Cultura
Rivais do Titanic
Produções alternativas no Paraná e em Santa Catarina conquistam o
público
Celso Fonseca - Cascavel e Chapecó
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Foto:
Ricardo Giraldez
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Se
a rotina de Cascavel, no Paraná, e Chapecó, em Santa
Catarina, fosse igual à mostrada nos filmes lá produzidos,
as duas cidades certamente seriam mais bizarras que Twin Peaks,
a localidade do seriado televisivo saída da imaginação
do cineasta americano David Lynch. Para alívio de seus habitantes,
os bandidos sanguinolentos, capazes de promover chacinas intermináveis,
ou pior, zumbis canibais que atacam na calada da noite não
passam de divertida fantasia criada por abnegados cineastas e videomakers
que têm feito de Cascavel e Chapecó espécies
de pólos alternativos de cinema e vídeo. São
produções baratas, mas realizadas num ritmo tão
frenético quanto o desejo das populações de
assistirem a filmes como Fronteira sem destino, um dos exemplos
que ajudaram Cascavel a desafiar os moldes tradicionais da indústria
cinematográfica. O sucesso regional, que começa a
ganhar força fora de seu perímetro, deve-se aos sete
anos de trabalho árduo do ator e produtor paranaense Talício
Sirino, 40 anos. Graças à sua persistência,
Fronteira sem destino, de 1995, ganhou horário na televisão,
continua sendo disputado nas locadoras da cidade e, por comparação,
conseguiu mais público local que o arrasa-bilheteria Titanic.
Chapecó e a vizinha Palmitos domina um outro
segmento não menos curioso. É lá que um animado
grupo de jovens ficou conhecido por produzir vídeos artesanais,
amadorísticos, mas que provocam gargalhadas apavorantes na
garotada cada vez que jorros de groselha simulando sangue explodem
em carnificinas praticadas por monstros, psicopatas e fantasmas
vingativos.
Enquanto
o resultado da turma de Chapecó é propositadamente
mambembe, em Cascavel os filmes de Sirino começam a ganhar
contornos mais profissionais. O diretor e ator lançou três
longas-metragens de pura ação. Eu me inspirei
em John Woo, diz ele, referindo-se ao mestre chinês
dos filmes de pancadaria que assina Missão: impossível
2. Puro exagero, porque o que se vê na tela nada mais
é do que o clima aventuresco das histórias ouvidas
de matadores de aluguel. Em Acerto final, por exemplo, seu primeiro
longa-metragem, de 1993, há uma sequência em que o
herói corre sob uma saraivada de balas. Eram balas
de verdade, pois o orçamento de R$ 10 mil não permitia
gastos com tiros de festim. Achei que não ia sobrar nenhum
ator, só o diretor, brinca Sirino. Em meados de julho,
Sirino dará continuidade à saga de ação
lançando Conexão Brasil seu terceiro trabalho
e primeiro realizado em película no qual aprimora
um estilo trepidante de filmar. Tudo ao custo de R$ 300 mil.
Como um Chuck Norris redivivo, novamente Sirino na vida real
um faixa preta de caratê personifica Franco, herói
tipicamente brasileiro, com sobra de caráter e força,
que enfrenta narcotraficantes e contrabandistas de armas a golpes
de artes marciais. Sirino enche a tela com sua boa forma, concentrada
em 90 quilos de músculos e 1,86m de altura. Fora dos filmes
exibe a mesma disposição para divulgar suas produções
e buscar parceiros. A TV Tarobá de Cascavel é uma
das patrocinadoras mais constantes. Estou aprendendo enquanto
faço, diz.
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Foto:
Ricardo Giraldez
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| Sirino
( foto acima) e os videomakers Coveiro, Baiestorf e os irmãos
Zambiasi: balas verdadeiras e vísceras |
Ar
caseiro A regra de aprendizado também se aplica
aos jovens videomakers de Chapecó e Palmitos. Formado por
quatro amigos alguns com nomes singulares como Boni Coveiro
e uma legião de colaboradores, o grupo vem investindo
em produções com um ar caseiro há mais de cinco
anos. Às vezes lembram os trabalhos do americano Ed Wood,
considerado o pior cineasta do mundo tão ruim que
virou cult e até ganhou uma fita em sua homenagem, com Johnny
Depp no papel do diretor. Entre os primores do trash catarinense,
o riso involuntário corre solto no média-metragem
Eles estão chegando (1997), inspirado nas suspeitas verdadeiras
de que Chapecó seria invadida por discos voadores, que no
vídeo não passam de prosaicas tampas de panelas de
alumínio. Um início mais que amador, porém
determinado. Para fazer a trilha sonora ao vivo, um deles seguia
a câmera carregando um aparelho de som ligado. Atualmente,
a turma do terror já faz edição em computador.
