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Fera amansada - continuação
De
volta aos palcos e à tevê, o irreverente Ney Latorraca comemora
36 anos de carreira e garante que não desistiu do projeto de ter
filhos
Clarisse
Meireles
ISTOÉ
Ela se queixava de ter sido esquecida pelos amigos?
Latorraca Sandra sempre foi muito discreta. Agradecia
o tratamento da Rede Globo, que foi muito correta, no começo,
meio e fim. Mas é típico do ser humano desaparecer
nas dificuldades. Eu fiquei doente em 1996, tive uma diverticulite
e passei duas semanas no hospital. Nos primeiros dias, todo mundo
ligava. De repente, fiquei sozinho. Em 1978, tive uma paralisia
durante um ano. Até mamãe falava: Ney, não
aguento mais. É uma defesa das pessoas. Existe esse
mito em torno de hospital, doença e morte. Mas para mim faz
parte. Já fui a tantas festas, inaugurações,
vernissages
Este lado eu conheço. Mas e o outro? Desde
cedo meus pais me ensinaram a prestar atenção neste
outro lado.
ISTOÉ
Sandra chegou a reclamar que a televisão não
a chamava?
Latorraca Ela era chamada, mas não queria aparecer.
Estava escalada para ir ao programa da Ana Maria Braga, mas estava
aguardando ficar um pouco melhor para viajar.
ISTOÉ
Outra perda que te abalou muito foi a da sua mãe,
em 1993. O que mudou após a morte dela?
Latorraca Foi como uma queda. Tomava remédio
para dormir, parei de comer, fiquei muito magro. Fiquei triste e
mais seletivo. Pouco antes de morrer, ela se despediu, me disse
para não ter grilos, que eu era um ótimo filho, um
grande amigo e um grande ator. Fiquei mais espiritualizado. Com
a morte dela, vi que eu também gostava do meu pai. Ele era
muito rígido, batia, mas o amor era igual. Eu era mais amigo
dela. Agora sinto que já estou conseguindo superar. Peço
sempre proteção a ela.
ISTOÉ
Você é filho único e sempre se declarou
um edipiano saudável. Como era a relação com
sua mãe?
Latorraca Era muito amiga, minha maior fã,
me ensinava a não ter medo. Ela não conhecia essa
palavra. Sempre botava um defeito nas namoradas. Tinha uma namorada
linda de morrer, aí ela dizia: Gosto muito dela, a
acho perfeita, mas você não acha que ela tem a boca
de quem mamou muito na chupeta? Pronto, já comecei
a ver o biquinho. Tinha outra que ela implicou com os cabelos que
caíam pela casa. Com a Inês (Galvão) soube separar.
ISTOÉ
Você se casou quantas vezes?
Latorraca Algumas. Com Inês Galvão,
Paula Ribeiro, Gisele Schwartz. Também tive outros amores,
mas de amores não falo mais, não me exponho mais.
O que falei está falado. Não quero mais causar polêmica.
Estou mais preocupado com a minha posição como homem
dentro da sociedade. Com a Inês durou quatro anos. Ela foi
deslumbrante de caráter, me pegou num momento em que eu estava
em baixa na televisão e no teatro, com dificuldades financeiras.
Posou nua e me deu o dinheiro para pagar uma dívida. Nunca
me cobrou nada. Amiga e companheira em todos os níveis. Foi
a mulher da minha vida. Ela pode contar comigo sempre que precisar,
porque amor não acaba.
ISTOÉ
E hoje, está namorando?
Latorraca Estou amando, ainda acredito no amor,
apesar de todos os medos. Mas não é fácil.
O preço da solidão é o mesmo de ter alguém
ao seu lado. Acho que sempre me canalizei muito para a profissão,
como se fosse um túnel, com saída, é claro.
Agora tento equilibrar minha parte afetiva.
ISTOÉ
Ainda quer ter filhos?
Latorraca Quero. Não ando com um luminoso
anunciando, mas pode acontecer. Em 1981, tomei um porre e mandei
um torpedo para uma moça dizendo que queria um filho dela.
A moça foi lá em casa, era uma pessoa ótima.
Namoramos um pouquinho. Passou um tempo e ela falou: Aconteceu
o que você queria. E eu: Ah, mas não vai
ter mesmo! Eu nem te conheço direito. Continuo amigo
dela, hoje é uma mulher poderosa em São Paulo. Mas
não vou falar o nome. Ainda bem que parei de beber.
ISTOÉ
Foi difícil controlar o álcool?
Latorroca Eu não era um alcoólatra,
parei quando quis. Não tenho a menor categoria, bebo mal.
Caio, subo na mesa, abaixo a calça. Que coisa triste! Hoje,
só bebo na primeira classe, quando viajo. Aí já
começo a falar para a aeromoça: Oi querida,
está bonita! E sempre canto Gota dágua.
Mas o bom é que não preciso de nada disso. Danço
a noite inteira sem beber nada.
ISTOÉ
Já fez análise?
Latorraca Não. Fiz uma vez, uma sessão,
numa analista na rua Augusta, em São Paulo. Falei para a
moça que ela não estava bem e precisava arrumar um
companheiro, que o consultório dela era um horror, com umas
plantas penduradas péssimas. Acho que foi bom, falei tanto
que saí de lá contente. Nunca mais voltei. Todo mundo
me fala para fazer uma terapia porque já tenho três
úlceras operadas, agora pintou uma quarta. Tenho medo de
fazer e perder minha loucura, minha naturalidade. Mas precisava
para não ter de sofrer tanto, não ficar doente. Sou
totalmente passional.
ISTOÉ
Você tem medo da velhice?
Latorraca Tenho medo de ficar implicante, de
me achar poderoso, de me achar um nome. Isso eu não quero.
Muitas vezes você contracena com um garoto que te dá
um banho. Isso aconteceu com André Gonçalves, ele
é ótimo. O Daniel Filho disse uma vez: Se você
continuar assim, quando estiver velho periga passar de prancha com
o cabelo parafinado. Eu disse: Ótimo. Não
deixo minha criança crescer, me adaptar às convenções.
ISTOÉ
Atualmente, como é sua relação
com Marco Nanini, depois de tantos anos de convivência?
Latorraca Nos conhecemos na novela Um sonho a
mais, em 1984. Daí veio a peça O mistério de
Irma Vap. Há muito tempo eu estava de olho nele, que já
achava muito bom ator. É muito diferente de mim, tranquilo,
discreto. Era uma amizade muito grande. Vira uma coisa de irmãos
quando você fica muito tempo junto e também cria algumas
implicâncias. Uma vez, resolvi sair do teatro para me maquiar.
Eu dizia que ia deixar a peça, mas era só para chamar
a atenção, para implicar. Ele nunca se meteu comigo.
ISTOÉ
Vocês ainda convivem?
Latorraca Quando minha mãe morreu, ele
me estimulou a voltar a trabalhar e me dirigiu na peça O
médico e o monstro. Eu o respeito muito, somos amigos, mas
cada um com seu caminho. A gente se fala, às vezes se encontra,
quando dá saudades. Quase um terço da minha carreira
foi convivendo com ele e aprendendo com ele. Em cena, me desligava
do meu personagem e ficava vendo o Nanini atuar, de tão bom
que ele é. É um belíssimo ator. As pessoas
pedem que a peça volte, novas gerações querem
ver. Não sei, esse é o segundo mistério de
Irma Vap.
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