Denúncia
Lição
de anatomia - continuação
Cadáveres
tirados do IML de Curitiba eram recortados no laboratório de uma faculdade
e vendidos para universidades do Sul e Sudeste do País
Mino
Pedrosa - Curitiba
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Foto:
Ricardo Stuckert
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Taylor
cumpria ordens do
ex-diretor do IML
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Foragidos
Procurado por ISTOÉ, Roberto Taylor confirmou o envolvimento
da Faculdade Tuiuti no esquema. A ordem, segundo ele, vinha sempre
de Chico Louco. Ele chegou um dia e me pediu prioridade total
para a Tuiuti. Disse que não interessava quantos cadáveres
a faculdade, através de Sérgio, requisitasse. Para
não perder o emprego, obedeci, contou. Acima de Taylor,
estão a chefe do Necrotério, Marilza Zaven Guimarães,
e o chefe da Divisão Técnica do IML da capital, Marcos
Souza, que apesar do afastamento de Chico Louco permanecem nos cargos.
Sérgio Luís e Taylor foram depor na semana passada
e confirmaram a história toda à polícia. Eles
foram indiciados e estão foragidos. O coronel Sidney negou
qualquer participação na venda ilegal de cadáveres
através da sua faculdade. Disse ter afastado os funcionários
Sérgio Luís e João Henrique Faryniuk e aberto
uma sindicância. Mas manteve Chico Louco no quadro de professores.
O esquema
funcionava de forma planejada. O alvo eram os cadáveres carimbados
como não identificados e não reclamados
pelo IML. De cada dez corpos que chegam ao instituto, um é
de indigente. Na média feita por legistas, cerca de 40 corpos
por ano deveriam parar em alguma faculdade. O esquema contribuía
para aumentar esse número. Chico Louco negou ter participado
e chamou Sérgio e Taylor de doentes mentais. No entanto,
uma comissão de legistas que tenta moralizar o IML promoveu
um levantamento mostrando que, em quatro anos, 280 cadáveres
foram doados, sendo 200 para a Tuiuti. A média permitida
é de no máximo três cadáveres por faculdade
para uso de 175 alunos/ano.
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Foto:
Ricardo Stuckert
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Chico
Louco para atender às solicitações da Faculdade Tuiuti, da
qual é professor
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Para
que ninguém notasse a diferença entre os cadáveres
que entravam e os que saíam do IML, Chico Louco e Roberto
Taylor, com a ajuda de Sérgio Luís, enterravam em
covas coletivas no Cemitério Santa Cândida somente
os restos não vendidos dos cadáveres. As mortes eram
registradas, por meio de Fichas de Acompanhamento Funeral, nos cartórios
da cidade principalmente no Registro Civil do 3º Ofício
e no Distrital do Uberaba. Só o 3º Ofício recebe
por mês 200 fichas de óbitos, sendo pelo menos 60 de
indigentes. Depois do registro, o corpo estava pronto para ser enterrado
ou doado para uma faculdade. Os documentos então eram entregues
à Funerária Paranaense, que encaminhava à Central
de Luto do Município de Curitiba uma guia de sepultamento,
invariavelmente no Cemitério Santa Cândida, destino
final de nove entre dez indigentes da capital paranaense.
A quantidade
de enterros chamou atenção: havia algo de podre no
reino do IML e da Tuiuti. Consta no livro de registro do Cemitério
Santa Cândida que somente no dia 30 de setembro de 1999, no
setor GF, quadra 8, lote 48, sepultura 93.381, foram enterrados
23 corpos. A cova pertence à Faculdade Tuiuti. Outro registro
mostra que o esquema vem de longe. No dia 9 de maio de 1996, mais
sete cadáveres foram enterrados em outra sepultura, no setor
G, quadra 2, lote 43, também de propriedade da Faculdade.
A descoberta das covas coletivas mostra que existe uma desova clandestina
de restos humanos, oriundos do esquema. A maioria dos 30 cadáveres
foi liberada no IML por Sérgio Luís. ISTOÉ
examinou todas as certidões de óbito, muitas delas
assinadas pelo próprio Sérgio. É o caso da
certidão 15.291, de um desconhecido com idade
e parentesco ignorados, que teria morrido de cirrose
hepática no dia 7 de outubro de 1994 1 ano e sete
meses antes de seu suposto funeral.
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Foto:
Ricardo Stuckert
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Estudo
feito por legistas mostra que, em quatro anos, 280 cadáveres
foram doados, sendo 200 para a Tuiuti
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Investigação
O esquema de venda de pedaços humanos foi denunciado
ao senador Roberto Requião (PMDB-PR), que entregou a ISTOÉ
um dossiê com cópias de contratos para venda e confecção
de órgãos humanos, do livro de entrada de corpos do
IML e de atestados de óbito. É um escândalo
inominável, um crime de vilipêndio, ataca. O
senador defende a entrada da Polícia Federal nas investigações.
Requião estava certo quando suspeitava que as covas estariam
guardando apenas restos de quem deveria estar ali por inteiro. Na
quarta-feira 28, o delegado Falzen Salmen, acompanhado dos médicos
legistas Wilson Bozzi de Sá, Carlos Roberto Faccin e Vitório
Lunardon, exumou nas covas da Tuiuti despojos que seriam de 23 cadáveres.
Na reconstituição, os legistas só conseguiram
recompor dez troncos, todos sem crânio, faltando alguns membros
superiores ou inferiores. Faltavam partes de 13 cadáveres.
O deputado
estadual Ricardo Chab (PTB), membro da Comissão de Segurança
Pública, tem sido ameaçado por denunciar as irregularidades
de Chico Louco. O senador Requião disse ter recebido um organograma
da quadrilha, que aponta como chefe do esquema o próprio
Chico Louco, funcionário do IML há 42 anos. Exonerado
do cargo, foi acusado de ser conivente com um esquema de falsificação
de laudos para o recebimento do Seguro Obrigatório de Danos
Pessoais Causados por Veículos Automotores (DPVAT) e de assédio
sexual contra pelo menos duas meninas, vítimas de estupro,
que se submeteram a perícia no seu instituto. O Ministério
Público também impetrou ação civil pública
contra o ex-diretor do IML por improbidade administrativa e enriquecimento
ilícito. Ele cobraria honorários para fazer laudos
particulares, contrariando os laudos oficiais do próprio
instituto.
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