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Bico de mestre

Baixos salários fazem professores complementar renda como metalúrgico, manicure e até camelô

Gilberto Nascimento

Foto: José Leomar
O professor Inácio, de Fortaleza, na sala de aula e na rua vendendo sapatos para sobreviver: vale-transporte e prestações de R$ 2 por semana como pagamento

Antonio Angelo de Camillo, 44 anos, surpreende os colegas pela disposição. Ele acorda todos os dias às 5h30. Sai de casa, em Ermelino Matarazzo, na periferia leste de São Paulo, às 6h20. Viaja 47 quilômetros numa pequena motocicleta de 125 cilindradas para chegar ao trabalho, numa fábrica em Barueri, no extremo oeste da Grande São Paulo. Retorna às 17h30 e percorre mais oito quilômetros até a Escola Estadual Cleise Siqueira, na zona leste paulistana. Sua jornada se encerra às 23 horas. Quando chega em casa já é quase meia-noite. Antonio não é o Super-Homem, mas, além do fôlego, tem em comum com o herói a dupla identidade. De dia, é metalúrgico. À noite, professor de Matemática. Pelas 24 horas-aulas que dá semanalmente ele recebe R$ 800 no final do mês. Como metalúrgico na indústria de compressores de ar, ganha R$ 2,3 mil. “Preparo minhas aulas no final de semana. Passo pelo menos seis horas corrigindo material dos alunos”, diz Antonio, que lamenta não poder dedicar mais tempo ao ensino, sua verdadeira vocação. Ele concilia as duas atividades há 11 anos. Já tentou ficar somente na escola, mas não conseguiu. “Gosto de ser professor. A gente tem o ideal de uma nova sociedade. Mas tenho de trabalhar também como metalúrgico por imposição de uma classe dominante que não liga para o ensino público”, discursa o professor-operário.

Foto: Hélcio Nagamine
O metalúrgico Antonio acorda às 5 horas da manhã e viaja 47 quilômetros para chegar ao trabalho. Às 17h30, está na escola, onde vira professor de Matemática

Alternativas – Apesar do descaso do governo, milhares de Antonios espalhados pelo País resistem aos baixos salários e precárias condições de trabalho para levar adiante a sua missão de ensinar. Conciliar a função de professor com outra atividade, então, tornou-se uma alternativa. Há 20 anos no magistério, o professor de Química Sérgio Caetano Moreno, 52 anos, sempre fez bicos como serralheiro, encanador, pintor, eletricista e dedetizador. Na Escola Estadual Celso Tozzi, em Jaguariúna, a 120 quilômetros de São Paulo, ele recebe R$ 980 mensais por 35 horas-aulas semanais. Como serralheiro, pode ganhar R$ 800 pelo trabalho de instalação de um portão de quatro a seis metros. No momento, Sérgio trabalha na reforma de sua própria casa e lamenta ter perdido uma boa clientela na capital paulista, de onde se mudou há um ano e meio. “Aqui ainda tenho trabalhado pouco. Mas pretendo me aposentar no próximo ano e me dedicar mais a esses trabalhos. Tenho uma relação afetiva com os alunos. Mas lecionar hoje está muito complicado”, desabafa.

Foto: Ricardo Giraldez
Professor de Química, Sérgio faz bicos como encanador e serralheiro, mas perdeu clientes: "Vou me aposentar"

Formado em Letras na PUC-SP e com cursos de pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP, Wilton Guedes da Fonseca, 51 anos, virou taxista. Ele dá aulas há 26 anos e recebe cerca de R$ 2 mil como professor de Língua Portuguesa da Escola Municipal Shirley Guio, na zona norte de São Paulo. Ganha o dobro como motorista. Wilton acorda diariamente às 5h30 e dirige até as 13h. Quatro horas depois está na escola, onde leciona até as 23h. Ele começou a trabalhar como taxista há quatro anos, depois que desistiu de dar aulas na rede de ensino do Estado. “O salário estava muito aviltado. Também não concordava com as mudanças pedagógicas que começavam a surgir. Hoje, só se vê o ensino como um gasto, não como investimento. Estão fechando escolas, professores estão desempregados e as classes superlotadas.” Até o ano passado, Wilton dormia apenas três horas por noite. “Para pagar as prestações do carro, eu começava a trabalhar às quatro horas da manhã.” Ele nunca pensou em parar de lecionar. “Ser professor é uma realização pessoal.” Privilégio, quem tem são os passageiros. No seu táxi, estão sempre disponíveis clássicos da literatura como Machado de Assis, Proust e Jorge Luis Borges. Já o Escort 95 de Inácio Fontenele, 49 anos, professor de Matemática em Fortaleza (CE), tem outro atrativo: é uma loja ambulante. Nas horas de folga, Inácio vira camelô e seu carro uma banca. Ele vende calça jeans, bermudas, blusas, camisetas, sapatos e até chuteiras. Aceita vale-transporte e até prestações suaves de R$ 2 por semana como pagamento por seus produtos. Num final de semana – quando tem mais tempo e trabalha mais –, chega a vender 40 peças. O dublê de mestre e mascate consegue, assim, dobrar o salário de R$ 700, numa escola de periferia da capital cearense. Professor há 20 anos, há dez Inácio tornou-se vendedor de roupas. Antes, foi vaqueiro e policial militar. “Depois de tanta coisa na vida, me encontrei como professor. Gostaria de somente lecionar.” Esse sonho ainda parece distante. Os professores cearenses estão em greve – como em São Paulo –, mas Inácio acha quase impossível o governo atender o pedido de 65% de aumento.

Foto: Hélcio Nagamine
Luciene é professora substituta e trabalha como manicure para garantir oorçamento: desemprego na família preocupa

A situação de um professor substituto é ainda mais difícil. Luciene de Oliveira, 35 anos, professora de uma escola municipal no Jardim Campos, na periferia de São Paulo, ganha, em média, R$ 420 por mês. Isso quando tem aulas. Seu marido é segurança e está desempregado há cinco meses. Por isso, ela trabalha também como manicure. “Cobro R$ 10 para ‘fazer’ os pés e as mãos. Quando consigo atender três ou quatro pessoas por semana, consigo uns R$ 160 por mês.” Centenas de professores fazem outros tipos de bicos, como Suzete Menezes, 39 anos, professora de História há 15 e salário de R$ 760. Ela vende cosméticos e produtos de limpeza na zona leste paulistana. “É um complemento. Consigo ganhar mais uns R$ 300 por mês. Faço isso há 11 anos e já ganhei até um broche de ouro da empresa.” Como educadora, porém, Suzete não se sente recompensada. “Virou uma calamidade. Antigamente, o professor era uma referência. Hoje, não é mais valorizado nem respeitado.” Na segunda-feira 29, ao lançar um programa de Internet nas escolas públicas, o governador de São Paulo, Mário Covas, disse ser “simpático” à greve de professores no Estado. Mas lamentou não poder “fazer muita coisa”. Algo, porém, tem de ser feito para que o ensino não vire definitivamente um bico.

Colaborou Ariadne Araújo (CE)

© Copyright 1996/2000 Editora Três

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