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ENTREVISTA

Verde-amarelo
Nacionalista convicto, presidente do STM, brigadeiro Sérgio Ferolla, critica as privatizações e ataca a adoção do modelo americano neoliberal

Leonel Rocha

Foto: Leolpoldo Silva

Ferolla: Junto ao quadro do ídolo Santos Dumont, o militar defende a soberania

O tenente-brigadeiro-do-ar Sérgio Xavier Ferolla é daqueles nacionalistas que se empolgam quando vêem um simples adesivo da bandeira brasileira. Presidente do Superior Tribunal Militar (STM), foi professor universitário, dirigiu o Centro Tecnológico da Aeronáutica, o CTA, e a Embraer. Militar desde 1950, é piloto de caça com mais de 4.700 horas de vôo e engenheiro eletrônico. Domina um dos temas mais importantes para os militares: tecnologia de ponta. Quando o assunto é o futuro do Brasil, Ferolla, um carioca de 66 anos, descendente de italianos e fã de Santos Dumont, se entusiasma e insiste que o País tem excelentes chances de chegar ao Primeiro Mundo. Mas lembra que é preciso o Brasil criar o próprio caminho para o desenvolvimento, sem imitar as fórmulas impostas pelos credores internacionais ou pelo governo do que ele chama de “inimigo”, identificado nos interesses capitalistas dos EUA. É um militar que não se recusa a falar o que pensa sobre o País. Critica a privatização de empresas como Vale do Rio Doce e Telebrás, a globalização exagerada e a elite brasileira que tem a “cabeça lavada” pelas orientações “do inimigo”. Ferolla também é especialista no embate entre nações sobre hegemonia militar. Já releu várias vezes 500 anos de periferia, do diplomata brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães, um livro sobre a dependência brasileira desde a época de dom João VI, quando o imperialismo inglês obrigou o Brasil a abrir os portos às nações amigas. Casado e com três filhos, o brigadeiro, que ainda é da ativa, coordena no STM o trabalho de 15 ministros que julgam 800 processos por ano. Ele recebeu ISTOÉ no seu gabinete e falou o que pensa sobre o Brasil hoje.

ISTOÉ – Como o orçamento curto está impedindo o desenvolvimento da tecnologia militar?
Sérgio Ferolla
– As organizações militares estão carentes de recursos humanos e materiais. Hoje em dia estamos reduzidos à continuidade do programa espacial e ao desenvolvimento do lançamento de satélite com recursos que são centésimos do necessário. Na década de 60, surgiram os programas estratégicos que resultaram em indústrias como a Eletrometal, em Campinas, a Embraer, que tem aviões concorrendo no mercado internacional e a indústria de telecomunicações. Hoje, sabemos que a simples importação de empresas estrangeiras não traz tecnologia. Traz produtos para serem consumidos, até o know-how, mas não o por que fazer. Estamos desprezando a inteligência brasileira, os engenheiros passam a trabalhar como montadores de produtos importados.

ISTOÉ – O futuro tecnológico das Forças Armadas pode estar comprometido?
Ferolla – Não tenho dúvidas. Tínhamos uma boa pesquisa que resultou na Embraer projetos de radar e de equipamentos de telecomunicações e até a construção do AMX. Íamos bem e até vendemos este avião para a Itália. Aperfeiçoamos a versão nacional que é mais avançada. Criamos no AMX o reabastecimento em vôo, instalamos canhões e implantamos radar. Hoje, os italianos desprezam o Tornado, que é um avião feito para a guerra nuclear, e preferem o AMX, que é feito para a guerra convencional, como no caso de Kosovo quando foi aproveitado. Mostramos eficiência, mas hoje estamos impedidos de investir em outras pesquisas.

