Obesidade
Dieta nas vendas
Efeitos colaterais desagradáveis reduzem a comercialização do
emagrecedor Xenical
Francisco
Alves Filho
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Nascimento deixou de tomar o remédio depois de dois meses,
período no qual foi obrigado a sair de reuniões com clientes
para ir ao banheiro.
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Quando
começou a ser vendido no País, no início do
ano passado, o Xenical foi recebido pelos gordinhos como uma espécie
de poção mágica que faria emagrecer sem grandes
sacrifícios. O remédio virou mania e bateu recordes
de venda o Brasil foi o lugar do mundo onde mais se vendeu
o medicamento durante o primeiro mês de lançamento
(285 mil unidades). Um ano e meio depois, a situação
mudou muito. Os números mostram que as vendas do medicamento
nas farmácias, que em novembro do ano passado representavam
34,3% do segmento das drogas para emagrecer, decaíram até
chegar a 26,3% em abril deste ano. A pesquisa é da IMS Health,
entidade suíça que está há 33 anos em
território nacional e é uma referência entre
os laboratórios brasileiros, como uma espécie de Ibope
do setor. Para os especialistas, o motivo da queda foi a precipitação
de médicos e pacientes no uso do Xenical. Muitos usuários
passaram por efeitos constrangedores. O principal deles foi a diarréia.
Os médicos hoje têm dificuldades para prescrever
o medicamento. Há pacientes que contam vexames passados por
amigos ou parentes que tomaram o Xenical, conta o endocrinologista
Amélio Godoy, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia
e Metabologia.
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Para o médico Coutinho, os especialistas precisam ter mais
cuidado para receitar novidades
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Um
dos que entraram e já saíram na febre
do Xenical foi o corretor de seguros fluminense Carlos Alberto Nascimento,
45 anos. Ele conta que se deixou influenciar por tudo o que leu
sobre as propriedades do remédio e, diante da necessidade
de perder 30 quilos, correu à sua médica. Pedi
a ela que me receitasse Xenical, afirma. Foi atendido e não
demorou a perceber os efeitos. Sentia-me inseguro sempre que
estava longe de um banheiro, tinha medo de passar vergonha,
conta. Nascimento diz que teve problemas em sua atividade profissional.
Fui obrigado a interromper várias vezes algumas entrevistas
com clientes para ir ao banheiro. Alguns compreendiam, outros não.
Depois de dois meses, deixou de lado o tratamento. Assistente de
diretoria de uma empresa de construção civil, Márcia
Machado também usou o medicamento por pouco tempo. Pensei
que não teria nenhum efeito colateral, mas senti tonteiras,
relata. Outro ex-usuário do Xenical é o apresentador
de TV Otávio Mesquita. Achei que não estava
fazendo diferença e parei. Mesquita diz que, graças
aos cuidados que tomou, nunca passou vexames. Evitava até
mesmo tossir. Pode ser que não tenha perdido peso, mas foi
ótimo para a garganta, brinca.
O laboratório Roche, fabricante do Xenical, informa que em
maio houve uma reação principalmente na comercialização
feita por distribuidoras direto ao consumidor e o desempenho
de vendas do medicamento subiu 23% em relação ao mês
anterior. De acordo com os dados fornecidos pelo fabricante, no
entanto, a vendagem continua inferior aos níveis de novembro.
A diretora médica da Roche, Valéria Ede, afirma que
a trajetória do Xenical é igual à de outros
remédios que explodem em vendas no lançamento e depois
têm a demanda estabilizada. Mesmo assim, conseguimos
o melhor desempenho no segmento dos emagrecedores, com vendas de
US$ 50 milhões desde o lançamento do produto,
afirma ela.
Culpa
Para o presidente da Associação Brasileira
de Estudos sobre Obesidade, o endocrinologista Walmir Coutinho,
seus colegas realmente têm receitado menos o Xenical ultimamente.
Coutinho credita boa parte dos problemas vividos pelos pacientes
à desinformação da classe médica sobre
o remédio. Os médicos precisam ter mais cuidado
antes de receitar as novidades que chegam ao mercado, afirma.
O endocrinologista Godoy, no entanto, também culpa os pacientes.
O laboratório não engana ninguém. Todo
mundo sabe que a gordura é eliminada pelas fezes. Mas muita
gente abusa, diz. Não há dúvida de que
o Xenical continuará a ser usado por muita gente e,
em muitos casos, com sucesso. A lição que resta aos
médicos e pacientes é que, seja qual for o remédio
da moda, poções mágicas não existem.
próxima
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