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A turma do Lalau

O juiz tinha esquema nos Três Poderes para facilitar a liberação do dinheiro desviado e sua rede de influência pode ser caracterizada como formação de quadrilha

Mino Pedrosa, Leonel Rocha e Isabela Abdala

Foto: Paulo Pinto/AE

O juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, mobilizou gente graúda do governo, ministros de Estado, parlamentares, magistrados e funcionários do Tribunal Superior do Trabalho que formavam uma eficiente equipe de lobistas para sua obra superfaturada e inacabada. O resultado foi o desaparecimento de R$ 169,5 milhões que saíram dos cofres públicos e foram parar em contas das construtoras Ikal, de Fábio Monteiro de Barros, do Grupo OK, do senador cassado Luiz Estevão e até em bancos de paraísos fiscais como Suíça, Panamá e Paraguai, onde Lalau tem contas. Além de contar com a ajuda privilegiada do ex-ministro Eduardo Jorge Caldas, seu maior lobista com gabinete no Planalto, o juiz tinha uma espécie de coordenador que o ajudava a traçar o desvio das verbas: o diretor-geral do TST, José Geraldo Lopes de Araújo. Segundo um dos integrantes do esquema, Geraldo era o braço direito de Fábio Monteiro.

Foto: Ricardo Stuckert
O GERENTE José Geraldo, do TST, atendia Nicolau até de madrugada

Amigo de Nicolau há mais de 20 anos, José Geraldo ocupa o cargo desde 1984 e sempre foi o principal contato do juiz em Brasília. Apesar da falta de dinheiro para a ampliação das instalações do Tribunal Superior, em 1994 José Geraldo conseguiu transferir R$ 3,5 milhões do TST para o fórum paulista. No ano seguinte, mais uma transferência. José Geraldo conseguiu ratear R$ 2,7 milhões de três tribunais regionais e do TST. Em 1996, mais uma operação: o diretor do TST, junto com Lalau, conseguiu convencer oito diretores de tribunais regionais a dispensarem quase R$ 5 milhões, transferidos para a construção do TRT-SP. Ao todo, foram R$ 11,2 milhões a mais canalizados do orçamento da Justiça trabalhista para a obra de Lalau. “Para nós, era fundamental concluir São Paulo para começar a nossa sede. Eu repassava a verba para o tribunal e não para ele pessoalmente”, justificou José Geraldo a ISTOÉ. O Tribunal de Contas da União não gostou de tanta generosidade e concluiu que as transferências de dinheiro de outros tribunais e do TST para a obra de São Paulo desobedeceram o Manual de Despesa da União. “Os créditos não foram utilizados em despesas pertinentes aos programas de trabalho vinculados às atividades das unidades que efetivaram o provisionamento”, concluiu o TCU.

Um amigo do peito

ISTOÉ – O sr. conhece o juiz Nicolau, é amigo dele?
José Geraldo
– Lógico que sou amigo. Conheço ele desde o tempo em que era corregedor, há 20 anos. O que não quero é misturar as coisas.

ISTOÉ – Levantamento da CPI mostra que o sr. recebeu muitos telefonemas do juiz.
José Geraldo
– Recebo muitos telefonemas por dia. Qual é o problema de o juiz Nicolau ligar para minha residência? Mas não era com a mesma frequência que ele ligava para meu gabinete. Eu acredito que não. Eu não repassava nada a pedido dele.

ISTOÉ – O sr. conhece o Fábio Monteiro?
José Geraldo
– Conheço, claro, e me dou bem com ele.

ISTOÉ
– Aparece na lista da CPI inúmeras ligações do Fábio para o sr.
José Geraldo – Isso não deve ser muito, não. Aqui para o tribunal tem. Até porque, veja bem, eu não posso proibir que ninguém ligue pra mim.

