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ENTREVISTA

O oceano Omar
Com sete vidas, 107 doutoramentos e um milhão de seguidores, Khayam ensina o caminho das pedras em 33 idiomas e 72 dialetos

Camilo Vannuchi

Foto: Max G. Pinto

“Entro em sintonia com toda sabedoria da Terra”

Ninguém vira mestre de uma hora para outra. Quem quiser se igualar a Omar Khayam pode tentar, mas vai dar trabalho. Aos 99 anos e oito meses, Khayam, de acordo com o próprio, é considerado o homem mais culto do mundo, tem 107 doutoramentos e é grão-mestre de mais de 200 sociedades secretas. Também diz dominar 33 idiomas e 72 dialetos. É mestre taoísta, budista e viveu mais de 40 anos no Tibete. As explicações para um currículo tão vasto moram em uma espécie de esfera fantástica. “Sou apenas um veículo da sabedoria universal”, garante. Por trás de barbas espessas e com um cajado em punho, Khayam lembra Antônio Conselheiro ao lançar premonições sobre a destruição da Terra. Para ele, o planeta está na UTI e não deve durar mais de 30 anos. Arrastando sua indumentária de monge, o mestre deixou há duas semanas sua vida de eremita no Planalto Central do Brasil e resolveu peregrinar pelo mundo. Até lançou o site www.omonge.com.br para o ajudar a cumprir sua missão, mantida após sete encarnações: espalhar a paz e o amor entre as pessoas. O mago jura curar doenças como câncer, Aids e mal de Alzheimer com auxílio de plantas, ervas ou apenas com o poder da mente. O que ele ainda não conseguiu foi vencer o egoísmo e a teimosia dos homens. Khayam falou a IstoÉ no Hotel Intercontinental, em São Paulo, onde começou sua andança pela paz.

ISTOÉ – Por que o sr. resolveu viajar pelo Brasil?
Omar Khayam – Saí de minha reclusão voluntária no Planalto Central para me lançar numa turnê pelo País e mostrar os meios para se conseguir a paz. Fala-se muito em paz, mas ela é como o amor e o poder: tem de brotar de dentro para fora. Ela tem sua gênese no próprio ser. Se não estiver em paz consigo mesmo, você jamais conseguirá exteriorizar a paz. Não se pode tirar ouro de um vaso cheio de areia. Meu objetivo é dar os métodos necessários para que a criatura alcance esse despertar da paz e possa transmiti-la.

ISTOÉ – É difícil alcançar a paz?
Khayam
– Vou correr todos os Estados e oferecer os meios para que as pessoas, quando pensarem em paz ou amor, os tenham realmente. Fala-se muito em amor, mas ele vem acompanhado de uma insegurança terrível. O amor é tranquilo como a brisa da tarde batendo na epiderme das folhas. É a única coisa que diviniza o ser. Existe também a paixão, que é uma modalidade agressiva de amor e tira energia. Mas o próprio sexo pode produzir uma simbiose com o amor e o complementar. O objetivo do sexo é relaxar e não cansar. Vê-se muito o sexo enervando e deprimindo. Uma moça uma vez me disse que fazia sexo para dormir bem. Para dormir bem pode-se colocar uma música, olhar o mar. Eu abomino a ignorância, mas há pessoas que, se deixarem de ser ignorantes, perecerão. Como aquele que corre o dia inteiro feito louco e, se você lhe perguntar por que está vivendo, não sabe responder.

ISTOÉ – É importante dar um sentido à vida?
Khayam
– Não leva a nada. Mas conviria saber ao menos para que vivemos, nem que a resposta seja nula. É bom reconhecer: “Eu sou um imbecil, estou vivendo para nada.” Há muita diferença entre viver e existir. Uma garrafa existe, mas não vive. Quem quer viver, existir de forma consciente, deveria se preocupar com o porquê da própria vida. Isso daria maior plasticidade à existência, resultaria em um Eu mais sólido. Não traz a felicidade, mas leva a um encontro consigo mesmo. Às vezes, um imbecil é muito mais feliz do que o sábio.

ISTOÉ – Qual o sentido de sua vida?
Khayam
– Vivo para desempenhar um papel considerado idiota por muitos: ajudar quem merece. Eu me sinto feliz em minorar o sofrimento das pessoas. Sigo um preceito taoísta muito antigo: de mil que me ouvem, 100 me entendem; de 100 que me entendem, dez me seguem; de dez que me seguem, um realmente é meu. Jogo milhares de sementes. Se algumas dezenas vingarem, fico satisfeito. A felicidade é consequência da simbiose entre paz e amor.

ISTOÉ – Até agora, quantas sementes vingaram?
Khayam
– Tenho 30 mil discípulos e discípulas no Brasil. No mundo, mais de um milhão. Não exijo que o discípulo fique comigo o tempo todo. Ele pode levar sua vida longe do mestre. Mas sempre escolho um grupo para viajar comigo num estágio de aprendizado que dura um ou dois anos.

ISTOÉ – Por que a paz mundial nunca foi alcançada?
Khayam
– Muitos se preparam para a guerra pensando em obter a paz, mas não sabem como chegar a ela. É necessário ensinar um método, caso contrário, será apenas mais uma luta sem frutos.

ISTOÉ – Quais os erros da humanidade?
Khayam
– O egoísmo, a individualidade. Todas as folhas fazem parte da árvore. Quando se arranca uma folha, a agressão se dirige à árvore toda. Enquanto a criatura não perceber que é parte de um todo e que todos são partes do mesmo todo, será impossível haver paz e felicidade. A felicidade de um depende do outro. Se você é mau e corta o galho da árvore, cairá com ele. Se você é bom, o galho cai e você se segura no tronco. As pessoas não estão acostumadas a fazer o bem nem sabem exatamente o que é o bem e o que é o mal.

ISTOÉ – Que futuro o sr. prevê para os seres humanos?
Khayam
– A humanidade está fadada ao aniquilamento e adiá-lo depende apenas dela mesma. A Terra está na UTI. Um elemento químico chamado tritium, resultante dos experimentos atômicos, terá contaminado toda a água doce do planeta em pouco mais de 20 anos. Alguns países, como a China, já compram água doce. Essa falta poderá ser superada com o tecnicismo de alguns países capazes de tirar água doce do mar, mas nem todos possuem esse avanço. Em no máximo 50 anos, restará apenas um terço da humanidade. Vivemos em um planeta moribundo. O homem não cuida do futuro. Seu objetivo é ter uma conta bancária grande. Haverá o fim dessa civilização. Devido a grandes choques cataclísmicos, o homem perderá todo seu passado e sua memória e viverá em um estágio primervo, pré-evolutivo.

ISTOÉ – Quem sobreviverá?
Khayam
– Apenas as pessoas que atingirem o grau iniciático adequado. Existem três vias de evolução para o ser humano. A salvação pela dor corresponde a 90% dos casos. A dor e o sofrimento não são males em sua essência, mas remédios para algum mal. Outros 8% alcançam a salvação pela fé. Isso é perigosíssimo. A fé mexe com a emoção e o temperamento sem permitir um aprofundamento racional. Os outros 2% correspondem aos privilegiados que puderam encontrar um mestre, visível ou invisível, capaz de pegá-los pelas mãos e mostrar o caminho. Nós vivemos carregando os discípulos nos braços. Seguimos avaliando os cheques sem fundo que eles passam, assumindo a dívida.

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