Denúncia
Lição
de anatomia
Cadáveres
tirados do IML de Curitiba eram recortados no laboratório de uma faculdade
e vendidos para universidades do Sul e Sudeste do País
Mino
Pedrosa - Curitiba
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Foto:
Ricardo Stuckert
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Contratos
de prestação de serviços, tais como o
assinado entre a Faculdade Espírita e Sérgio
Luís, camuflariam o comércio clandestino. Os
restos mortais não vendidos eram enterrados numa cova
coletiva que pertencia à Universidade Tuiuti
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Anos
50. O cenário poderia ser a fazenda em Plainfiled, Wisconsin
(EUA) e o protagonista Ed Gein, que cortava cirurgicamente suas
vítimas, extirpava seus órgãos para comê-los,
arrancava a pele e fazia objetos, como máscaras e vestes.
A psicopatia de Ed, que mantinha a mãe morta no quarto da
velha casa, serviu de base para três filmes de terror: Psicose,
Massacre da serra elétrica e Silêncio dos inocentes.
Ed foi preso em 1958 pelo FBI e morreu de câncer em 1982 num
manicômio judiciário. Ano 2000, a cidade é a
pacata Curitiba e o terror não está relacionado a
homicídios cometidos por um serial killer, mas ao comércio
ilegal de corpos e órgãos humanos. Durante os últimos
seis anos, a solicitação de cadáveres para
estudos de universidades que atuam na área biomédica
do Sul e Sudeste do País transformou-se num negócio
altamente rendoso, envolvendo diretamente o ex-diretor do IML de
Curitiba, Francisco Miguel Roberto de Moraes Silva, conhecido como
Chico Louco, o técnico de Anatomia Humana Sérgio Luís
Pereira, a fundação (Fecepasc) ligada à Faculdade
Espírita Paraná-Santa Catarina, a Faculdade Tuiuti,
da qual Chico Louco é professor de Medicina Legal no curso
de Direito, e o coronel da reserva do Exército Sidney Lima
Santos, dono da Tuiuti. Chico Louco foi exonerado da direção
do IML em fevereiro, acusado de cometer inúmeras irregularidades,
fraudes e atos criminosos. No Esquema Frankenstein,
como está sendo chamado, se vendiam às universidades
peças humanas a um custo de R$ 1.800 (leia detalhe
do contrato da Fecepasc na pág. 38). O cadáver era
dividido em partes cabeça, tronco e membros
e também tinha os órgãos e tecidos extirpados
e repartidos. No preço, já estava incluída
a confecção, termo técnico usado
para definir o preparo das partes encomendadas através de
formol e verniz a fim de seguirem para as faculdades para a manipulação
e estudo. Sérgio, que é funcionário da Faculdade
Tuiuti, foi contratado pela Fecepasc, sem vínculo empregatício
e com um pró-labore de R$ 1.800, para prover a instituição
de material necessário para aulas práticas em laboratório,
além de treinar duas funcionárias. No documento citado,
de 13 de novembro de 1996, Sérgio teria ainda de confeccionar
quatro cabeças, duas laringes, três corações,
quatro pulmões, três bexigas, quatro estômagos,
dois jejuno-ileo (parte final do intestino delgado), dois intestinos
grossos, quatro testículos, dois úteros e músculos,
além de recuperação de peças.
Os
cadáveres eram obtidos, em sua maioria, no IML de Curitiba,
até então dirigido por Chico Louco, que autorizava
a liberação de corpos fora do que determina a Lei
8.501, que habilita as faculdades a receber, por doação,
cadáveres inteiros para estudo. Segundo a lei, para doar
um corpo não identificado ou não reclamado seja doado
a uma universidade é preciso, antes, atender a uma série
de requisitos. A morte tem de ser natural, nunca violenta nem suspeita.
Depois, é preciso notificar, através da imprensa,
durante dez dias, a existência desse corpo, com a descrição
de todas as suas características físicas (cor, altura,
cor de cabelo, olhos, idade aproximada, local onde morava e profissão)
e esperar 30 dias para saber se houve ou não identificação.
Só após esse prazo legal é que o Estado pode
decidir o que fazer com os restos mortais daqueles não identificados.
Uma outra exigência é dar ao cadáver estudado
um enterro digno, em cova única, pertencente à instituição
educacional.
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Pedidos
Sérgio recebia as encomendas e acionava o Esquema
Frankenstein no IML e até em funerárias ligadas
à máfia. Ele os recebia, fazia o desmembramento, a
extirpação e a confecção das encomendas
no laboratório da Faculdade Tuiuti, repassando as peças
para as universidades que usavam seus serviços. Sérgio
agia com o técnico do setor de identificação
do IML, Roberto Taylor, chefiado por Chico Louco, que comandou esse
serviço durante seis anos. Os restos humanos não aproveitados
pelo comércio ilegal acabavam em uma cova coletiva do cemitério
municipal da Santa Cândida, em nome da Tuiuti. Entre as instituições
que teriam comprado partes de corpos desviados pelo IML, segundo
já investiga a Delegacia de Homicídios do Paraná,
estão a Universidade de São Paulo (USP), as universidades
estaduais de Londrina e de Maringá, a Universidade do Oeste
do Paraná (Unicentro), em Irati (PR) e a Universidade do
Sul de Santa Catarina (Unisul), em Tubarão. As vendas, sempre
através da Tuiuti, eram camufladas em contratos de prestação
de serviço, tais como o assinado entre a Faculdade Espírita
e Sérgio Luís. ISTOÉ teve acesso ao depoimento
de um ex-professor de Anatomia, Carlos Antônio Cardoso, que
confirmou o esquema criminoso, envolvendo também o coronel
Sidney, dono da Tuiuti. Ele autorizava a liberação
de dinheiro para subornar funerárias e coveiros, usados pelo
esquema.
Cardoso
disse ao delegado Falzen Salmen que o diretor do IML na época,
Francisco Miguel, sabia do comércio de cadáveres.
A mando dele, Taylor liberava os corpos para a Tuiuti. Os
cérebros, por exemplo, eram cortados no formato de bolachas,
para facilitar a venda, disse em seu depoimento. O ex-professor,
que trabalhou na Tuiuti de março de 1995 a junho de 1996,
contou à polícia ter testemunhado a chegada de corpos
na faculdade. Segundo ele, Sérgio recebia semanalmente de
dois a três, que chegavam em veículos do IML,
carros funerários e até particulares, acondicionados
em caixões. Na Tuiuti, além de Sérgio,
a polícia investiga o envolvimento de João Henrique
Faryniuk, chefe do laboratório de Anatomia. Ele seria o responsável,
segundo Cardoso, pelo suborno pago a agentes funerários,
cartórios e até coveiros para acobertar os falsos
sepultamentos. O dinheiro viria da tesouraria da faculdade. O comércio
ilegal de cadáveres e órgãos humanos para estudos
seria feito com o conhecimento do coronel e dos seus filhos, Luiz,
Afonso e Guilherme, diretores da Tuiuti. Um outro professor que
ainda leciona na faculdade disse a ISTOÉ que, depois que
o esquema começou a ser investigado, a Faculdade Integrada
Espírita se livrou de vários peças
que estavam em seu laboratório.
próxima
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