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‘‘Mulas’’ da 3ª idade
Uma portuguesa de 75 anos e um uruguaio de 82 são presos em aeroporto transportando drogas

Letícia Helena

Foto: Fernando Quevedo: AG./ O Globo
Iselinda foi absolvida por falta de provas. Fitas, no entanto, mostrariam que ela pode estar envolvida com o narcotráfico

A prisão de dois idosos em quatro meses no Rio levou a Polícia Federal a intensificar as investigações sobre o uso de vovôs e vovós como “mulas” (pessoas que transportam drogas). No sábado 26, o uruguaio Abel Ayspuro Durán, 82 anos, foi detido no Aeroporto Internacional Tom Jobim, quando tentava levar oito quilos de cocaína para Roma. Em fevereiro, a portuguesa Iselinda Miranda Santa Clara, 75 anos, fora presa no mesmo aeroporto, sob a acusação de ter 27 quilos de droga na bagagem. Iselinda ficou dois meses na cadeia, foi julgada e absolvida. Deixou o País anunciando a intenção de processar o governo brasileiro. Desde a última segunda-feira 26, no entanto, está novamente na mira da lei: a Polícia Federal entregou ao Ministério Público fitas com gravações de telefonemas nos quais a idosa confessaria ter carregado a cocaína em troca de dinheiro.
Mesmo sem estatísticas oficiais, os casos de vovós e vovôs que recorrem à marginalidade acendeu o sinal de alerta na cidade. No Méier, zona norte, a polícia investiga uma série de furtos praticados por uma mulher de cerca de 65 anos. “Ela pega a bolsa da vítima e só fica com o dinheiro. Já tive três clientes roubadas assim. Na rua, a estão chamando de Vovó Metralha”, conta a vendedora de uma loja de lingerie na rua Dias da Cruz, a principal do bairro.

Casos como estes assustam a Federação Nacional dos Aposentados. Após a prisão de Iselinda, a entidade passou a fazer palestras sobre os riscos de envolvimento com o crime. O presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas da Previdência Social, Roberto Pires, testemunhou uma cena exemplar. Num banco na Tijuca, zona norte, um idoso, ao ser abordado por um ladrão, indicou outra vítima. “O idoso disse que já era roubado pelo governo e o bandido respondeu que só assaltava porque precisava sustentar a mãe aposentada. Com pena, o assaltado apontou outra pessoa para ser roubada e ficou dando cobertura para o ladrão”, conta Pires.

Foto:Osvaldo Prado/Ag. O Dia
Abel admite que seria pago para levar 8 kg de cocaína para Roma

A situação dos estrangeiros detidos no aeroporto é diferente. O advogado de Iselinda, Luiz Carlos Andrade, espera o Ministério Público liberar as fitas para saber como defender sua cliente. Depois de sair da cadeia, absolvida pelo juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Federal, ela passou quatro dias num hotel, custodiada pela polícia. “Minha cliente ficou muito nervosa com tudo isso. Quem acusa precisa mostrar as provas”, afirma Andrade. Já Abel Durán confessou o crime e deverá enfrentar agora outra batalha: arrumar dinheiro para pagar um advogado. No Uruguai, ele trabalhava como catador de papel.

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