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Retrato da infância - continuação
Estatuto da Criança e do Adolescente completa dez anos como lei moderna, mas atraso social do País impede que os avanços saiam do papel

Adriana Souza Silva

Foto: André Dusek
Índio guarani, seu nome significa Deus das Flores. Vive numa reserva ecológica no Pico do Jaraguá (SP), torce para o Corinthians e adora brincar com o irmão gêmeo Karaí Mirim (segundo à dir.)

Pior é a situação do guarani Karaí Poty, 12 anos, que nem sequer ganhou do ECA um artigo para comentar sua condição indígena – fato que, segundo ele, não faz diferença. O garoto não sabe o que quer dizer a palavra estatuto, mas nem por isso deixa de fazer um pedido à sociedade. “Eu queria que a gente não fosse lembrado só no dia 19 de abril”, diz Karaí Poty, Deus das Flores em guarani. Na sua aldeia, uma maloca na reserva ecológica do Pico do Jaraguá, em São Paulo, moram 20 famílias que vivem da venda de peças de artesanato, apresentação de danças folclóricas em eventos e ajuda de voluntários. Plantar naquele reduzido espaço é uma atividade quase impossível. Por isso, o pé de café em que ele e seu irmão gêmeo adoram se pendurar para brincar foi bastante valorizado na escolha dos assuntos que fotografou. Também tirou foto do lago poluído que adentra seu quintal e dos índios menores, franzinos, vítimas da desnutrição.

Foto: André Dusek
Órfã aos quatro anos, hoje mora na Casa Vida (SP), abrigo de crianças carentes que cumpre com rigor todas as exigências do estatuto. Jussara fotografou suas bonecas e a parede com imagens dos colegas

Para Benedito Prezia, do Conselho Indigenista Missionário, órgão ligado à CNBB, é imprescindível a existência de uma lei específica já que esse grupo possui um universo cultural diferente. “Se para os meninos de rua carentes a prática do estatuto é um sonho distante, para os índios essa lei está mais inacessível ainda.” Karaí está na quarta série, mas não sabe ler nem escrever. Na escola, ele desperta curiosidade da turma e funciona como uma espécie de tradutor do português para o guarani.

Parteira – A condição social de Gisele, 12 anos, também chegou a atrair a atenção dos colegas de escola. Hoje vivendo num assentamento em Tremembé, no interior de São Paulo, ela conta que chegava em casa triste por conta das críticas feitas aos sem-terra quando sua família e outras 20 ocuparam fazendas no local há quatro anos. Tirou fotos da sua cabrita de estimação, de nome Bita, que ajudou a nascer durante um parto complicado feito por ela mesma. Longe do discurso político do MST, ela pensa ser veterinária ou modelo. Nunca ouviu falar do estatuto, mas acha que os governos deveriam ajudar “os pobres que viram mendigos nas ruas”. Seu sonho é ter uma casa “de verdade”, pois acha feio o galpão de madeira em que mora, cujos cômodos são separados por lençóis.

Foto: André Dusek
Embora não vá à escola por causa do tráfico na favela da Baixa do Sapateiro (RJ), Bianca frequenta as aulas do projeto Uerê junto com Rosilaine Moraes, nove anos, sua melhor amiga (foto)

A criança com a maior consciência do estatuto, Jussara, dez anos, é a que também conquistou todas as boas condições previstas na lei. Desde que perdeu a mãe aos quatro anos, vive num orfanato em São Paulo, a Casa Vida, administrada pelo padre Júlio Lancellotti, um dos principais defensores dos direitos humanos. Sua máquina registrou aquilo que está no seu imaginário: o jantar sendo feito, centenas de bonecas, o quarto espaçoso e a imagem de santos para quem reza pedindo pelos adolescentes internos na Febem e pelas crianças portadoras do vírus do HIV que convivem com ela. “Quero me formar em Direito para defender essas pessoas”, diz. Se tudo funcionar de acordo com a vontade dessas crianças, o Brasil ganhará nas próximas décadas personagens dispostos a mudar a história da infância brasileira. Jussara vai virar advogada e lutar pelos direitos que hoje contempla na Casa Vida. O País também terá na dedicação de Bianca uma médica que jamais prejudicará alguém por negligência. José Cláudio poderá se aprofundar em pesquisas e descobrir a cura de doenças. Karaí realizará o sonho de trabalhar como dentista na aldeia em que vive. A veterinária Gisele prestará consultoria a produtores rurais. Só Rita e Paulo ainda não decidiram o que serão quando crescer. Ainda nas ruas, eles não se deram o direito de sonhar com o futuro.

Colaboraram: Isabela Abdala (DF) e Letícia Helena (RJ)


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