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ENTREVISTA

Tenor glutão
Às vésperas de se apresentar em São Paulo, na turnê Os 3 tenores, Luciano Pavarotti fala com exclusividade a ISTOÉ sobre música e comida

Osmar Freitas Jr. – Nova York

Foto: AP

Mozart, Verdi, Beethoven e espaguete

O tenor italiano Luciano Pavarotti é um chef de respeito. Daqueles que sabem preparar à perfeição um dos pratos mais difíceis do cardápio internacional: o espaguete ao molho de tomate e manjericão. Somente os verdadeiros artistas do forno e fogão são capazes de transformar itens prosaicos numa experiência gustativa digna dos deuses. Afinal, já se disse, Deus é simplicidade. Pavarotti aplica a mesma receita ao canto. Algo que, ele explica, deve ser simples como o choro de um bebê. Não à toa, depois de Enrico Caruso, “O Maestro” – como é chamado pela vasta criadagem de sua casa à beira do mar Adriático, em Pesaro – se transformou no maior tenor de um século de grandes tenores. A prova está na sua popularidade. Há quase 40 anos, Pavarotti vem agradando aos paladares mais variados. Sua voz é reconhecida nos exigentes cantões do lendário teatro La Scalla, de Milão, nas lojas de discos – em que disputa as vitrines com roqueiros e cantores pop campeões de vendagens – e até em locais pouco afeitos à música erudita como o Estádio do Morumbi, em São Paulo, onde ele se apresenta, no sábado 22, dentro da turnê Os 3 tenores, ao lado dos espanhóis Placido Domingo e Jose Carreras, numa produção orçada em cerca de R$ 3,6 milhões.

Aos 64 anos, Pavarotti não dá sinais de que vá parar de servir seu imenso banquete de prazeres, apesar de os críticos mais exigentes torcerem o nariz para suas performances mais recentes. Os altos e baixos do tenor que costumava ter apenas pontos altos são consequência, segundo o próprio, de um estômago maltratado por medicamentos que lhe obrigaram a tomar por causa de um problema na perna. Mas, a exemplo do prato de macarrão, Luciano Pavarotti está acima do bem, do mal e das críticas. Antecipando sua vinda ao Brasil, semana passada ISTOÉ teve uma conversa exclusiva com Pavarotti, na qual ele diz que não cantará nada de Carlos Gomes – talvez fique apenas na suavidade de Luís Bonfá e sua Manhã de Carnaval, em parceria com Antônio Maria. Houve alguns assuntos espinhosos, mas em nenhum momento eles provocaram azedume. Só extremos de gentileza e simpatia.

ISTOÉ – Nesta sua vinda ao Brasil com Domingo e Carreras, os senhores planejaram alguma composição do brasileiro Carlos Gomes?
Luciano Pavarotti
– Não, infelizmente não.

ISTOÉ – Existe alguma canção brasileira prevista para esta apresentação?
Pavarotti
– Provavelmente: Manhãããã/Tão Boniiiiita Manhããã!/Lariiii, larariii, lararaaaa!

ISTOÉ – Algum cantor brasileiro já chamou sua atenção?
Pavarotti
– Não, eu não gostaria de fazer comentários neste tópico. Não me peça para fazer comentários sobre este assunto. Não quero favorecer um ou outro.

ISTOÉ – Como é sua relação com os outros tenores? As pessoas costumam ver rivalidades expostas até em pequenos gestos, é verdade?
Pavarotti
– Nossa relação é fantástica. Não há outro modo de descrever nosso relacionamento a não ser com o adjetivo fantástico. É uma amizade maravilhosa. Trata-se de uma velha amizade e um longo caminho percorrido em nome da música.

ISTOÉ – O sr. já disse que a técnica para o canto é muito simples. Poderia explicar melhor?
Pavarotti
– Ah!, meu amigo, é simples mas requer muitos anos de trabalho. Em sua simplicidade, a técnica do canto pode ser demonstrada por um bebê. Observe um bebê chorando em seu berço. Ele grita o dia inteiro e, no entanto, nunca perde a voz. Por quê? Isso ocorre porque a voz é sustentada muito bem pelo diafragma desta criança. Então, cantar é manter a voz e manter a voz é uma questão de saber controlar o diafragma. Este é o segredo. Mas é claro que além deste fato existem vários outros itens que devem ser observados por um grande cantor. Por exemplo, a entonação. A técnica verdadeira vem do diafragma, que deve ser coberto, não fechado, o que torna a voz mais elástica, e, em alguns casos, mais nobre.

ISTOÉ – A esta altura da carreira, o sr. ainda estuda com afinco outros tenores? Quem o sr. ouve?
Pavarotti
– Quando eu vou gravar ou cantar algo novo, estudo todos os tenores que cantaram aquela peça específica. Depois eu canto do meu jeito. Aprendo muito com os outros. Observo o modo como eles aproximam uma passagem em particular ou mantêm uma nota. Veja bem, não se trata de copiar as soluções. Mas com este estudo, posso dar minha solução individual. Acho que quem me ouve reconhece logo o meu trabalho e não vai confundi-lo com o dos outros. Canto ao meu modo, que é distinto.

ISTOÉ – O sr. foi o primeiro a dar um recital com piano no Metropolitan Opera, de Nova York, e também foi o primeiro a fazer concertos de arena, bem populares. Qual será a próxima novidade?
Pavarotti
– É preciso mais? Fiz tantas outras coisas além das que você citou. Não sei se sobram mais coelhos em minha cartola. Já faço concertos em estádios, numa busca de popularizar cada vez mais a ópera, e me orgulho disso. Em Modena eu faço o Concurso de voz Pavarotti, que reúne centenas ou até milhares de cantores novos. Sobre este evento eu costumo dizer que se nós não conseguirmos reunir um mínimo de 150 novos talentos internacionais a cada ano, o gênero estará morto. Também em Modena faço Pavarotti e seus amigos, que é uma abertura para a música popular e uma chance de ajudar instituições de caridade e causas que atendem principalmente às crianças. Estou fazendo o concerto Os 3 tenores e ainda dou os últimos retoques no disco Aida no Met, que inclui a Tosca. Assim, não dá tempo para tentar outras novidades.

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