financeiro do Doi-Codi. Ele é autoritário” |
ISTOÉ
O sr. se encontrou com o presidente FHC?
Monteiro de Barros Houve três encontros. No dia
em que o Ministério Público entrou com ação
contra nós, decretando indisponibilidade de bens, eu estava
em Pernambuco recebendo o presidente em duas obras nossas.
ISTOÉ E aí o sr. falou com ele?
Monteiro de Barros Não. Eu nem sabia, vim saber
quando cheguei em São Paulo. O terceiro encontro foi em Paris,
numa feira imobiliária, a Mipin, quando eu apresentei o presidente
FHC ao presidente do grupo Calberson, um dos maiores da área
de logística na Europa.
ISTOÉ E o ministro Martus Tavares, o sr. já
conversou com ele?
Monteiro de Barros Nunca estive com ele. Ele eu não
conheço nem de cumprimentar.
ISTOÉ E o ministro Pedro Parente?
Monteiro de Barros Só de cumprimentar.
ISTOÉ
E qual é a sua relação de amizade com
o diretor-geral do Tribunal Superior de Trabalho, José Geraldo
Lopes Araujo?
Monteiro de Barros O TST controla no Brasil inteiro todos
os problemas. Então o dr. José Geraldo é um
pára-raio do Brasil na Justiça do Trabalho. Não
deve ter sido só eu que falei com ele. O Brasil inteiro deve
falar. Então eu devo ter tido vários contatos com
o dr. José Geraldo, até por ter esgotado as conversas
em São Paulo. E o juiz Nicolau era o primeiro a dizer, em
momentos críticos, de a gente ter que comprar isso ou aquilo:
O senhor liga para o dr. José Geraldo e verifica se
ele tem condição de, no orçamento global, poder
atender ou não atender. Checa com ele. É normal
esse processo.
ISTOÉ O sr. teve em algum momento algum indício
ou algo que o levasse a crer que o dinheiro teria saído,
mas desviado da finalidade principal?
Monteiro de Barros Não existe isso. O TRT fez
uma licitação para comprar um prédio a preço
fechado. São cerca de 150 bilhões de cruzeiros. Daí
para a frente, passaram três moedas, inflação
de dez mil por cento etc. Tive que contratar a Fipe, gastar uma
fortuna para saber o preço de hoje. Então tem que
parar esse chutódromo, cada um diz um valor.
ISTOÉ
Como foi feito?
Monteiro de Barros As empresas participantes, pessoas
físicas ou jurídicas, eram obrigadas a participar
de algumas visitas ao tribunal e às juntas, para conhecer
o funcionamento. Isso com lista de presença, todo mundo tinha
que ir, ouvir uma aula teórica e depois visitar os prédios
das juntas. Durante o processo licitatório, o jornal O Estado
de S. Paulo participou de todas as audiências e sessões
com um jornalista, que assinou todas as atas, contra a sua vontade,
porque o juiz Jamil Zantucci, que presidia a comissão de
licitação, exigia. Então o jornal não
tem a menor autoridade moral de falar nada disso, porque acompanhou
o tempo todo.
próxima
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