
Os novos companheiros Tachados de geração coca-cola, os jovens do ano 2000 mostram preocupação com a política e com a sociedade Camilo Vannuchi e Marina Caruso
As manifestações
ocorridas nas últimas semanas nas grandes capitais do País
mostram uma outra face dos jovens do ano 2000. Longe do estereótipo
da geração Coca-Cola, muitos estudantes têm
dado mais apoio aos professores e funcionários públicos
em greve do que estes costumam encontrar nas suas próprias categorias.
Talvez não signifique a volta dos caras-pintadas, da época
do impeachment de Collor, mas a moçada de hoje se preocupa com
a sociedade e não só com noitadas e compras no
shoppings. Jovem engajado, é bom lembrar, não precisa
necessariamente fazer parte do movimento estudantil ou de partidos políticos.
Nessa batalha incessante em busca de um futuro melhor, há quem
se alie a propostas de ONGs ou realize trabalhos voluntários
junto a comunidades carentes. Há até quem atrase seus
estudos e adie a entrada no mercado em prol do social.
Thiago
Benichio, 21 anos, concorda com Nohara. Ele cursa o segundo ano de Jornalismo
na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
e se considera de esquerda. Sem se identificar ao
menos por enquanto com nenhum partido político, faz o que pode
para construir um país melhor. Vale até largar o emprego.
Eu trabalhava para um provedor da Internet e ganhava o suficiente
para abdicar da mesada, mas estava infeliz. Deixei o trabalho, montei
uma chapa para o Centro Acadêmico da Faculdade e agora me julgo
mais útil para a sociedade, diz Benichio. Para o psicólogo social Odair Furtado, da PUC de São Paulo, esse espírito de solidariedade é o que sustenta o movimento estudantil. Quanto mais gente aderir a manifestações e greves, mais consistência terá o movimento. E, se as pessoas envolvidas forem de outros setores e não só os diretamente atingidos, melhor, diz o especialista. Na opinião de Furtado, o desemprego, os baixos salários e o desgaste do modelo político implantado por FHC estão são gritantes que até o jovem mais displicente tem dificuldade em fingir que nada está acontecendo.
Tribos
Nos anos 60 e 70, a grande maioria dos jovens que lutava contra
a repressão política era comunista, marxista, socialista
ou simplesmente de oposição. Hoje, não
é necessário fazer parte de alguma tribo para integrar
o movimento estudantil. Há espaço para partidários
da situação organizarem seu grupo, como fizeram os fundadores
da Juventude Latino-americana pela Democracia (Julad). Nascida para
se opor à União Nacional dos Estudantes (UNE), a Julad
foi formada principalmente por membros do PSDB e do PFL. Claro que
ainda existe o engajamento tradicional, caracterizado pela dedicação
à causa da revolução social. Dez anos após
a queda do muro de Berlim, a estudante de Ciências Sociais na
Universidade Federal do Rio de Janeiro Eugênia Motta, 20 anos,
foi atraída pelo Partido Comunista Brasileiro. Entre imagens
de Che Guevara, Marx e Lênin, Eugênia continua fiel aos
preceitos socialistas e se encontra com outros militantes todas as tardes
na sede do partido para programar manifestações, confeccionar
panfletos e discutir política. Não estamos nos preparando
para pegar em armas hoje e tomar o poder. A gente não quer ser
igual à União Soviética, mas as bases marxistas
e a luta de classes continuam, diz.
O discurso da luta de classes talvez não apareça na ação de Thiago Leão, 18 anos. Mas na prática, ele sabe bem o que é diferença social. Estudante do Colégio Farroupilha, um dos mais conceituados de Porto Alegre, ele ajuda crianças de uma creche em uma das vilas mais pobres e violentas de Porto Alegre. Leão foi convidado para integrar a Organização Não-Governamental Parceiros Voluntários durante uma aula no ano passado. Desde então, milita semanalmente com seis colegas, preparando atividades de recreação para crianças com idade entre 6 e 14 anos. Meu trabalho surgiu da revolta diante de tanto conformismo. Acredito que se cada um fizer a sua parte, muita coisa pode mudar, projeta. |
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