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‘‘Mataram Lacerda’’
Amante afirma que ex-governador foi assassinado e filha reforça suspeitas de atentado político

Celina Côrtes, Flôrencia Costa e Francisco Alves Filho

Foto: Carlos Magno
Maria Cristina acredita que Lacerda possa ter sido vítima dos militares: “Meu pai era um homem saudável”

O depoimento da jornalista Maria Cecília de Azevedo Sodré, 46 anos, tem tudo para provocar um furacão nas investigações sobre o envolvimento das Forças Armadas nas mortes dos três maiores líderes políticos do País num intervalo de dez meses: os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda. “Mataram Lacerda”, afirma ela. Vinte e três anos após a morte, Maria Cecília falou pela primeira vez sobre o tórrido romance que manteve com o líder da extinta UDN nos dois últimos anos de vida do ex-governador. Numa entrevista exclusiva a ISTOÉ, a amante de Lacerda contesta as versões até agora conhecidas, de que ele andava doente e abatido. Para ela, nada indicava que o líder udenista pudesse morrer a qualquer momento. “Ele vivia o auge de sua glória, como homem, pensador e amante.” Oficialmente, Lacerda morreu em 1977, aos 63 anos, de infecção no coração (endocardite bacteriana) um dia depois de se internar na Clínica São Vicente, no Rio, com desidratação causada por uma gripe. Os indícios de que uma cooperação entre militares da Argentina, Chile, Paraguai e Brasil – a Operação Condor – foi montada em 1975 para combater opositores já levaram a Câmara dos Deputados a abrir investigações sobre as mortes de Jango e JK, ambas em 1976. A suspeita de assassinato de Lacerda ainda não é investigada.

A amante não é a única a discordar da maioria da família Lacerda, conformada com a versão oficial. A também jornalista Cristina Lacerda, 48 anos, filha do ex-governador, desconfia que ele tenha sido vítima da mesma operação que teria eliminado JK e João Goulart. Os três lideravam os maiores partidos extintos pelo golpe de 64 e morreram quando ainda articulavam o retorno às eleições diretas, após a frustrada tentativa de montagem da Frente Ampla, de oposição ao regime militar. Jango seria o candidato do PTB, JK concorreria pelo PSD e Lacerda pela UDN. “Imagino que tenham localizado o hospital e se organizado para se infiltrar lá e matar meu pai. Assim como há suspeitas de que trocaram o remédio de Jango, há a hipótese de que tivessem acompanhado meu pai durante a doença. Ele era um homem saudável”, recorda Cristina.

A amante de Lacerda reforça. “Não existia nada que pudesse fazê-lo entrar no hospital e sair morto. O País inteiro sabia que Carlos continuava atento”, diz Maria Cecília, endossando a tese de assassinato. Quando morreu, Lacerda mantinha o casamento de 40 anos com Letícia, mãe de Cristina, Sebastião e Sérgio. “Minha única intenção é esclarecer os fatos. Meu pai se sacrificou muito pelo Brasil”, desabafa Cristina, que descarta, no entanto, apoiar uma possível exumação do corpo do pai, classificando-a como violência.

Investigação – Um dos aspectos relevantes da fase final da carreira de Lacerda, segundo Cristina, foi a relação afetuosa com seus arquiinimigos Jango e JK, aos quais procurou para costurar a Frente Ampla. Lacerda foi cassado em dezembro de 1968 e esperava recuperar seus direitos políticos em 1978. Os documentos colecionados por Cristina evidenciam que Lacerda se reaproximava da esquerda. Golpista radical em 64, ele fora simpatizante do PCB até os 25 anos. Pouco antes de morrer, segundo Cristina, seu pai passava por uma crise existencial, com altos e baixos, e tomava remédio para emagrecer. Os problemas de saúde de Lacerda levam seu filho mais velho, Sebastião, a acreditar na morte por infecção no coração. Segundo ele, não há indícios que possam confirmar a hipótese de atentado. “Meu pai estava com a saúde debilitada”, diz ele.
Ao contrário da morte de Lacerda, que nunca foi objeto de investigação, o acidente que matou JK foi alvo de dois inquéritos policiais. Na tarde de 22 de agosto de 1976, um domingo, o ex-presidente deixou São Paulo e pegou a via Dutra em direção ao Rio no Opala dirigido por seu motorista particular Geraldo Ribeiro. Por volta de 18h, na altura do antigo quilômetro 165, em Resende (RJ), o carro se desgovernou, cruzou a pista e bateu de frente com uma carreta, que vinha em sentido contrário. Desde então, começaram as controvérsias. JK teria sido vítima de um atentado ou foi apenas um acidente comum, como concluiu a polícia em 1976 e 20 anos depois, quando foi reaberto o inquérito?

Boato – A família nunca acreditou na versão oficial, de que o carro de JK teria sido abalroado por um ônibus da Viação Cometa, e, por isso, teria se desgovernado. Das três mortes, a de JK é a mais misteriosa. Duas semanas antes do acidente, jornais, rádios e tevês haviam recebido a notícia de que o ex-presidente havia morrido, coincidentemente num desastre de carro.” O boato foi na verdade um balão de ensaio lançado pelos militares linha dura que queriam testar a reação do País à morte de JK”, afirmou Serafim Jardim, amigo do ex-presidente e autor do livro Juscelino Kubitschek.: onde está a verdade? Ao saber dos boatos, JK comentou com Serafim: “Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram.”
São inúmeras as falhas da investigação. Um dos fatos mais intrigantes é o de que os peritos não incluíram nos dois laudos feitos sobre o acidente as fotos dos corpos de JK e do motorista “por recomendação de ordem superior”. “Até hoje essas fotos não apareceram”, acrescentou Serafim. O amigo do ex-presidente ressalta ainda que apenas 9 dos 33 passageiros do ônibus foram ouvidos pela polícia e nenhum disse que o motorista Josias Nunes de Oliveira teria batido no carro de JK. O juiz Gilson Vitorino, de Resende, também o inocentou em sentença que consta do processo.

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