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Guerra aos planos - continuação
Cansados dos abusos cometidos pelos convênios, médicos e consumidores
tentam virar o jogo
Juliane
Zaché, Lena Castellón e Mônica Tarantino
| Foto:
Hélcio Nagamine |
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A briga com os planos não envolve só médicos e consumidores.
Os donos de laboratório também entraram na confusão. Um
dos exemplos vem da cidade de Medianeira, no Paraná. Lá,
quatro proprietários entraram na Justiça em fevereiro
para fechar o laboratório aberto, em outubro de 1999,
pela Unimed do Oeste do Paraná. A confusão foi armada
quando os bioquímicos queixaram-se da redução dos preços
dos exames. “Foi tudo jogada das empresas para que nós
não aceitássemos mais a situação e elas montassem o laboratório”,
afirma Dante Mueller, diretor do laboratório Oswaldo Cruz
. Os empresários também alegam que foram descredenciados
dois dias antes da inauguração da empresa da Unimed. A
operadora rebate a acusação. “Os bioquímicos não foram
desligados, apenas não quiseram renovar o contrato”, defende-se
Tomás Andrade da Cunha, diretor da empresa. |
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Mas
ainda falta um bom caminho a percorrer. Só para dar uma idéia,
desde que a lei entrou em vigor, ela já foi modificada por
28 medidas provisórias. Com isso, quem fica perdido, óbvio,
é o consumidor. Não por acaso, os planos de saúde
ficaram em segundo lugar no ranking de consultas do Procon de São
Paulo, perdendo apenas para pedidos de informações
sobre o sistema de telefonia. Os usuários ligam porque
não entendem os planos, conta Lucia. Um dos principais
pontos polêmicos da lei é a cobrança do valor
adicional pago em casos de doença pré-existente. As
operadoras não concordam com a regulamentação,
pois dizem não saber o quanto cobrar para o tratamento de
doenças como Aids e câncer, diz a advogada Flávia
Reis Pagnozzi, do escritório Ferreira & Tramujas Bassaneze,
em Curitiba, no Paraná. O presidente da Abramge, Arlindo
Almeida, defende: Ainda é preciso analisar a questão
para as operadoras saberem o quanto cobrar.
Aumentos
Dados do Procon de Brasília também comprovam
a insatisfação dos usuários. Um em cada dez
casos que chegam refere-se à queixa contra os planos de saúde.
Além de denunciarem os aumentos abusivos das operadoras,
os consumidores reclamam da dificuldade em obter autorização
para exames e conseguir internação. Outras 100 pessoas
telefonam diariamente para se informar sobre seus direitos. No Procon
do Rio, as reclamações contra os convênios ocupam
o sexto lugar no ranking. Até o início deste mês,
haviam sido recebidas por aquele órgão 275 queixas
(a Golden Cross foi a campeã, com 42 reclamações).
Em São Paulo, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
(Idec) recebeu, no ano passado, cerca de 2,2 mil queixas. Uma
das principais reclamações são os reajustes
abusivos das mensalidades, informa Andrea Salazar, coordenadora
de campanha do instituto. A indignação das pessoas
chega a tal ponto que muitas vezes é preciso recorrer aos
tribunais, como mostram algumas das histórias relatadas ao
longo da reportagem. É o caso da cozinheira Normanei Rezende,
40 anos, de São Paulo.
| Foto:
Hélcio Nagamine |
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A advogada F.M., 50 anos, há 13 é associada à Golden
Cross. De uns tempos para cá, notou que muitos médicos
listados no grosso guia de profissionais e instituições
credenciadas pelo convênio não faziam mais parte da
rede. A gota d’água para ela foi o desligamento do Hospital
Paulistano, em São Paulo, onde costumava ser atendida.
“O descredenciamento é muito prejudicial. Só fui informada
do fato quando cheguei na porta do hospital”, queixa-se.
A empresa informa que a instituição continua a fazer
parte da sua rede, mas não está mais disponível para
o atendimento de pacientes em regime ambulatorial |
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Ela
processou a Blue Life porque a empresa se recusou a pagar a fisioterapia
garantida no contrato. O frentista Cícero Bezerra de Lima,
26 anos, residente em Brasília, também está
disposto a processar o Saúde Bradesco. Há 15 dias,
ele estava na mesa de cirurgia pronto para ser operado de uma hérnia
umbilical. Na hora foi informado de que não haveria mais
cirurgia. Houve um desentendimento entre o plano de saúde
e o hospital, que queria cobrar um cheque-caução da
operadora, e foi Lima quem acabou ficando sem a operação.
É uma covardia, reclama. Os abusos dos planos
são tão absurdos que Manuel Rios, 45 anos, também
de Brasília, pagou R$ 1,6 mil por uma cirurgia de astigmatismo
e não conseguiu ser ressarcido pela operadora. A empresa
considerou a cirurgia estética.
Irregularidades
Os problemas com os planos de saúde acontecem tanto
com os contratos antigos quanto com os novos. Uma pesquisa feita
por portadores de HIV (o vírus da Aids) com 23 operadoras
revela que a lei atual não está sendo cumprida pelas
empresas. Nenhuma delas ofereceu o agravo, denuncia
Mário Scheffer, diretor do Grupo pela Vidda, entidade que
presta apoio às vítimas da doença. Há
outra evidência de que as empresas estão descumprindo
a nova legislação. Num levantamento ainda não
concluído, o Idec está realizando uma espécie
de fiscalização para saber quem está de acordo
com as novas regras. Os resultados preliminares mostram que há
irregularidades. Para o presidente da APM, José Luiz Amaral,
as operadoras agem dessa forma porque só querem reduzir os
custos e manter seus ganhos. O presidente da Abramge, Arlindo
de Almeida, tem uma forma bastante peculiar de justificar as atitudes
dos planos. O usuário precisa se conscientizar que
plano de saúde não é feito para tratar a doença,
mas uma forma segura de se prevenir contra futuros males.
Traduzido pela ótica do consumidor, isso significa dizer
que os planos são feitos para quem está sadio, e portanto,
não vai precisar recorrer a nenhum dos recursos oferecidos,
poupando as empresas de desembolsarem qualquer centavo no seu atendimento.
Para a jornalista Roseli Tardelli, fundadora da Associação
Parceiros de Vida e uma das principais ativistas na defesa de pacientes
portadores de HIV, nenhuma resposta justifica a ação
dos planos de saúde. Essas empresas são vampiros
da cidadania, afirma. Até mesmo os corretores de seguros
e planos estão indignados. Um vendedor que não quer
ser identificado desabafa: Os convênios não cobrem
as regras dos contratos e depois o consumidor reclama com a gente,
conta.
Colaboraram:
Francisco Alves Filho (RJ) e Ricardo Miranda (DF)
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