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De joelhos

Sem estatais para vender, com escassez de dólares e diante do real desvalorizado, fica mais difícil manter a conversibilidade

Luiz Antonio Cintra

Foto: REUTERS

A próxima rodada de protestos contra a política econômica do governo argentino já tem data marcada: será na sexta-feira 9, quando as três maiores centrais sindicais pretendem parar o país. Mais de 40 mil pessoas (80 mil, para os organizadores) reunidas na semana passada protestaram contra o segundo pacote baixado pelo presidente Fernando de la Rúa em menos de seis meses de governo. Se o primeiro conjunto de medidas foi centrado no aumento de impostos, o segundo cortou gastos do próprio governo, especialmente o salário do funcionalismo. Houve corte de 12% para quem ganha entre mil e 6,5 mil pesos – em Buenos Aires, o salário médio é próximo de mil pesos, equivalentes a mil dólares. Acima disso, a redução foi de 15%. Ao todo, 140 mil funcionários públicos tiveram seus salários cortados, mais da metade do total de 270 mil. Estão incluídos funcionários administrativos, Forças Armadas, do Legislativo e do Judiciário. Os aposentados também foram atingidos. Desde o início de junho, ganham um terço menos aqueles com idade entre 50 e 60 anos e 50% menos os aposentados com até 50.

Menos de 24 horas depois de anunciar o pacote, foi a hora de o ministro da Economia, José Luis Machinea, tentar ganhar a confiança de quem realmente preocupa o governo no momento: os banqueiros e os operadores de Wall Street, aos quais falou durante uma conferência telefônica, na terça-feira, 30. “Nenhum outro país fez um corte de salários dessa magnitude”, disse o ministro aos investidores, garantindo que o governo fará o possível para atender às exigências do Fundo Monetário Internacional.

Feitas as contas, o resultado deverá ser uma economia, até dezembro, de US$ 538 milhões. Com isso, o governo espera chegar à meta de um déficit público de US$ 4,7 bilhões no ano, conforme acertado com o FMI como contrapartida a um empréstimo emergencial de US$ 7,2 bilhões. Muitos analistas, entretanto, consideram que o objetivo é difícil de ser alcançado – e a própria equipe econômica já mencionou a possibilidade de novas medidas pela frente. O problema é que a arrecadação de impostos está em um nível baixo por conta da recessão do ano passado, quando o PIB caiu 3,5%. “A intenção do governo era pelo menos fazer com que a economia voltasse ao nível do final de 1998, mas pelo jeito nem isso eles conseguirão”, diz o economista Ilan Goldfajn, professor da PUC do Rio de Janeiro. Goldfajn acredita num crescimento entre 2% e 2,5% neste ano, mas lembra que nos primeiros três meses a taxa ficou próxima de zero.

Sem fundos – A sensação generalizada, entre observadores da economia argentina, é que o governo simplesmente quer ganhar tempo, até que a conjuntura internacional, hoje desfavorável, mude. O país sofre com a alta dos juros americanos, a qual encarece sua dívida externa e dificulta a atração de dólares, com a queda dos preços internacionais de alguns produtos agropecuários importantes na sua pauta de exportação e com a dificuldade de vender seus produtos para o Brasil, principal parceiro comercial. Cada ponto percentual de alta dos juros nos EUA, por exemplo, representa um aumento de US$ 300 milhões da dívida administrada por De la Rúa. “Enquanto a Argentina tinha ativos para privatizar, entrava investimento direto no país e o real estava valorizado, era mais viável manter a conversibilidade. Mas agora a situação é outra. Aquilo é um saco sem fundo e mais cedo ou mais tarde vai explodir”, avalia o economista Wilson Cano, da Unicamp.

A forma como a Argentina sairá da conversibilidade é um ponto fundamental para a economia do país e certamente terá consequências importantes sobre a economia brasileira. Uma saída abrupta, não coordenada pelo Banco Central argentino, traria sérias dificuldades para o Brasil, avalia o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “Haveria efeitos do ponto de vista comercial e também financeiro para a economia brasileira”, diz Almeida. Como as dívidas de empresas e pessoas físicas argentinas estão em dólar, uma desvalorização do peso jogaria o país numa recessão. Com isso as exportações do Brasil para a Argentina cairiam. Do lado, financeiro, o Brasil teria fugas de capitais e muita dificuldade para captar recursos no mercado internacional, já que os investidores tendem a ver as duas economias sob o mesmo prisma. Outra alternativa, defendida pelo ex-presidente Menem, seria simplesmente dolarizar de vez a economia do país. “A dolarização parece mais provável porque na prática o peso não existe mais para os argentinos. Por enquanto, o que eles fizeram foi jogar alguns cristãos aos leões, mais nada”, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp. Mas a dolarização, diz Belluzzo, significaria o país abdicar da sua autonomia, ficando ao sabor das decisões do Banco Central americano.

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