Leonel Rocha

José Geraldo estava mesmo empenhado em ajudar o amigo Lalau e Fábio Monteiro. A lista de telefonemas do juiz, analisada pela CPI do Judiciário, mostra a profunda intimidade dos três. Foram mais de 450 ligações entre eles. Inclusive bem longe do local de trabalho e fora do horário de expediente, como a ligação feita nas primeiras horas da madrugada do sábado, 23 de janeiro de 1999, quando o juiz foragido telefonou da sua casa de praia para o apartamento do diretor, em Brasília. Os dois conversaram por 17 minutos. “Sou amigo do Nicolau, me dou muito com ele, mas não quero misturar as coisas”, explica o diretor. O empenho de José Geraldo com a obra do TRT paulista era tão grande que ele tratava do assunto diretamente com o empreiteiro Fábio Monteiro de Barros, responsável pela construção do prédio. Segundo levantamento feito por ISTOÉ no programa de cruzamento de telefonemas da CPI, as ligações do empresário para o diretor foram feitas entre 1993 e 1998. No dia 23 de novembro de 1998, por exemplo, José Geraldo, pouco antes da meia-noite, conversou por 13 minutos com o construtor. “Sou amigo do Fábio Monteiro, não posso negar”, admitiu. José Geraldo recebeu, pelo menos, 451 telefonemas da dupla Fábio-Lalau. Nos últimos sete anos, os dois não pouparam interurbanos para autoridades em Brasília. Hoje, José Geraldo mantém estreita ligação com Fábio Monteiro e Nicolau. Eles “conversam”, através de familiares e advogados, via Internet com muita frequência.

Foto: Dida Sampaio/AE
O PROTETOR Eduardo Jorge trabalhava para
o juiz no governo

Comitê eleitoral – Ao contrário do que explicou inicialmente, o ex-ministro Eduardo Jorge não tratava com o TRT de São Paulo apenas nomeações de juízes classistas. A lista de telefonemas do empreiteiro mostra três chamadas do empresário para a Secretaria-Geral da Presidência da República, cargo que Eduardo Jorge ocupou até 1998, quando assumiu a coordenação da reeleição de FHC. Em seu gabinete no comitê, Eduardo Jorge trocou telefonemas com o juiz. Fora do governo, ele continuou mantendo contatos com Nicolau. Entre junho de 1998 até fevereiro de 1999 eles se falaram pelo menos 13 vezes pelo telefone.

Foto: Ricardo Stuckert
O BUROCRATA Martus Tavares, do Planejamento: novas ligações com Lalau

Análises mais profundas nas contas telefônicas de Nicolau comprovam a comunicação entre o juiz e o ministro do Planejamento, Martus Tavares, que em 1996 era secretário-executivo do Ministério do Planejamento. Há, pelo menos, cinco chamadas de Nicolau para o gabinete de Martus. Duas ligações no dia 8 e outras três no dia 11 de novembro de 1996. Há ainda uma ligação de quatro minutos para o fax de Tavares, no mesmo dia 11. Na gravação da conversa de Nicolau divulgada por ISTOÉ no último número, ele afirma que costumava se encontrar com o ministro. A assessoria de Martus diz que os dois primeiros telefonemas de Nicolau foram atendidos pelo então chefe da assessoria econômica Amauri Bier, hoje secretário-executivo do Ministério da Fazenda. Quando Lalau falou com Martus e Bier, o pedido de crédito suplementar de R$ 25,7 milhões para a obra já havia sido enviado por Martus e pelo presidente Fernando Henrique ao Congresso. A verba estava em plena tramitação na Comissão de Orçamento. O relator, senador Odacir Soares, que recebeu pelo menos 43 ligações de Fábio Monteiro, avalizou o crédito sem pestanejar. “A orientação do governo era para aprovar tudo. Não tenho notícias de alguém da base relatar nada contra o governo”, justifica-se o senador. Odacir Soares considera natural receber tantos telefonemas do empreiteiro de uma obra pública. Ainda mais quando se trata de uma “figura carimbada” no Congresso. Soares revela que cansou de ver Monteiro no plenário da Comissão de Orçamento. “Eu vi e quem disser que não viu não está falando a verdade.”

Foto: Paulo Pinto/AE
A CPI do Judiciário fez o levantamento dos telefonemas dados por Nicolau, mas deixou muitas pistas de lado

A quebra do sigilo telefônico do juiz Nicolau mostra que ele falava com o senador Romeu Tuma (PFL-SP). Foram, pelo menos, 86 ligações. A comunicação entre ambos foi interrompida em março de 1999, quando esquentava o debate sobre a CPI do Judiciário. Fábio Monteiro ligou quatro vezes para o gabinete do senador Tuma. Outro senador constantemente acionado pelo empresário era Romero Jucá (PSDB-RR). Recebeu 35 chamadas. Nicolau, segundo a CPI do Judiciário, também ligou para os ex-senadores Élcio Álvares (PFL-ES), 15 vezes, e Carlos Wilson (PPS-PE), 13.

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