Crianças
Construções do sonho
Escola paulista usa a narração dos devaneios das crianças para
melhorar o rendimento e reduzir a agressividade
Rita
Moraes
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Foto:
Max G. Pinto
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Caio, seis anos, venceu as dificuldades de adaptação no colégio
ao matar onças a tiros, montado num cavalo
Mariana, seis anos, pintou vários anjos cor-de-rosa. A amiguinha
com quem tinha brigado estava de preto |
Um
sonho de aula ou uma aula de sonho? A pergunta parece difícil
para as crianças do colégio Lourenço Castanho,
de São Paulo. A resposta, no fundo, pouco importa. Elas querem
mesmo que chegue a hora de sentar no chão, com uma música
suave ao fundo, e relatar à professora os sonhos que tiveram.
A roda se anima. A professora, delicadamente, mantém a ordem
enquanto anota tudo. As sessões, que terminam com um desenho
caprichado, fazem parte do projeto Compartilhando os sonhos
na escola, desenvolvido em classe com crianças de dois
a sete anos sob supervisão do analista junguiano Roberto
Gambini. Este é um projeto de vanguarda. O inconsciente,
sempre tido como monopólio dos analistas, atua em nossa vida
a todo instante e nunca foi levado em conta nas escolas, explica.
O inconsciente
e os sonhos ganharam destaque na ciência com o psiquiatra
suíço Carl Jung, falecido em 1961. Para ele, o sonho
era como um aviso do inconsciente para facilitar o desenvolvimento
da pessoa. Avisos ou não, os sonhos deram o que falar na
escola e trouxeram resultados surpreendentes. As briguinhas no recreio
diminuíram e a capacidade de concentração e
aprendizado melhorou. Os sonhos de Caio Gonçalves, seis anos,
deixam claro o benefício. Eram sempre relatos de situações
difíceis. Para ele, a vida não estava mesmo fácil.
O garoto nasceu em Maceió e mora em São Paulo há
dois anos. Ele teve de mudar de casa, de escola e de amigos,
conta a mãe Kalina Gonçalves, 36 anos. Neste ano,
ele demonstrou ter vencido os desafios. Sonhei que era um
caçador. Estava a cavalo e apareceram muitas onças.
Fiquei atirando nas onças. Meu cavalo morreu e matei a última
lutando, contou o menino.
Jeannette
De Vivo, uma das diretoras da escola, lembra que hoje as crianças
recebem muitos estímulos e nem sempre são capazes
de digerir tanta informação. A vida é
muito rápida. As crianças têm pouco tempo para
estar sozinhas e ficam agitadas. A hora do sonho é um momento
em que elas podem dar vazão ao que não está
muito claro ou as incomoda, informa ela. A idéia, no
entanto, não é transformar a sala de aula em clínica
psicoterápica avisa outra diretora, a psicóloga Eda
Canepa. As professoras não têm o compromisso
de analisar as crianças. Apenas dão oportunidade para
que elas expressem o seu mundo interior. E isso as aproxima muito
mais dos pequenos.
Protagonismo
Foi na hora do sonho que Mariana, seis anos, expressou o
seu ressentimento em relação a uma colega de classe.
Sonhei que éramos anjos e cheirávamos flores,
disse ela. Até aí, nada de especial, pensou a professora.
Mas quando viu o desenho, ela compreendeu. Mariana pintou todos
os anjinhos de cor-de-rosa e a amiga com quem tinha brigado de preto.
Foi engraçado porque apesar de incluí-la entre
os anjos, ela mostrou em cores o seu aborrecimento, diz a
professora Célia Quintas, 42 anos. Elas conversaram
e esse é o diferencial antes de voltarem às
boas, conta Célia. A diretora Eda Canepa aponta ainda
que a atividade aumenta a auto-estima dos alunos. O processo
em classe se inverte. A criança fala e a professora escreve.
As crianças viram protagonistas, sentem-se importantes, se
desinibem e compartilham as dificuldades, relata.
Quando
a bronca é com a professora, o caso fica mais complicado.
Mas os relatos de sonhos também ajudaram a enfrentar as questões
que envolvem autoridade. Caio Gibara, cinco anos, ficou muito contrariado
quando a professora Cláudia Tucci, 38 anos, o proibiu de
levar uma espada para a escola. Alguns dias depois, ele chegou louco
para contar uma novidade. Sonhei que você era uma bruxa
e eu estava cortando suas unhas grandes, disse ele. A professora
não se abalou. Anotou tudo e mostrou-se interessada. Estávamos,
de certa forma, numa relação tensa e ele me disse
isso num momento de descontração, conta Cláudia.
Esta é outra vantagem da hora do sonho: não há
julgamentos. Nesse momento, tanto a professora quanto os alunos
estão livres de amarras. Afinal, sonho é sonho. Não
se controla nem se julga.
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