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Guerra aos planos
Cansados dos abusos cometidos pelos convênios, médicos e consumidores
tentam virar o jogo
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também
Juliane
Zaché, Lena Castellón e Mônica Tarantino
| Foto:
Max G. Pinto |
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O ginecologista Antônio Torquato Alves, 48 anos, se sentiu
lesado como usuário e como médico. Em 1995, descobriu
que sofria de esclerose múltipla. Ele atendia pacientes
pela Amil. Quando a empresa soube da doença, o descredenciou.
Alegou que ele diminuiria os atendimentos diários. “A
empresa pressionava para que fossem realizadas 20 consultas
por dia.” Na mesma época, o Saúde Bradesco o eliminou
do convênio, ao qual era associado, por causa de sua doença.
Ele conseguiu uma liminar garantindo o atendimento. Para
o Saúde Bradesco, o contrato, feito em 1990, não dá direito
à cobertura de doenças crônicas |
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Quem
não conhece uma história de alguém que já
tenha passado por apuros com o plano de saúde? Do reajuste
de preços das mensalidades ao desligamento de hospitais conveniados,
as queixas dos consumidores se somam. Sem contar com um sistema
público de saúde de qualidade, o brasileiro está
à mercê das empresas privadas. São cerca de
45 milhões de usuários que comprometem parte de seus
rendimentos mensais para receber um atendimento médico de
nível superior ao oferecido gratuitamente pelo governo. Ao
menos em tese. De sete meses para cá quando a regulamentação
do setor ditada pelo governo entrou em vigor , o que se verifica
é que os consumidores continuam gastando saliva e paciência
para ter o tratamento que se espera de um serviço pago. Em
uma pesquisa realizada pela Istoé online com 222 leitores,
65% deles afirmaram estar insatisfeitos com seus planos de saúde.
Até o ministro da Saúde, José Serra, já
amargou surpresas desagradáveis por conta dos planos. Há
dois anos, ele ficou revoltado quando soube que a mensalidade do
convênio de sua mãe, Serafina, havia aumentado de R$
200 para R$ 800 só porque ela mudou de faixa etária.
E os usuários não estão isolados nessa briga.
Ganharam o apoio dos médicos, que lançaram no mês
passado uma campanha nacional para denunciar abusos impostos veladamente
pelos convênios. Esses profissionais estão sendo pressionados
a aumentar o número de consultas por dia, a diminuir os pedidos
de exames e correm o risco de serem descredenciados se desobedecerem
às recomendações. Estamos à beira
de um abismo com os olhos fechados, desabafa o médico
Florisval Meinão, diretor de Defesa Profissional da Associação
Paulista de Medicina (APM).
Com
o slogan Chega de desrespeito, a APM, a Associação
Médica Brasileira (AMB) e outras entidades iniciaram a contenda
com os convênios. A campanha diz o seguinte: Tem plano
de saúde que enfia a faca em você. E tira o sangue
dos médicos. O movimento quer chamar a atenção
para as pressões a que os profissionais são submetidos
e a consequente queda na qualidade do atendimento. Uma das principais
queixas é a baixo valor pago pelas consultas. Os profissionais
afirmam que desde 1996 os planos receberam 96% de aumento no reajuste
das mensalidades, enquanto nos últimos oito meses houve redução
de honorários. Temos críticas severas aos planos
com visão mercantil, diz Eleuses Vieira de Paula, presidente
da AMB.
| Foto:
André Sarmento |
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Normanei Rezende, 40 anos, era associada ao Unicor quando
começou a sentir dor na perna direita, há dois anos. Para
avaliação do problema, diagnosticado como desgaste ósseo,
foi solicitada uma ressonância magnética. O exame foi
recusado. O convênio negou também a fisioterapia necessária.
Normanei optou pela Blue Life, que prometia carência zero
e cobertura da fisioterapia. Só na hora de marcar consulta
soube que havia carência. “Em abril, entrei na Justiça
e a Blue Life recorreu”, diz. A empresa alega que Normanei
sabia da carência |
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Indicador
Os médicos recomendam aos consumidores saber quanto
as operadoras pagam aos profissionais pela consulta. Quanto maior
o valor, mais chance de o usuário ser atendido por alguém
melhor qualificado. A importância também denuncia o
tamanho do respeito que a operadora tem pelo profissional e usuário.
