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A dívida no vendaval
Estudo do Banco Mundial classifica o Brasil como “gravemente
endividado”, ao lado de Argentina, Bulgária, Bósnia, Gabão...
Luiz
Antonio Cintra
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Foto:
Marcelo Min
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“Achar que só o mercado irá resolver o problema é um grande
erro”
Delfim Netto, deputado federal
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A desvalorização
cambial de janeiro de 1999 é tida até por economistas
de oposição como bem-sucedida quando o tema é
o efeito da alta do dólar sobre os preços internos.
Ainda que alguns deles tenham andado com velocidade muito superior
à média, a inflação, de modo geral,
está sob controle. A farra do dólar barato,
entretanto, não passou em branco. Na verdade, deixou uma
bomba-relógio armada no colo do País: uma dívida
externa que no final do ano passado já era superior a US$
240 bilhões, uma sombra no sexto aniversário do Plano
Real. Quase metade da dívida cerca de US$ 100 bilhões
foi contraída entre 1994 e 1999. Em um estudo sobre
137 países divulgado recentemente, o Banco Mundial, uma instituição
ligada à Organização das Nações
Unidas (ONU), expôs a gravidade da situação.
Classificou o Brasil como um dos 11 países de renda média
gravemente endividados no mundo. Argentina, Bolívia,
Bósnia, Bulgária, Equador, Gabão, Guiana, Jordânia,
Peru e Síria foram colocados no mesmo barco. A situação
é especialmente delicada quando se considera a conjuntura
internacional. Os juros internacionais estão subindo e isso,
para o bloco dos devedores, significa que a cada mês eles
terão de enviar mais e mais dólares ao Exterior para
pagar o que devem. A grande questão é descobrir de
onde virão esses dólares.
As
exportações, claro, aparecem como o caminho mais eficiente
para faturar em moeda forte. Mas o que País exporta atualmente
será suficiente? A economista e ex-deputada federal Maria
da Conceição Tavares acha que não. Ela defende
um plebiscito sobre a dívida externa. O Brasil só
exporta praticamente produtos agrícolas. O único produto
de ponta são os aviões vendidos pela Embraer, e um
ou outro equipamento eletrônico. Mas o mercado internacional
está abarrotado de commodities agrícolas, e os preços
estão baixos. Por isso, mesmo que o País faça
um esforço exportador, não resolverá o problema,
diz Conceição Tavares. Além de exportar mais,
será preciso, de acordo com a economista, pensar em outras
alternativas, como impor limites às entradas e saídas
de dólares no mercado financeiro brasileiro ou aumentar os
impostos que incidem sobre esses capitais. Ela dá um exemplo
da situação insustentável: somente no ano passado,
o Brasil pagou US$ 64,5 bilhões, entre juros e amortizações,
quase duas vezes o valor das reservas em dólar que o país
possuía. Em 1994, essa conta representava metade das reservas.
A Europa começou a discutir a dívida dos países
africanos, mas eu não quero que o Brasil chegue à
mesma situação deles para ter sua dívida reavaliada,
é essa a questão, diz ela. Dentro da mesma linha
de raciocínio, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil) pretende realizar um plebiscito para discutir a dívida
acumulada. A data escolhida foi 7 de setembro.
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Foto:
Rosane Marinho
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“Não basta exportar. É preciso também rediscutir a dívida”
Maria da Conceição Tavares, economista e professora
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Mas
o alerta não soou apenas entre a oposição à
esquerda. O ex-ministro do Planejamento e deputado federal Delfim
Netto (PPB) manifestou recentemente sua preocupação
com o tema, em um artigo intitulado Sempre a exportação,
na Folha de S.Paulo. A ISTOÉ, Delfim mencionou os problemas
que o País enfrentará, agora que precisa vender mais
no Exterior para faturar em dólares: As taxas de juros
elevadas por muito tempo e o câmbio congelado tornaram o setor
exportador um dos mais arriscados nos últimos anos, e ele
já foi dos mais atraentes para os empresários brasileiros.
A questão, de acordo com o deputado, é que o governo
simplesmente deixou de ter uma política industrial. E esse
desmanche atingiu também o setor exportador. Na Coréia
e na Tailândia, a exportação é forte.
Mas isso não é obra do acaso, nem foi o mercado que
fez. Achar que só o mercado resolverá o problema é
um grande erro, considera.
A saída seria, diz Delfim, apostar todas as fichas no crescimento
das exportações. E aí será preciso correr
atrás do prejuízo acumulado. O Brasil perdeu posições
no ranking internacional e, somadas as importações
e exportações, o País representa apenas 0,9%
do comércio mundial. Em 1984, a fatia brasileira nesse bolo
significava 1,4%.
A colocação
ruim do Brasil na classificação feita pelo Banco Mundial
se deve justamente a esse desempenho. Isso porque o organismo internacional
levou em conta dois fatores na hora de realizar o estudo. O primeiro
é a relação entre a dívida externa do
País e o total de bens e riquezas nacionais, o Produto Interno
Bruto (PIB). Como o PIB brasileiro é grande, próximo
de US$ 760 bilhões, o resultado do cálculo foi favorável
ao Brasil. A dívida em dólar representa 28%, o que
deixaria o Brasil numa situação confortável,
já que o critério usado pelo Banco Mundial considera
moderadamente endividado o país que possua uma
relação entre dívida e PIB inferior a 48%.
A situação muda de figura por conta do segundo fator,
o que mediu o peso da dívida com relação à
exportação. Todas as dívidas brasileiras somadas
representam quase quatro vezes o total de exportações
anuais da economia brasileira. O índice exato encontrado
pelo Banco Mundial é de uma dívida 347% maior do que
as exportações. Muito superior ao limite de 132%,
abaixo do qual o País seria considerado endividado em um
grau moderado.
A situação
da Argentina, o principal parceiro regional do Brasil, também
é bastante preocupante e chega a ser mais mais grave
do que a brasileira (leia quadro acima). Por qualquer um dos dois
critérios, a economia argentina é considerada gravemente
endividada. O problema é ainda mais complicado por
conta da situação cambial do país, longe do
equilíbrio. Um peso argentino vale um dólar, e a moeda
valorizada funciona para deteriorar ainda mais as contas externas
do país. Basta dizer que o país deve o equivalente
a mais da metade do valor do seu PIB. Ruim também para o
Brasil, já que os dois países costumam ser vistos
pelos credores internacionais como farinha do mesmo saco. E os números
do Banco Mundial devem servir para reforçar essa impressão.
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