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Uma família de morte
Pistoleiro envolve vice de Patrícia Gomes na morte do tio prefeito que, em fita, acusa primos

Adriane Araújo - Fortaleza

Foto: Diário do Nordeste
“Doutor João ofereceu dinheiro”

Numa sala apertada, no Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza, diante de uma platéia atenta e policiais fortemente armados, o pistoleiro Francisco de Assis Mendes Barbosa, o Pantico, causou um rebuliço na semana passada, com o seu depoimento à Justiça. Acusado de ter assassinado há dois anos o prefeito João Jaime Ferreira Gomes, do município de Acaraú, norte do Ceará, ele trouxe agora uma nova versão para o caso. Segundo Pantico, quatro dias após a morte do prefeito, ele teria sido sequestrado e coagido a assumir o crime, a mando de João Jaime Andrade Marinho, chefe de Gabinete do governador Tasso Jereissati (PSDB) e candidato a vice-prefeito na chapa da deputada Patrícia Gomes (PPS), ex-mulher do ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes.
Na versão de Pantico, os sequestradores se diziam policiais e falavam que o “doutor João Jaime” estava oferecendo R$ 3 mil para que assumisse tudo e passasse seis meses desaparecido. Segundo ele, a idéia do sumiço era para incriminar “os deputados”. Para a polícia, a morte do prefeito de Acaraú teria sido encomendada devido a uma briga política pelo controle de verba federal, R$ 3 milhões, para a dragagem de um rio. Com o clima tenso na cidade, o prefeito teria gravado uma fita de vídeo na qual acusa três primos – o ex-vice-prefeito de Acaraú, Amadeu Ferreira Gomes, o deputado estadual Manoel Duca da Silveira Neto e o deputado federal Aníbal Ferreira Gomes – de conspirarem para matá-lo. Os três seriam os mandantes do crime de pistolagem. Um imbróglio familiar que terminou à bala.
O chefe de Gabinete do governador, João Jaime Marinho, também parente da vítima, tem trabalhado numa campanha com a viúva e os filhos para que o caso seja esclarecido. Depois da acusação de Pantico, ele disse estar convencido de que as declarações mostram o desespero dos mandantes, os três primos mencionados na fita que o tio dele deixou antes de morrer. “É uma estratégia para desvirtuar o processo”, explica. “Como sou candidato e este é um ano de eleição, a idéia é girar o foco para cima de mim. A autoria já está provada”, conclui. João Jaime refere-se às ligações telefônicas, 181 ao todo, entre o pistoleiro e os três envolvidos. No dia do assassinato, foram oito ligações. Por exemplo, dez minutos antes do crime, o então vice-prefeito Amadeu Ferreira Gomes ligou para Pantico. Dez minutos depois do crime, foi a vez de Pantico ligar de volta para Amadeu. “São muitas as provas. A história que ele conta agora é absurda, um abuso à inteligência.”

Foto: Mauri Melo/O Povo-Fortaleza
João e Patrícia: “Querem desvirtuar o processo”

Pantico foi preso no Rio de Janeiro, em maio, no bairro de Jacarepaguá, quando voltava de uma vaquejada realizada no bairro de Xerém, em Duque de Caxias. Numa fuga cinematográfica, o pistoleiro saiu em alta velocidade, mas os policiais atiraram nos pneus e ele acabou batendo num poste. Do Rio, foi transferido para Fortaleza e preso no Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira, sob cerrado esquema de segurança. Pantico vivia há mais de dois anos com identidade falsa. No tempo em que esteve foragido, diversificou sua atuação. Segundo a Polícia, além de crimes por encomenda, participava de assaltos a cargas e animais. Policiais teriam apurado também que o grupo de Pantico atua, além do Ceará, em Tocantins, Maranhão e Pará, com ramificações em Goiás, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte.

© Copyright 1996/2000 Editora Três

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