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A turma do Lalau - continuação


Fotos: Ed Ferreira/AE / Leopoldo Silva
Felipe Carpinelli

Na Câmara dos Deputados, os lobistas se organizaram. Lalau conseguiu que 20 deputados de São Paulo se reunissem no gabinete do falecido deputado Franco Montoro (PMDB-SP) para tratar das verbas do fórum paulista. Na ocasião, os maiores defensores da liberação de mais dinheiro para a obra já denunciada como superfaturada foram o ex-deputado Hélio Rosas (PMDB-SP), coordenador da bancada, que recebeu 30 ligações de Monteiro, e Ricardo Izar (PMDB-SP), acionado por Lalau e Fábio 23 vezes. Izar negou que tivesse conversado com a dupla. Ao tomar conhecimento da lista da CPI, ficou sem explicação. “É um absurdo, não conheço estas pessoas e estranho as ligações para meu gabinete”, reagiu Izar. “O Executivo é cúmplice e o Congresso é conivente com a criminosa construção desse tribunal”, protesta o deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), o primeiro a denunciar irregularidades na obra e a defender o cancelamento das verbas.

Fotos: Alan Rodrigues / Paulode Araújo / CBPRES / REUTERS

Outro lobista famoso do juiz Lalau foi o então presidente do TST, Ermes Pedrassani. Chamado insistentemente pelo amigo e colega de São Paulo, em junho de 1998 Pedrassani visitou os Pedros Malan (Fazenda) e Parente (Planejamento) em busca de verbas suplementares para o TRT paulista. No encontro, o então presidente do TST defendeu mais dinheiro para o prédio de Lalau, justificando que a obra estava em fase final e não poderia parar. Os dois ministros ficaram de estudar o pedido. Pedrassani passou uma tarde visitando a construção e fez um relatório, em reunião administrativa do tribunal, defendendo a continuidade da construção. O cruzamento das listagens da CPI com alguns dos telefones do então presidente do TST revela que ele recebeu pelo menos oito ligações de Nicolau. O ex-deputado Beto Mansur (PPB-SP), atual prefeito de Santos, também falou com os dois. Foram 38 ligações entre os anos de 1993 e 1996 quando estava na Câmara, incluindo o período que ocupou a segunda vice-presidência. Hoje o prefeito estranha as chamadas e questiona o levantamento da CPI, atribuindo as chamadas ao amigo Fernando Bozza, um ex-juiz classista do TRT-SP que virou diretor-jurídico da prefeitura de Mansur. “Nunca falei com os dois cidadãos”, disse. Outro deputado paulista mobilizado por Lalau foi Nelson Marquezelli (PTB-SP). Ele nega ter conversado com o juiz, apesar das 12 ligações de Lalau para o seu gabinete. “Nunca falei com ele”, afirmou.

Até mesmo no Ministério Público Lalau estendeu seus tentáculos. Dez procuradores entraram na Justiça com pedido de investigação de seus colegas Washington Bolívar de Brito Junior e Delza Curvello, do Rio de Janeiro. Entre as razões do pedido está a decisão dos dois procuradores de liberar R$ 23,2 milhões para a obra do TRT.

Washington chegou a receber um cheque de US$ 51 mil da Construtora Ikal, além de vários telefonemas de Nicolau e de Fábio Monteiro. As operações realizadas pela dupla Lalau e Fábio serão descobertas caso o juiz, uma vez preso, revele as perigosas ligações com o alto escalão do governo de FHC, do Judiciário e da Câmara.


Na lista dos procurados

Foto: Ricardo Stuckert
CACCIOLA Passaporte italiano facilita a fuga

O que os procuradores do Ministério Público Federal, no Rio de Janeiro, temiam, aconteceu. Depois de passar 37 dias na carceragem do Ponto Zero, em Benfica, subúrbio do Rio, o ex-banqueiro Salvatore Alberto Cacciola conseguiu um habeas-corpus e desapareceu. O habeas-corpus foi concedido liminarmente na sexta-feira 14 pelo presidente interino do Supremo Tribunal Federal, ministro Marco Aurélio Mello, primo do ex-presidente Fernando Collor. Cinco dias depois, o presidente do STF, ministro Carlos Velloso, aceitou o argumento do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, de que a liminar não poderia ter sido concedida pelo STF. Mas já era tarde. Quatro equipes de policiais federais iniciaram busca ao ex-banqueiro no Rio de Janeiro, mas até a noite da quinta-feira 20 Cacciola continuava fora do alcance da polícia.

Para conceder o habeas-corpus, o ministro Marco Aurélio Mello desqualificou a escuta telefônica que serviu de base para o pedido de prisão feito pelo MP. Os procuradores identificaram nas conversas gravadas uma tentativa de Cacciola de influenciar membros da Procuradoria-Geral da República. O ex-dono do Banco Marka, liquidado ano passado, logo após a farra da desvalorização do real, é acusado de favorecimento na ajuda de R$ 1,5 bilhão dada pelo Banco Central às entidades financeiras que apostavam na manutenção da política cambial. O advogado Raimundo Faoro admite que se Cacciola deixou o Brasil “a extradição será difícil, pois ele tem passaporte italiano” e a Itália não extradita seus cidadãos. A juíza Denise Frossard disse que a situação do Brasil lembra a frase dita pelo advogado Ruy Barbosa há cerca de 80 anos: “De tanto ver a impunidade triunfar o homem honesto terá vergonha de ser honesto.”

Hélio Contreiras

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