Denúcia
Futuro roubado
Ou o Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o
Brasil. É o que mostra o uso do dinheiro público em duas cidades do
Nordeste
Mario
Simas
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Foto:
Alan Rodrigues
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Muitas
escolas de Canindé de São Francisco (SE) são salas de pau-a-pique
sem luz. Alunos de três séries têm aulas ao mesmo tempo
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Canindé
de São Francisco, em Sergipe, tem cerca de 15 mil habitantes.
Em Paulo Afonso, na Bahia, vivem aproximadamente 150 mil pessoas.
As cidades são vizinhas e, por causa das usinas hidrelétricas
de Xingó e de Paulo Afonso, arrecadam mensalmente R$ 2,8
milhões, em média, cada uma. Em Canindé, falta
lousa e até parede nas escolas. Em salas de pau-a-pique,
sem luz, misturam-se, no mesmo horário, alunos da primeira,
segunda e terceira séries. Em Paulo Afonso, as escolas rurais
são equipadas com ar-condicionado e onde não há
luz elétrica a prefeitura capta energia solar. O prefeito
de Canindé, Genivaldo Galindo da Silva (PSDB), é acusado
de desviar dinheiro público e de contratar um pistoleiro
para matar o radialista que denunciava suas falcatruas. Em Paulo
Afonso, o prefeito Paulo Roberto de Deus (PFL), investe em educação
25% do orçamento. A comparação entre esses
dois municípios do sertão mostra, na prática,
como os efeitos da corrupção atingem a população
e até a perspectiva de futuro.Os 15 mil moradores de Canindé
de São Francisco deveriam viver como brasileiros de primeira
classe. A divisão da receita municipal pelo número
de habitantes indica que cada família com cinco pessoas poderia
receber quase R$ 1 mil por mês, quantia bem superior à
renda per capita mensal do brasileiro, em torno de R$ 700. A vida
em Canindé, porém, está longe de ser sequer
razoável. Mais da metade da população depende
do alistamento nas Frentes de Trabalho, com remuneração
de R$ 56 mensais. O centro de saúde está praticamente
fechado e o investimento público na educação
é zero. No Povoado do Faixa, uma vila localizada a 20 minutos
do centro, a escola Nova Iguaçu é uma varanda anexa
a um bar. Erivan Santos é o professor e dono do bar. Ele
leciona ao mesmo tempo e no mesmo lugar para 25 crianças
da primeira, segunda e terceira séries. A escola não
tem paredes e um pedaço de madeira com 60 centímetros
de comprimento faz as vezes de lousa. Quando chove as crianças
são levadas para o bar, onde se acomodam sobre duas velhas
mesas de sinuca. Não tinha escola por aqui e resolvi
ajudar essas crianças, conta Erivan, que recebe R$
150 por mês da prefeitura.
No
povoado Olho Dágua, a escola não tem luz elétrica
e funciona em um dos cômodos de um casebre de pau-a-pique.
A sala, sem janela, tem oito metros quadrados e para chegar à
escola algumas crianças caminham cinco quilômetros,
embora o governo federal mantenha em Canindé uma van Topic
para o transporte dos alunos. No início de junho, ISTOÉ
constatou que a prefeitura usava o carro para fazer o cadastramento
dos lugares onde serão instaladas as urnas eletrônicas
para as próximas eleições municipais. Esta
cidade não precisa de recursos federais e estaduais. O problema
de Canindé é a corrupção, diz
o deputado estadual Gilmar Carvalho (PT).
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Foto:
Alan Rodrigues
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Paulo
Afonso (BA) tem a mesma receita de Canindé e dez vezes mais
habitantes. As escolas têm tevê, vídeo, ventiladores e até
ar-condicionado
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A cidade
de Paulo Afonso, com a mesma receita e dez vezes mais habitantes
do que Canindé, tem 75 escolas e cerca de 17 mil alunos na
rede municipal. A Escola Rita Gomes de Sá, na vila Malhada
Grande, na zona rural, tem seis salas de aula, refeitório,
câmara frigorífica para armazenamento da merenda, cozinha
industrial e um auditório equipado com ar-condicionado, televisão
a cabo e videocassete. As 50 escolas rurais são exatamente
iguais, diz a secretária de Educação,
Maria Lúcia Cabral. Para reformar e equipar cada uma dessas
escolas, a prefeitura investiu R$ 120 mil. Na escola da Vila do
Papagaio o investimento foi de aproximadamente R$ 300 mil. Como
não há energia elétrica na região, o
prefeito instalou um captador de energia solar e hoje há
até ar-condicionado nas salas de aula. No centro da cidade,
um antigo sanitário público foi reformado e abriga
a Escola Municipal de Informática, equipada com 41 computadores.
Dali, saem 624 alunos por ano.
Corrupção
e assassinato A explicação para a desigualdade
entre as duas cidades pode estar no Ministério Público
de Sergipe. As denúncias contra o prefeito Galindo são
tão volumosas quanto o seu salário de R$ 18 mil, três
vezes maior do que o do prefeito de São Paulo. Uma das acusações
envolve a Cooperativa Prestadora de Serviços de Sergipe,
empresa criada em 1997, que nunca teve um único cliente antes
de assinar um contrato com a prefeitura no valor anual de R$ 6 milhões.
Todos os meses, a cooperativa emite notas fiscais e recebe até
R$ 500 mil da prefeitura. Entre os prestadores de serviços
estão de varredores de rua até veterinários.
O problema é que nunca esses profissionais são
vistos na cidade, diz o empresário Luiz Eduardo Costa,
proprietário da rádio Xingó FM, em Canindé.
Outra irregularidade é o aluguel, por R$ 28 mil mensais,
de 14 Kombis da Locaju, empresa com sede na rua Santa Luzia, 26,
em Aracaju. ISTOÉ foi ao local e encontrou uma sala vazia.
Na
lista telefônica de Sergipe, no endereço da Locaju
consta o nome de Francisca Cilene Galindo, mulher do prefeito de
Canindé. Apenas com o dinheiro pago à Cooperativa
e à Locaju, o prefeito tucano poderia construir em Canindé,
mensalmente, quatro escolas como as de Paulo Afonso. Já
temos as assinaturas necessárias para iniciar uma CPI, pois
não é possível que a corrupção
continue a reinar, diz o deputado Carvalho, que só
se desloca a Canindé com proteção policial.
As preocupações do deputado têm sentido. A folha
de antecedentes do prefeito Galindo registra prisão por porte
de armas contrabandeadas e processos por ameaça de morte.
Em março, ele disse em público que mataria o radialista
Zezinho Cazuza, que diariamente denunciava as falcatruas promovidas
pela prefeitura. No dia 13, depois de sair de uma festa, Zezinho
foi assassinado com um tiro de escopeta. Dois dias depois, a polícia
prendeu o tratorista José Ferreira Melo, conhecido como Zé
de Adolfo. Ele confessou o assassinato, entregou a arma do crime
e disse ter feito tudo por ordem do prefeito. O doutor Galindo
prometeu me pagar R$ 3 mil para matar o Zezinho Cazuza. Na hora
me deu R$ 500 e eu fiz o serviço. Foi fácil,
afirmou Zé de Adolfo a ISTOÉ. Com os R$ 500,
comprei a arma e troquei dois pneus do meu carro. Ele ainda tem
que me pagar R$ 2,5 mil. Na primeira semana de junho, a polícia
e o Ministério Público colocaram Zé de Adolfo
e Galindo frente a frente. O tratorista-pistoleiro foi enfático
ao reafirmar que fora contratado para matar o radialista.
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