Se o consumidor paga R$ 400 pelo convênio e o profissional
recebe R$ 10 pela consulta, a qualidade do atendimento será
afetada. Essa empresa está mais preocupada com o dinheiro.
É bom lembrar que uma lavagem de carro em um lava-rápido
sai por volta de R$ 12, afirma José Luiz Amaral, presidente
da APM.
As
críticas dos médicos vão mais além.
De acordo com Vieira de Paula, da AMB, as empresas burlam a regulamentação
e pressionam os profissionais para reduzir os custos dos tratamentos
de seus pacientes de maneira nada ética. Na prática,
isso se traduz na colocação sucessiva de obstáculos
para a realização de exames mais caros, como a ressonância
magnética. O tempo e as condições de internação
são outros problemas. É comum as operadoras insistirem
em transferir um paciente em estado grave, internado em uma Unidade
de Terapia Intensiva (UTI), para o quarto. Quem não
fizer isso tem desconto de 20% a 40% nos honorários,
diz Vieira de Paula. Se o médico não seguir as regras,
é descredenciado. Arlindo de Almeida, presidente da Associação
Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), entidade que representa
boa parte das empresas, alega que as operadoras economizam em alguns
casos para evitar desperdícios. Certos pacientes visitam
três médicos por dia e todos pedem o mesmo exame,
reclama.
| Foto:
Carlos Magno |
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Em 1995, a empresária carioca Esther Villela,
44 anos, teve a confirmação de que seu
filho Igor, sete, era portador de leucemia (câncer
nas células sanguíneas). Todo mês,
a criança ficava internada. O número de
internações ultrapassou o previsto no
plano que tinha da Amil. A empresa se recusou a pagar
o tratamento e Esther entrou na Justiça. A Amil
teve de arcar com os custos. No dia 3 de maio de 1996,
o garoto morreu. Apesar disso, o processo continuou
correndo. Esther ganhou. Nada paga a vida do meu
filho. Só queria provar que brigar contra essas
empresas vale a pena. A Amil garante que mesmo
antes da nova lei vendia contratos sem limitação
de dias para internação. Lamentavelmente,
Igor e Esther não usufruíram desse benefício.
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Na
campanha contra os planos, há outro alerta feito pelos médicos:
poucos consumidores sabem que direitos têm ao assinar um contrato
novo de convênio (consulte quadro à pág.99).
É preciso saber que as empresas são obrigadas a arcar
com os custos de tratamento de doenças pré-existentes,
independentemente do tipo de plano escolhido. Essa obrigatoriedade
passou a valer com a lei que regulamentou o setor, em vigor desde
dezembro de 1999. Porém, com as novas regras, quem tem plano
feito antes desta data se vê em situação mais
difícil ainda. Por enquanto, para usufruir dos benefícios
da nova legislação, esse consumidor precisa pagar
um adicional (agravo) ou optar por um esquema no qual terá
direito a essa cobertura somente depois de dois anos. Quem não
concordar, tem de se contentar com as regras velhas. Ou isso ou
esperar que esse grande emaranhado em que se transformou o assunto
finalmente seja desfeito. Há pelo menos uma tentativa de
executar essa árdua tarefa. A Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS), órgão do governo que fiscaliza
os planos e seguros de saúde, deve definir em breve se de
fato os consumidores com planos anteriores à nova lei terão
de pagar o agravo.
Apesar
de tanta confusão, a regulamentação, pelo menos,
colocou um freio em algumas atitudes das operadoras, como a oferta
dos planos. Antes as empresas decidiam livremente que tipo de serviço
ofereciam aos clientes. O mercado era completamente selvagem,
define Lucia Helena Magalhães, assessora de direção
do Procon de São Paulo. Hoje as operadoras têm obrigação
de oferecer o plano mais completo para o consumidor. Outro quesito
solucionado na lei foram os reajustes das mensalidades, uma das
principais reclamações dos clientes no Procon paulista.
O aumento das mensalidades dos contratos novos e antigos passam
a ser anuais, são autorizados pela ANS e devem constar no
boleto de pagamento. Quem quiser se certificar ainda mais, pode
consultar o site da agência (www.ans.saude.gov.br), com a
lista das operadoras autorizadas a subir o preço. Se
houver denúncias, abriremos um processo contra a operadora,
informa o diretor de produtos da ANS, João Luis Barroca.
O telefone para contato é: 0800611997.
Colaboraram:
Francisco Alves Filho (RJ) e Ricardo Miranda (DF)
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