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Fera amansada
De
volta aos palcos e à tevê, o irreverente Ney Latorraca comemora
36 anos de carreira e garante que não desistiu do projeto de ter
filhos
Clarisse
Meireles
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Foto:
Renato Velasco
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“Parece que o Brasil virou um ônibus desgovernado”
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Quando
começou a fazer sucesso, na metade da década de 70,
Ney Latorraca dizia que queria ser o maior ator do mundo. Ao mesmo
tempo, posava para fotonovelas e revistas de fofocas. Chegou a sair
nu na capa da Sétimo Céu. Pura gozação,
lembra ele. Na época, a ousadia rendeu patrulha da classe
artística e um memorando da Rede Globo, onde atuava na novela
O grito, num papel seriíssimo. Aos 55 anos, Latorraca está
mais calmo, integrando o olimpo dos grandes atores brasileiros,
graças a papéis tão diversos e divertidos quanto
o inesquecível Barbosa, do humorístico TV pirata,
o Quequé, da minissérie Rabo de saia, e os personagens
da peça O mistério de Irma Vap, que permaneceu 11
anos em cartaz. Ao completar 36 anos de carreira, ele vem lotando
o teatro Glória, no Rio de Janeiro, com seu primeiro monólogo,
3 x teatro, que estréia em agosto em São Paulo.
O ator também está de volta à tevê na
novela global das seis, O cravo e a rosa, no papel de Cornélio
Valente. Seu personagem marca a retomada de uma bem-sucedida parceria
com o diretor Walter Avancini. Com uma carreira consolidada na televisão
e no teatro, Latorraca hoje parece menos preocupado com o próprio
sucesso e mais com os rumos do País, que muitas vezes chegam
a lhe tirar o sono. Parece que o Brasil virou um ônibus
desgovernado. O 174 é o Brasil, diz, referindo-se ao
incidente dramático no coletivo carioca. Ney Latorraca conversou
com ISTOÉ em sua cobertura no Jardim Botânico, de onde
se tem uma deslumbrante vista do Corcovado.
ISTOÉ
Você se consagrou com personagens de comédia.
Tem alguma predileção pelo humor?
Ney Latorraca Quando me formei na EAD (Escola de
Arte Dramática), na USP, fiz peças de Jean Genet,
Shakespeare, Federico García Lorca, Maquiavel, sempre puxando
para o sério. Era uma forma de tentar fugir do meu temperamento
muito brincalhão. Mas não deu para fugir. Acho que
os trabalhos sérios é que me deram estofo
para fazer comédia. Só se pode ser bom comediante
se for um bom ator dramático. Com o Quequé, de Rabo
de saia, de 1984, comecei a ser identificado como bom ator de humor
e fiz uma comédia atrás da outra. E foi só
com o Quequé que comecei a ganhar prêmios. Até
hoje, aliás, só ganhei prêmios por papéis
na tevê e no cinema. Nunca fui premiado no teatro, só
indicado.
ISTOÉ
Para comemorar os seus 36 anos de carreira, você
escolheu três textos considerados difíceis, Fumar faz
mal à saúde, de Anton Tchekhov, O homem com a flor
na boca, de Luigi Pirandello, e O mentiroso, de Jean Cocteau. Por
quê?
Latorraca Eu queria aprender a estar só no
palco, contracenar só com o público. O primeiro texto
é tragicômico, as pessoas até riem do ridículo
de um homem expondo suas misérias. O segundo é barra
pesada, a história de um homem diante da morte. O terceiro
é o mais leve, é um show, uma coisa que nunca tinha
feito. Danço, canto, dou pirueta. É o Ney que aparece
na sala de atores nos intervalos das gravações, com
os camareiros e maquiadores e nas festas. Eu sempre me prometo que
não vou ficar muito nas festas, vou só dar uma passadinha,
mas acabo ficando. Isso diminuiu bastante com a morte da minha mãe,
mas agora está voltando aos poucos. Não adianta eu
tentar viver um homem sério e triste, de 55 anos. É
mentira. Não sou isso.
ISTOÉ
Você fez campanha para o presidente Fernando Henrique.
O que acha do governo dele?
Latorraca Quando o presidente voltou do exílio,
eu o estava esperando. Acabei ficando próximo. Uma vez, na
casa dele, na época da campanha, fiz uma lista ingênua
de coisas para a cultura como espaços para ensaio, divulgação
da Lei Rouanet, tinta para artistas plásticos. Tem tanta
coisa para reivindicar que a lista é pequena dentro das coisas
mais urgentes. Não aconteceu nada. O presidente foi uma decepção,
achei que ele teria mais pulso. São as mesmas barganhas,
escândalos. Não votaria nele de novo.
ISTOÉ
Você é pessimista?
Latorraca Sou otimista em relação
ao povo, que trabalha, paga impostos. E o que tem em troca? Os professores
estão sempre em greve porque ganham uma miséria, os
médicos idem, a gente não vê segurança
nas ruas. Outro dia fui andar na Lagoa, roubaram meu boné.
Não foi nada, mas a gente fica tenso, fiquei com dor de cabeça.
As pessoas estão apavoradas, pensam 500 vezes antes de sair
de casa. Quem mais sofre é o jovem, que não pode viver
com naturalidade suas descobertas. Vão namorar onde? Na Lagoa?
Namora dois minutos, depois aparece boiando. A gente tem de dar
um basta.
ISTOÉ
De que maneira?
Latorraca Devíamos parar de pagar imposto,
enquanto não tivermos serviços públicos como
segurança, educação. Não vou anular
o voto, mas não faço mais campanha. Nem aceito convites
para festas em Brasília. Acho falta de respeito com o povo,
com essa miséria que a gente está vivendo, conseguindo
os primeiros lugares em analfabetismo, má distribuição
de renda, piores expectativas de vida.
ISTOÉ
Você cultiva algum tipo de participação
política?
Latorraca Participo do Gapa (Grupo de Apoio e Prevenção
à Aids), de Santos, que cuida de 50 crianças soropositivas.
Sou o patrono. Sempre que posso vou lá, converso com eles,
conto história, é um barato. Dou uma parte de meus
cachês e faço campanhas na tevê. Fora isto há
coisas que você faz de amigo para amigo, que são muito
importantes.
ISTOÉ
Foi o caso da Sandra Bréa?
Latorraca Quando nos conhecemos, ela implicou
tanto comigo que cheguei a batizar uma de minhas úlceras
com o nome dela. Depois nos tornamos muito amigos. Eu fiquei muito
atento a ela até o fim. Não fazia por piedade, compaixão
ou obrigação. Não queria estar com ela só
na hora das festas, quando era a maior estrela do País. Quis
estar também na hora em que precisou. Quando eu ia lá,
ela ficava boa. Pulava da cama, ia tomar banho, fazia uma trança,
queria conversar, tomar Coca-Cola, fumar um cigarrinho. Não
saíamos, ficávamos em casa conversando. E ela sempre
linda. Na última vez que fui visitá-la, estava de
babydoll e me disse para esperar enquanto trocava de roupa. Fui
na cozinha comer um negócio, calculei mal e voltei. Quando
entrei no quarto, ainda estava se trocando. Eu disse: Tá
um pedaço, hein? Muito linda mesmo. Ela me deu uma
foto, uma imagem de Santa Rita de Cássia e disse: Brilha.
próxima
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