Religião
O
cisma da camisinha
Punição
a padre que distribui preservativos causa críticas e expõe intransigência
da Igreja
Gabriela
Carelli
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Foto:
Matutti Mayezo/Folha Imagem
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“Dom Eugênio Sales comanda uma igreja paralela no País”
Padre Valeriano Painoti sobre o cardeal-arcebispo do Rio
de Janeiro (no detalhe)
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Cabisbaixo,
retraído, o padre Valeriano Painoti deixou transparecer,
na missa celebrada na quarta-feira 5, às 19h30, as sequelas
de uma semana repleta de reprimendas e ameaças de punição.
O discurso contundente que costuma encantar os fiéis da paróquia
do Imirim, em São Paulo, foi trocado por meias palavras.
Sua retórica permaneceu, diluída nas entrelinhas:
Rezemos pelos que já morreram e por quem ainda pode
vir a falecer, disse, durante o culto. Quem sabe de seu trabalho
no combate à Aids entendeu o recado. Há 16 anos o
sacerdote enfrenta a Igreja, prega o uso da camisinha e as distribui
na tentativa de conter o avanço da doença. Mas, desta
vez, teria ultrapassado limites. Anunciou a produção
de um vídeo no qual questiona o posicionamento do Vaticano
irredutivelmente contrário aos preservativos. Comprou
uma briga e tanto. E está provocando uma guerra. O assunto
virou polêmica, abalou alicerces do catolicismo, deixou irritados
governo e especialistas no combate à pandemia que já
matou 18,8 milhões de pessoas em todo o mundo. O padre ganhou
adeptos de peso. Repreender este padre é remar contra
a maré da história. Os índices de HIV podem
aumentar a curto prazo, sentenciou o infectologista Caio Rosenthal.
O Ministério da Saúde foi além. A opinião
ultrapassada de alguns setores da Igreja pode fazer regredir toda
uma campanha de prevenção e uso de preservativos,
que impediu novos 350 mil casos no País, afirmou Alexandre
Grangero, coordenador do Programa Nacional de Combate à Aids.
Grangero
fez questão de usar o termo setores da Igreja.
E está correto. A intransigência proveniente de Roma
concentra-se em alguns cardeais e bispos. As bases eclesiásticas
há tempo estão na luta contra a Aids. Tanto é
verdade que das 500 ONGs filiadas ao Fórum de ONGs/Aids,
cerca de 200 têm a participação de padres. Padre
Valeriano identifica uma divisão profunda: O arcebispo
do Rio, dom Eugênio Sales, comanda uma igreja paralela,
acusou. Dom Eugênio assinou, junto com dom Cláudio
Hummes, cardeal-arcebispo de São Paulo, uma nota de repúdio
ao padre.
Mas
não é só no papel que o conservadorismo católico
dá o ar de sua graça. Dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo
de São Paulo, sofreu retaliações do Vaticano
há algum tempo ao pregar a teoria do mal menor
em relação aos preservativos. Longe dos holofotes
do poder católico, padres como José Transferretti,
de Campinas, conseguem realizar trabalhos irrepreensíveis.
Transferretti, audacioso, escolheu os travestis. Na mira de seus
superiores eles sempre olham para o meu trabalho
, o padre optou por orientar seu rebanho de risco
pelo que chama de linha da cidadania. Explico a posição
do Vaticano e a teoria do mal menor. Eles decidem, diz.
Algumas
religiões rezam na mesma cartilha. Nas sinagogas, jovens
são orientados a usar camisinha, enquanto recebem lições
sobre fidelidade. O mesmo ocorre na Igreja Universal do Reino de
Deus. Já os presbiterianos preferem deixar o crente escolher
seu caminho, dentro dos preceitos da Bíblia. Essa intransigência
do papa João Paulo II, que ignora o descompasso entre as
doutrinas rígidas e a sociedade do ano 2000, é uma
das causas da perda de fiéis, explica Ricardo Mariano,
doutorando em Sociologia da USP. Apesar de entender como um atraso
a atitude do Vaticano, o sociólogo é menos fatalista.
Dos católicos no Brasil, apenas 5% se dispõem
a seguir normas que tratam de suas vidas privadas. Mas o fato de
a Igreja não participar da campanha de prevenção
à Aids pode prejudicar ainda mais sua imagem, diz.
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