Macabro
Individualmente, as produções macabras não
ultrapassam os R$ 300. A distribuição e venda é
feita por aficionados via Internet e pelo correio, ao preço
médio de R$ 15. É um sucesso local. Dá para
cobrir os custos e ainda sobra para a cerveja. Diante de investimentos
tão baixos, eles dispensam os sacrifícios feitos por
Sirino que chegou a vender uma casa, uma academia de caratê
e até torrou o fundo de garantia da mulher só para
ver seu sonho materializado nas telas. Na fase de produção
de Conexão Brasil, durante seis meses ele percorreu 30 cidades
do oeste paranaense, pilotando uma velha Kombi carregada com um
projetor de mais de 40 quilos e dez rolos do filme Titanic, que
passava nos cinemas ou em praças públicas, num acordo
com a Fox Warner, a distribuidora do filme. Equipado de possantes
alto-falantes, rodava os lugares repetindo incessantemente a canção-tema
My heart will go on, interpretada por Celine Dion. Era o apelo romântico
aos locais. Com o marketing, arrebanhou 28.200 espectadores que
lhe renderam R$ 80 mil.
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Foto:
Ricardo Giraldez
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| Filmagem
de Conexão Brasil: inspiração em histórias reais de matadores |
Curiosamente,
Sirino não bateu o próprio recorde. Fronteira sem
destino teve perto de 30 mil pagantes na região de Cascavel.
Com Conexão Brasil, pretende ir mais longe. Quero atingir
100 mil espectadores só no Paraná. Diante de
uma produção mais generosa, seu poder de fogo aumentou.
O personagem Franco antes usava revólveres. Agora destrói
um carro com uma bazuca. Pela primeira vez também pagou cachês
a praticamente todos os atores e coadjuvantes. Um luxo impensável
para os videomakers de Chapecó e Palmitos, que recrutam conhecidos
para trabalhar de graça. Como reconhecimento, ganham créditos
inéditos. O diretor Petter Baiestorf, 25 anos, por exemplo,
no média-metragem Zombio agradeceu à zumbizada
amiga. São pessoas que querem se divertir e se submetem
a mastigar vísceras de animais ou então ficar horas
besuntados com uma pesada maquiagem feita de farinha de mandioca
e água. Meus filmes são para chocar, sou a favor
da violência na arte, e não na rua. O problema é
que eles chocaram mesmo e não deram retorno financeiro nenhum,
conta Baiestorf.
Boni
coveiro Com a intenção de manter a aura,
Baiestorf veste-se apenas de preto. Tenho aversão a
cores. Em Palmitos, onde mora, é uma figura popular.
Só perde em quantidade de cartas recebidas para a cooperativa
agrícola da cidade. No seu currículo, já foi
assistente do diretor Ivan Cardoso, ajudou a fundar a Conspiração
Trash de Chapecó, produtora que reúne os irmãos
Saulo e Cristiano Popov Zambiasi, 26 e 27 anos, e Fabiano Boni,
o Boni Coveiro, um ex-seguidor de Zé do Caixão, hoje
desiludido com o mestre a quem chama de picareta. Ele deveria
ter morrido nos anos 80, antes da decadência, esbraveja.
Tanta raiva se justifica. Boni entrou num concurso para ser o sucessor
de José Mojica Marins, gastou R$ 60 de inscrição,
dinheiro, segundo ele, depositado na conta do próprio Mojica.
Depois de vir duas vezes à São Paulo, percebeu que
o concurso era uma fraude. Nem assim sepultou seu Boni Coveiro,
personagem inspirado em Zé do Caixão. Quando vai encarná-lo,
anda com uma mala de madeira na forma de caixão.
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