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Refém de novo

Crise leva FHC a refazer planos e a depender de ACM e Jader Barbalho

Andrei Meireles e Eduardo Hollanda

Foto: André Dusek

O presidente Fernando Henrique Cardoso acreditava que, no embalo da recuperação econômica do País, iria resgatar parte da popularidade perdida e obter cacife suficiente para escolher o candidato da base governista ao Palácio do Planalto, em 2002. Pretendia também fazer uma reforma ministerial no primeiro trimestre de 2001 e montar uma equipe que agradasse mais à opinião pública do que aos partidos aliados. A confirmação pelo juiz Nicolau dos Santos Neto do envolvimento de Eduardo Jorge Caldas Pereira com a obra superfaturada do TRT paulista pôs a pique o otimismo presidencial. Fernando Henrique agora anda tenso e frustrado. Em vez de aproveitar os bons ventos econômicos e ganhar autonomia de vôo como planejara, FHC volta a ser refém dos caciques do PMDB e do PFL. Os dois partidos até se dispõem a mobilizar suas tropas para evitar que o Congresso crie uma CPI para investigar o ex-ministro, mas vão cobrar uma fatura alta pela ajuda. O presidente, que está enfrentando a crise sem dois de seus principais conselheiros políticos – o ministro Aloísio Nunes Ferreira, que curte férias em Paris e o ex-governador Moreira Franco, no Rio de Janeiro –, prefere pagar o preço a correr o risco de que o escândalo atinja o centro do governo.
Nesse clima de baixo-astral que tomou conta do Palácio, assessores, ministros e dirigentes tucanos defendem a necessidade de se criar um “cordão de isolamento do Planalto”. As primeiras tentativas fracassaram. A tropa aliada tentou desacreditar as revelações do juiz Lalau, publicadas por ISTOÉ, e ao mesmo tempo desvincular Eduardo Jorge de FHC. “Não se trata de um processo contra o governo e nem de uma questão política. Se houver alguma questão, ela é individual”, engrossou o coro o próprio presidente, na última terça-feira, em Moçambique. Caía ali outro cordão. Durante toda a viagem, seguranças impediram que os jornalistas abordassem Fernando Henrique, mas na entrevista coletiva protocolar o repórter Ricardo Amaral, do jornal Valor, conseguiu romper o cerco e FHC, a contragosto, teve de falar sobre a participação de seu ex-ministro no escândalo. A estratégia palaciana não deu certo por dois motivos. Primeiro, a desenvoltura com que Eduardo Jorge sempre atuou junto aos cofres públicos fica mais evidenciada à cada divulgação de negócio ou lobby feito por ele. O outro motivo é o próprio Eduardo Jorge.

Foto: André Dusek
Jader Barbalho e ACM negociam vantagens para livrar Fernando Henrique de uma incômoda CPI

Sentindo que estava sendo rifado em Brasília, o ex-ministro passou a mandar recados nada sutis ao tucanato e a ex-colegas de Planalto: não está disposto a ser sacrificado sozinho. A ameaça velada surtiu efeito. O governo não quer correr o risco de que o bem informado e temperamental Eduardo Jorge revele segredos que acabem complicando ainda mais a situação. Nos bastidores, dirigentes do PSDB passaram a monitorar o ex-ministro e, de público, viraram suas baterias contra os oposicionistas que apoiaram a concessão de verbas para o buraco sem fundo do TRT paulista. Os aliados também foram convocados para ajudar na defesa de Eduardo Jorge. “Ele tinha superpoderes. Era o homem mais forte depois do presidente, mas não acredito que fizesse lobby”, entrou no jogo o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE). Livrar Eduardo Jorge de investigações é uma prática que tem custo e nem sempre é eficaz. Apesar de todos os indícios, a CPI do Judiciário fez vista grossa à ação do ex-ministro e, na pressa de acabar com os trabalhos, deixou de lado outras apurações moralizadoras, como a atuação de desembargadores do Tribunal de Justiça da Bahia acusados de pressionar colegas para conceder habeas-corpus a bandidos. O Judiciário baiano também ficou de fora porque não interessava ao patrono da CPI, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que exerce “o controle externo” da Justiça de seu Estado.

Com toda a disposição para administrar Eduardo Jorge, o governo tem um outro problema: o juiz Nicolau. Durante quase três meses, a Polícia Federal fez corpo mole e deixou Lalau solto. “Faltou sorte”, tentou justificar o ministro da Justiça, José Gregori. Antes dele, a PF já havia entregado o jogo. Numa nota em que também tentava desacreditar a reportagem de capa da edição anterior de ISTOÉ, o diretor-geral da Polícia Federal, Agílio Monteiro Filho, declarou que sua polícia simplesmente não estava investigando o escândalo TRT. Com a cassação do mandato do senador Luiz Estevão e com o juiz foragido, parecia que Eduardo Jorge conseguira ficar fora da linha de tiro. Mas foi só o escândalo atingir o ex-ministro e chegar muito perto do Planalto para FHC exigir que a PF finalmente prendesse Nicolau. Começou aí mais uma série de trapalhadas da polícia. Na manhã da quarta-feira 19, Agílio foi ao Ministério da Justiça dizer a Gregori que a prisão de Nicolau era questão de horas. No ato, o ministro fez questão de informar o presidente. Além de não ter se confirmado, o que seria uma boa notícia acabou causando queda na Bolsa de Valores de São Paulo. O receio do mercado é do que possa contar Nicolau. Como conseguiu, por exemplo, abrir os cofres em Brasília mesmo em períodos de contenção de gastos em duros ajustes fiscais.

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