ISTOÉ – Qual o papel dos centros militares de pesquisa tecnológica?
Ferolla – O Proálcool é um exemplo de programa estratégico desenvolvido pelos militares. Com a crise do petróleo no governo Geisel estávamos numa situação quase insolúvel e tínhamos que ser criativos. O CTA trabalhou 20 anos desenvolvendo o motor a álcool. Na época foi a solução alternativa. Nos anos seguintes, a indústria automobilística produziu 99% da frota de carros movidos a álcool, mas aí esqueceram que seria necessário produzir mais álcool. O petróleo é um bem que está se exaurindo e as fontes produtoras estão dominadas por forças internacionais, particularmente os EUA, que tomaram conta do Oriente Médio para garantir o seu suprimento. Os países do Hemisfério Norte não têm alternativas de biomassa (vegetal e animal) como nós temos. Precisa-se recuperar a credibilidade do programa do álcool porque ele é viável e necessário.

ISTOÉ – O Brasil tem uma Força Armada à altura da sua importância no contexto internacional?
Ferolla – Estamos completamente desarmados. O trabalho é feito na base do sacrifício individual dos oficiais e praças. Falta até comida. Os jovens que procuram as Forças Armadas e querem servir precisam pedir ao oficial general, caso contrário não há vagas. É triste. O Brasil não tem uma Força Armada compatível com sua estatura internacional de líder, principalmente na América Latina. Comparado com países menores, o Brasil é um país desarmado. Somos a mais fraca Força Aérea da América Latina. O que falta à sociedade é definir, através dos parlamentares, que Força Armada o Brasil precisa. Se quisermos ser um país colônia, dominado, obediente e que não crie nenhum problema, tudo bem. O caminho está definido.

ISTOÉ – Por que o sr. defende que a Petrobras seja uma empresa de energia e não de petróleo?
Ferolla
– Se a Petrobras se dedicasse à pesquisa sobre energia como um todo, poderia estimular o uso da biomassa e o programa do óleo vegetal em regiões onde isto hoje é viável e necessário, como a Amazônia, por exemplo. A Petrobras precisa continuar a ser nacional e de grande porte para que estes programas sejam desenvolvidos a fim de enfrentar concorrência e as pressões internacionais. Ela é especialista em prospecção em águas profundas. Agora, a cada dia as jazidas de petróleo são vendidas para outras empresas, tentando reduzir a participação do governo nas ações para, depois, ficar na mão das grandes multinacionais.

ISTOÉ – Por que é perigoso privatizar este setor?
Ferolla
– É preciso ter empresa nacional que forneça ao cidadão, principalmente o que mora mais longe, condições de viver da mesma forma dos que vivem no litoral, com a refinaria de petróleo do lado. Empresas como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios e Petrobras não podem ter uma visão de lucro imediato. Elas têm um papel social que extrapola o simples lucro. O modelo de privatização do setor elétrico também está equivocado. Por que não investir mais, em vez de vender uma coisa que está pronta, paga e organizada para alguém que simplesmente vai usufruir do lucro? Se uma empresa estrangeira está interessada em produzir energia elétrica, que faça outra Itaipu, coloque termoelétrica, produza a sua estrutura de telefonia, enfim, ajude a desenvolver o País.

ISTOÉ – A Vale do Rio Doce deveria ter sido privatizada?
Ferolla
– Nunca. A Vale é uma empresa que tem uma presença importante na Amazônia, ocupa um território inexplorado e é dona de jazidas estimadas em centenas de bilhões de dólares. Tem uma participação no desenvolvimento social muito importante, possui uma das maiores frotas de graneleiros do mundo e produz bens estratégicos para o País. O Brasil tem de ter domínio sobre os seus produtos para não exaurir as suas jazidas e, no futuro, aumentar a capacidade da produção. O governo poderia ter vendido parte da sua participação acionária ao setor privado, o que seria importante para flexibilizar a empresa, mas teria que continuar administrando. A ação política, às vezes, é prejudicial porque o dirigente dessas empresas é um político e não um técnico. A ação do governo controlando tarifas e investimentos prejudica a empresa que passa a ser chamada de ineficiente. Agora, ela não pode, por esta razão, ser vendida na bacia das almas. É uma empresa de interesse nacional. Já vi processo parecido com a Embraer, que foi privatizada, e foram tomadas decisões pela nova direção que prejudicaram o País.

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