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Luz trêmula
O
risco de faltar energia dobrou devido à política conduzida por Malan,
“um ministro desvairado”. Mas há saída, diz o físico Luiz Pinguelli
Rosa
Liana
Melo
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Foto:
Carlos Magno
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“Tourinho reclamou de mim, mas não tenho de obedecer a ministros” |
No
início dos anos 90, o físico Luiz Pinguelli Rosa alardeava
previsões negativas para o setor elétrico brasileiro.
O vice-diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação
em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) dizia, na época, que o governo não deveria
jogar suas estatais de energia às feras da era privatista
sem uma forte retaguarda estatal. Patrimônio estratégico
para qualquer país, a energia jamais poderia ser vista como
mercadoria ao sabor das Bolsas de Valores. Aos 58 anos, Pinguelli
não fica dizendo: Bem feito, eu bem que avisei,
agora que o governo, diante da situação crítica
do abastecimento de energia, elaborou um plano de racionamento.
Para Pinguelli, ainda há tempo para mudanças de rumo
do governo, que reduziu o sistema elétrico brasileiro a mais
um item de negociação com os credores externos. Estamos
nesta situação em consequência da política
que entregou aos estrangeiros as decisões do setor elétrico,
diz Pinguelli. O físico, em rota de colisão com o
ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, desde o apagão
de março do ano passado, não poupa críticas
ao governo. Em entrevista a ISTOÉ, Pinguelli disse que o
Ministério da Fazenda é um perigo para a nação
porque o ministro Pedro Malan, um completo desvairado,
não pensa em mais nada além do controle da inflação.
ISTOÉ
O País vive uma crise energética?
Luiz Pinguelli Rosa Infelizmente sim. O governo não
se preocupou com a expansão do setor elétrico quando
iniciou seu programa de privatizações. Ele só
pensou no aspecto monetário-econômico. Ou seja, a privatização
do setor elétrico não foi feita para resolver o problema
da energia elétrica e sim para atender exigências de
acordos internacionais como os assinados com o Fundo Monetário
Internacional. Hoje, o risco de déficit do setor subiu de
5% para mais de 10% e continua disparando. É que os níveis
de água nas hidrelétricas caíram abaixo do
indispensável para permitir a operação com
risco aceitável. O governo inclusive já tem um plano,
batizado de Plano de Corte Seletivo, para evitar outros apagões
como o do ano passado. A idéia é cortar energia de
forma seletiva.
ISTOÉ
Os novos empresários do setor são os responsáveis
por esta crise elétrica?
Pinguelli Eu diria que o problema é do governo,
que saiu do setor e passou toda a responsabilidade para o investidor
privado. Ele transformou a energia elétrica em um bom negócio
e o investidor privado saiu comprando. É um dogma dos economistas
liberais. Para eles, o mercado é capaz de regular tudo, cabendo
ao governo apenas cuidar para o mercado funcionar bem. A idéia
era que, com a privatização, haveria uma atração
de investimentos e o negócio energia elétrica iria
tomar o lugar do serviço público energia elétrica.
Cheguei a ouvir certa vez de um diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) que energia elétrica é
uma mercadoria comum como outra qualquer, assim como um móvel.
A idéia básica é a seguinte: se falta, a oferta
cresce; se sobra, a oferta diminui. Só que em energia elétrica
não funciona bem assim. É preciso tomar decisões
antecipadamente. As hidrelétricas, por exemplo, levam cerca
de cinco anos para entrar em operação, e as termoelétricas,
no mínimo três anos. Quando o governo federal decidiu
tomar uma decisão, já era tarde demais.
ISTOÉ
O governo dá sinais de que vai rever sua posição?
Pinguelli O governo já confessou publicamente
que o modelo adotado não deu certo. Tanto assim que voltou
atrás e está planejando o Programa Emergencial de
Termoelétricas, envolvendo 49 usinas. A primeira começa
a ser implantada no dia 31 de julho. Isso é uma confissão
de erro. Aqui no Brasil sempre nos levam a pensar que lá
fora as privatizações foram iguais às daqui.
Isso não é verdade. Os Estados Unidos, por exemplo,
que são o país mais privatizado do mundo, têm
uma capacidade hidrelétrica instalada estatal maior que o
total da geração brasileira. A hidreeletricidade americana
está nas mãos de grandes e pequenas empresas públicas.
Até o Exército americano gera energia elétrica.
ISTOÉ
Na sua opinião, como se comportaram as empresas depois
de privatizadas?
Pinguelli A Light, por exemplo, cuidou mal da distribuição.
Não é à toa que sofremos, no Rio de Janeiro,
um sério problema de energia elétrica. A empresa dispensou
muita gente após a privatização e perdeu a
sua memória técnica. A Light era uma empresa cheia
de gatos. Só que lá houve uma arrogância estrangeira
imensa. Em geral, as empresas privatizadas são assumidas
por pessoas que pensam que sabem muito. Só que nem sempre
é assim. O sistema brasileiro tem suas particularidades.
ISTOÉ O sr. quer dizer que outras empresas elétricas
aumentaram o preço da tarifa depois de privatizadas?
Pinguelli Exatamente. Furnas gera uma energia hoje a
R$ 35 o megawatt/hora. A minha conta de luz, paga mensalmente à
Light, está em torno de R$ 213 por megawatts/hora. No próximo
dia 31 entrará em operação o Programa Emergencial
de Termoelétricas. São um total de 49 usinas e o custo
de energia para estas termoelétricas vai girar em torno de
R$ 75, ou seja, o dobro do preço cobrado por Furnas.
ISTOÉ
Quando surgiram os primeiros sinais da crise elétrica?
Pinguelli O primeiro sinal foi o apagão de março
do ano passado. Oficialmente, ele teria sido motivado por um relâmpago.
Chegou-se a divulgar que o raio teria caído sobre uma estação
de transformadores da Companhia Estadual de São Paulo (Cesp),
em Bauru, São Paulo. Depois de uma olhada no mapa de descargas
elétricas registradas diariamente por um sistema de detenção
bastante eficiente, comprovamos que, naquele dia, não havia
caído nenhum raio a menos de 50 quilômetros de Bauru.
Queda de raio ocorre com frequência em dias de chuva, tanto
assim que existem os chamados pára-raios. O problema é
que o sistema estava totalmente vulnerável. Só para
dar uma idéia: a diferença entre a capacidade e o
pico de consumo deve girar em torno de 15% ou mais para ter segurança,
e esta diferença baixou para pouco menos de 5%. Estou falando
apenas do sistema Centro-Sul.
ISTOÉ
Depois de muita briga interna, o governo parece ter chegado
a um consenso, definindo um modelo diferente do habitual para privatizar
Furnas. O sr. concorda com a sistemática anunciada, de pulverização
das ações?
Pinguelli Mas qual é o modelo? Até agora
não ficou muito claro qual é exatamente a proposta
do governo para privatizar Furnas Centrais Elétricas. Parece
que existe um conflito de interesses dentro do próprio governo.
Apesar das disputas internas, acho positivo o fato de o governo
ter aberto essa discussão. Comprovou-se, na prática,
que não existe um caminho único. Estamos vivendo esta
crise energética porque o governo errou na sua política
de privatização na área elétrica. O
governo foi cego em relação aos problemas técnicos
da disponibilidade de energia no País. No passado, quando
alertávamos para os problemas atuais, as autoridades costumavam
negar a crise e insistiam em elogiar o modelo privatista. Agora,
o governo mudou de posição: primeiro, reconheceu a
crise e depois, admitiu que não pode repetir o erro ao vender
Furnas.
próxima
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