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Herança trágica A maioria dos filhos de pais dependentes é aban donada e carrega sequelas por toda a vida Carla Gullo
e Cilene Pereira
Talvez
Teresa*, um ano, nunca saiba que sua mãe tentou trocá-la
por uma cesta básica mais R$ 20. Seus irmãos, Marcelo,
quatro anos, e Mariana, dois, quase foram vendidos por R$ 600 e R$ 300,
respectivamente. A barganha está relatada num processo da Vara
de Infância e Juventude de Araraquara, interior de São
Paulo. Não se sabe o motivo pelo qual as negociações
dos mais velhos foram frustradas. Teresa até chegou a ser vendida,
mas a mãe, 21 anos, se arrependeu e a resgatou da casa do comprador
dias depois. Mas, em vez de berço, o nenê ganhou um cesto
e, no lugar de colo, desprezo. Depois de denúncias por maus-tratos,
Teresa e os irmãos foram abrigados no orfanato Renascer, naquela
cidade, e estão sob a guarda do Estado.
Pensar
que os filhos de dependentes químicos nasçam com problemas
é compreensível. Afinal, se apenas alguns cigarros durante
a gestação comprometem o peso e muitas vezes o aparelho
respiratório dos bebês, imagine o crack. O médico
Pérsio de Deus, do Departamento de Investigações
Sobre Narcóticos (Denarc) afirma que essas crianças podem
ter sequelas como hiperatividade e irritabilidade. O feto também
corre o risco de ter o fígado muito sobrecarregado e sofrer uma
insuficiência hepática, diz. A experiência
clínica de muitos especialistas mostra ainda que grande parte
desses bebês nasce com problemas respiratórios e síndrome
de abstinência. A cocaína atravessa a placenta e
circula livremente no feto. Quando o bebê nasce, acaba o suprimento
da droga e ele sente falta, diz o pediatra Cláudio Schvartsman,
do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Os sintomas são
choro intenso, irritabilidade o médico mal pode mexer
na criança , tremores e dificuldade para mamar. Os pequenos
pacientes sofrem e precisam ser tratados como os adultos, com tranquilizantes.
Muitas vezes vão direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
No entanto,
ainda é grande a polêmica sobre as consequências
do crack nas crianças. A neonatologista Marisa Schorr Salgado,
da Santa Casa de São Paulo, dedicou sua tese de doutorado ao
assunto e ela afirma que os únicos efeitos comprovados são
baixo peso e cérebro menor o que não significa
necessariamente algum retardo. É muito difícil associar
problemas físicos somente com a droga. Em geral, a mãe
dependente fuma, bebe, come pouco e não faz pré-natal.
Por isso, os eventuais problemas do recém-nascido ocorrem por
múltiplas causas, explica. Esse conjunto de fatores está presente no caso de Patrícia, que nasceu de oito meses na semana passada, na Santa Casa de São Paulo. Filha de Maria, 31 anos, o bebê tem 1,5 kg, está na UTI com dificuldades respiratórias e infecção generalizada devido a um problema no útero da mãe. Maria é dependente, fuma e bebe. Mora na rua com a outra filha, de três anos. O pai da menina está preso. Ela garante que usou crack só no começo da gestação. Meu bebê nasceu antes porque levei um susto. Fumei muito na primeira gravidez. Mas nessa não, afirma. Os médicos, no entanto, contam que ela chegou ao hospital dopada. Maria não é a única a negar a dependência. É comum as mães não revelarem sua condição. Mas ela está disposta a cuidar da filha. Quer levá-la para morar ao seu lado e da irmã, na rua. O chefe da Unidade Neonatal da Santa Casa, Paulo Pachi, diz que a menina inspira cuidados, mas deve ficar bem. Esses casos ficam sub judice da Vara da Infância. A criança volta para a mãe se o juiz achar que ela tem condições de cuidar, explica o médico. |
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