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Tachados de geração coca-cola, os jovens do ano 2000 mostram preocupação com a política e com a sociedade

Camilo Vannuchi e Marina Caruso

Foto: Ricardo Giraldez

Nohara adiou a sua formatura por causa do movimento estudantil

As manifestações ocorridas nas últimas semanas nas grandes capitais do País mostram uma outra face dos jovens do ano 2000. Longe do estereótipo da “geração Coca-Cola”, muitos estudantes têm dado mais apoio aos professores e funcionários públicos em greve do que estes costumam encontrar nas suas próprias categorias. Talvez não signifique a volta dos caras-pintadas, da época do impeachment de Collor, mas a moçada de hoje se preocupa com a sociedade – e não só com noitadas e compras no shoppings. Jovem engajado, é bom lembrar, não precisa necessariamente fazer parte do movimento estudantil ou de partidos políticos. Nessa batalha incessante em busca de um futuro melhor, há quem se alie a propostas de ONGs ou realize trabalhos voluntários junto a comunidades carentes. Há até quem atrase seus estudos e adie a entrada no mercado em prol do social.
O estudante de comunicação Alexandro Nohara, 25 anos, por exemplo, deveria ter-se formado no ano passado. Mas sua paixão pelo movimento estudantil atrasou em dois anos os seus planos. Ele é um dos diretores do Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo e, desde que a instituição entrou em greve, vive exclusivamente para a política. “São 24h por dia discutindo o movimento estudantil. Meu almoço é um pão com qualquer coisa, apelidado de x-greve, devorado entre uma reunião e outra”, relata. Desempregado por opção, Nohara acredita que lutar por um ensino público de qualidade é dever de todos. Para ele, o jovem está, sim, interessado em política. “Na verdade, o estudante está cansado de ‘fora FHC’ e ‘fora FMI’, porque o discurso panfletário esconde a relação disso com o dia-a-dia do aluno. Nossa atividade extrapola o engajamento partidário”, afirma, vestindo uma camiseta do MST com uma estrela do PT no lado esquerdo do peito.

Foto: Carlos Magno

Eugênia abraçou a filosofia do PCB, faz panfletos e reuniões

Thiago Benichio, 21 anos, concorda com Nohara. Ele cursa o segundo ano de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e se considera “de esquerda”. Sem se identificar – ao menos por enquanto com nenhum partido político, faz o que pode para construir um país melhor. Vale até largar o emprego. “Eu trabalhava para um provedor da Internet e ganhava o suficiente para abdicar da mesada, mas estava infeliz. Deixei o trabalho, montei uma chapa para o Centro Acadêmico da Faculdade e agora me julgo mais útil para a sociedade”, diz Benichio.
Essa sensação de “utilidade” tem fundamento. A chapa do estudante de jornalismo venceu e, hoje, o CA de comunicação é bastante ativo dentro da PUC-SP. Junto com os colegas da faculdade, ele foi parar em Porto Seguro na manifestação contra a comemoração dos 500 anos e acabou sendo preso. Marcou presença também na última passeata ocorrida em São Paulo em apoio à greve das universidades públicas estaduais e federais. Teoricamente, isso nem deveria incomodá-lo. “A situação dos funcionários públicos é deprimente e precisamos ser solidários a essa categoria”, declara Benichio, justificando sua presença na manifestação.

Para o psicólogo social Odair Furtado, da PUC de São Paulo, esse espírito de solidariedade é o que sustenta o movimento estudantil. “Quanto mais gente aderir a manifestações e greves, mais consistência terá o movimento. E, se as pessoas envolvidas forem de outros setores e não só os diretamente atingidos, melhor”, diz o especialista. Na opinião de Furtado, o desemprego, os baixos salários e o desgaste do modelo político implantado por FHC estão são gritantes que até o jovem mais displicente tem dificuldade em fingir que nada está acontecendo.

Foto: Ricardo Giraldez

Benichio trocou o trabalho pelo centro acadêmico da faculdade

Tribos – Nos anos 60 e 70, a grande maioria dos jovens que lutava contra a repressão política era comunista, marxista, socialista ou simplesmente “de oposição”. Hoje, não é necessário fazer parte de alguma tribo para integrar o movimento estudantil. Há espaço para partidários da situação organizarem seu grupo, como fizeram os fundadores da Juventude Latino-americana pela Democracia (Julad). Nascida para se opor à União Nacional dos Estudantes (UNE), a Julad foi formada principalmente por membros do PSDB e do PFL.
Prontos para brigar por teses semelhantes às de qualquer grupo de esquerda, seus líderes podem ser encontrados entre bandeiras do PSTU ou do PCdoB em dia de manifestação. As mensagens políticas, quando existem, literalmente se misturam. Para o psicólogo Contardo Calligaris, a falta de uma posição política comum não significa que os jovens de hoje sejam superficiais. “Se a sociedade não é transformada por cima, a partir de uma doutrina, ela só pode ser mudada aos pedaços, ou seja, por meio de pequenos gestos”, analisa o especialista.

Claro que ainda existe o engajamento tradicional, caracterizado pela dedicação à causa da revolução social. Dez anos após a queda do muro de Berlim, a estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro Eugênia Motta, 20 anos, foi atraída pelo Partido Comunista Brasileiro. Entre imagens de Che Guevara, Marx e Lênin, Eugênia continua fiel aos preceitos socialistas e se encontra com outros militantes todas as tardes na sede do partido para programar manifestações, confeccionar panfletos e discutir política. “Não estamos nos preparando para pegar em armas hoje e tomar o poder. A gente não quer ser igual à União Soviética, mas as bases marxistas e a luta de classes continuam”, diz.

Foto: Rogério Ribeiro

Leão brinca com crianças de uma creche em Porto Alegre

O discurso da luta de classes talvez não apareça na ação de Thiago Leão, 18 anos. Mas na prática, ele sabe bem o que é diferença social. Estudante do Colégio Farroupilha, um dos mais conceituados de Porto Alegre, ele ajuda crianças de uma creche em uma das vilas mais pobres e violentas de Porto Alegre. Leão foi convidado para integrar a Organização Não-Governamental Parceiros Voluntários durante uma aula no ano passado. Desde então, “milita” semanalmente com seis colegas, preparando atividades de recreação para crianças com idade entre 6 e 14 anos. “Meu trabalho surgiu da revolta diante de tanto conformismo. Acredito que se cada um fizer a sua parte, muita coisa pode mudar”, projeta.

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