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ENTREVISTA

Campeões à força
O fisiologista Turibio Leite condena a especialização de crianças em práticas esportivas e diz que as disputas, até os 12 anos, devem educar e divertir

Eduardo Marini

Foto: Helcio Nagamine

Turibio Leite defende o direito de livre escolha das crianças

Direcionar os filhos cada vez mais cedo para uma única atividade esportiva é um erro grave, que pode comprometer o desenvolvimento e a educação dos pequenos. Até a puberdade, a criança deve ter garantido o direito de praticar livremente todos os esportes que desejar, em busca de divertimento e aprendizado. Os pais precisam se esforçar para que os filhos tirem as melhores lições das disputas. Teses como essas, defendidas há anos pelo professor Turibio Leite Barros Neto, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), voltaram a ser discutidas recentemente no Brasil. As idéias de Turíbio Leite, que também é fisiologista do departamento de futebol do São Paulo, retomaram força com a publicação de um comunicado em que a Academia Americana de Pediatria condena os pais que obrigam menores de 12 anos a realizar uma só modalidade esportiva. Muitas vezes, a limitação vem acompanhada de uma atividade física exagerada, com o objetivo de formar atletas de ponta que possam render dividendos num futuro próximo. Nesta entrevista a ISTOÉ, Turibio Leite mostra os riscos dessa especialização precoce.

ISTOÉ – Como o sr. avalia o comunicado da Academia Americana de Pediatria?
Turibio Leite Neto
– Os profissionais foram muito felizes ao condenar a especialização precoce no esporte, isto é, a decisão, muitas vezes insana, de lutar para transformar crianças, da noite para o dia, em campeões que geram lucro. O comunicado repete um alerta que tenho feito nesses últimos anos. Todo pai acha o filho um craque, o máximo. O “meu menino” ou “a minha menina” é a criança que corre mais rápido, joga melhor, salta mais alto, dança com mais técnica e emoção. É também a mais bonita, a mais inteligente – e, se alguém não concorda com tudo isso, o melhor a fazer é mudar de assunto para evitar brigas. Pais são assim. Aqui mesmo, entre as pessoas que são atendidas pela equipe do Cemafe, esse é o discurso típico em quase todos os casos. O problema é que esse excesso de confiança, não raro, gera atitudes desequilibradas.

ISTOÉ – Por que isso ocorre?
Turibio
– Os pais são vaidosos e, muitas vezes, querem se realizar através dos filhos. Mas existe, também, um outro fator importante, cada vez mais comum. Como o esporte movimenta centenas de bilhões de dólares no mundo e é capaz de transformar pessoas humildes em milionários num estalar de dedos, muitos pais sobrecarregam crianças de 11, dez, oito, até sete anos, em busca de fama e dinheiro rápidos. Vislumbram um atalho para a salvação financeira da família e submetem os pequenos a rotinas extenuantes de treinamento, num esquema quase profissional. Essa neurose de correr para transformar a criança em atleta de ponta é uma atitude cruel – em alguns casos, quase criminosa. Mas, infelizmente, essa tem sido a realidade de milhares, talvez milhões de crianças em todo o mundo. Por isso, a Academia Americana de Pediatria decidiu condenar o direcionamento precoce às práticas esportivas, uma atitude apoiada por muitos pediatras, fisiologistas e educadores físicos. Os bons especialistas defendem que, até o início da puberdade – na faixa dos 12 anos –, o esporte deve funcionar como elemento de diversão para meninos e meninas. As disputas, nesta fase, devem ser regidas por códigos estabelecidos pelas próprias crianças. O profissionalismo e o direcionamento excessivo dos adultos devem ser evitados a todo custo.

ISTOÉ – As competições, nesta fase, devem ser encaradas de que forma?
Turibio
– A cobrança exagerada produz uma dupla frustração, mesmo quando todos estão certos de que o filho é talentoso e ama o esporte que pratica. A criança é uma vencedora. Mesmo assim, no dia em que perde para o amigo, fica arrasada. O pensamento é o seguinte: “Eu não presto para nada. Bom é o fulano, que deixou o pai dele feliz. Olha lá, como o pai dele está rindo.” Ela se culpa pela derrota e também por imaginar que o pai e a mãe estão tristes. Submeter uma criança a esse tipo de sofrimento é tudo o que não se deve fazer.

ISTOÉ – Como se deve agir nessas situações?
Turibio
– O certo é rememorar as conquistas anteriores e destacar que, na vida, não se ganha tudo a todo momento. O problema é que pais que tentam, a todo custo, se realizar através dos resultados esportivos da criança dificilmente conseguem agir com a tranquilidade exigida pela situação. Meses atrás, vi uma ginasta brasileira de uns 11, 12 anos, chorando copiosamente na tevê por não ter atingido um índice qualquer. Esta foi uma das cenas mais constrangedoras que vi o esporte produzir em toda a minha vida. Tenho seis filhos. Os mais novos são duas meninas, de dez e 14 anos. Vou correr o risco de ser considerado preconceituoso, mas não vou deixar de dar minha opinião. Ginástica olímpica é fascinante, mas, sinceramente, não gostaria de ver minhas filhas envolvidas nesta prática esportiva altamente desgastante. Se a criança chega e diz: “Mãe, a única coisa que eu quero é ginástica esportiva”, talvez seja o caso de atender ao pedido. Do contrário, o melhor é não estimular.

ISTOÉ – Qual é a verdadeira função da atividade esportiva?
Turibio
– Poucas coisas podem ser tão úteis na formação de um indivíduo quanto o esporte, que diverte e educa ao mesmo tempo. As crianças, quando estão livres, em grupo, sem a sensação de serem observadas pelos adultos, experimentam vários tipos de atividades esportivas no mesmo dia. Começam jogando bola, depois tentam descobrir quem arremessa algo mais longe, passam a disputar saltos e terminam apostando corrida. Por que isso? Porque, no início da vida, elas procuram o esporte para se divertir. No campinho do terreno baldio, as normas visavam o divertimento, as disputas eram harmônicas e, normalmente, o perdedor tirava uma lição de vida. Aquilo fazia parte do amadurecimento da criança. Essa realidade produzia uma coisa muito importante, que é a seleção natural: o garoto bom num determinado esporte era eleito pelos próprios colegas. E quanto menos o adulto influenciava nessas escolhas, mais autênticas elas eram. Todo sujeito com mais de 30 anos que gosta de futebol, por exemplo, sabe até hoje quem era o craque da rua no seu tempo. Hoje, nas grandes cidades, as crianças nem sequer têm turma na rua. Quando podem, brincam nos condomínios. O restante do tempo é dedicado aos games e ao computador. Esses elementos da vida moderna têm, evidentemente, o seu lado positivo. Mas o fato é que, atualmente, quase não existem mais as oportunidades para a realização de atividades espontâneas em grupo, com normas e critérios estabelecidos pela própria turma. Isso é triste.

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