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Briga de rua Covas e professores em greve radicalizam num espetáculo onde o bom senso foi atropelado pela bravata e pela estupidez Adriana
Souza Silva e Ines Garçoni
A cena
foi patética. Alguns poucos assessores cobriam a cabeça
do governador Mário Covas (PSDB) com as mãos enquanto
pedras, pedaços de pau, terra, tinta e até cadeiras voavam
em sua direção. Foi quase uma hora de empurra-empurra,
xingamentos, correria. Ao final, Covas exibia como troféu um
galo e um ferimento no canto direito da boca antes de entrar no carro
oficial. O palco da vergonhosa briga foi a praça da República,
no centro de São Paulo, onde cerca de 100 professores da rede
pública estão acampados em frente à Secretaria
de Educação do Estado desde o dia 12 de maio. Na última
quinta-feira, o governador chegou de surpresa no gabinete da secretária
Rose Neubauer para, segundo a versão de sua assessoria, apenas
despachar. Ao tentar entrar no prédio pela porta da frente, interditada
desde o primeiro dia do acampamento, provocou a ira dos professores:
para abrir passagem, seus assessores retiravam as faixas de protestos
e derrubavam as barracas improvisadas. Os mesmos manifestantes que atiraram
cocos na PM durante o conflito do dia 18 na avenida Paulista, desta
vez, armaram-se de limões e laranjas. Na saída do prédio,
15 minutos depois, mais tumulto. O governador encontrou o portão
bloqueado e, sem pestanejar, policiais militares derrubaram a grade
de ferro. Pela segunda vez, Covas teve de enfrentar uma chuva de objetos.
Nada nem ninguém vai me impedir de entrar e sair de uma
Secretaria de Estado pela porta da frente, disse, demonstrando
sua eterna disposição para enfrentamentos desse tipo.
O episódio
ganhou repercussão nacional, a ponto de o ministro da Justiça,
José Gregori, ameaçar utilizar a Polícia Federal
para combater o que ele chamou de excessos neofascistas.
Até a pré-candidata petista à Prefeitura da capital,
Marta Suplicy, condenou a atitude dos professores. O governo Covas
não é capaz de dialogar. Mas sou contrária a qualquer
tipo de agressão física. O secretário de
Comunicação do Estado, Oswaldo Martins, foi mais enfático:
O dia em que o governador for impedido de andar na rua e entrar
em prédio público não será mais governador.
Ao que
tudo indica, Covas tentou criar um fato político. E conseguiu.
Ele dispensou a ação da Tropa de Choque para entrar no
prédio. Mesmo tendo chegado ao acampamento duas horas antes,
a PM não interferiu no conflito e fez com que o governador se
tornasse um alvo fácil. Além disso, o portão principal,
pelo qual a comitiva insistiu tanto em passar, não vinha sendo
utilizado desde que os professores se instalaram na praça. Há
uma entrada pelos fundos por onde passa, inclusive, a secretária
Rose Neubauer. E mais: o tempo gasto com o despacho se limitou a menos
de 15 minutos. Claro que ele preparou tudo isso para se fazer
de vítima. Agora vai usar isso como arma para não negociar,
ataca Paulo César Pinheiro, secretário-geral da Apeoesp,
o sindicato dos professores no Estado. Se quis
chamar os professores para a briga, Covas encontrou um terreno fértil.
Em greve por reajuste salarial de 54,7% desde o dia 2 de maio, os professores
lideram hoje o ranking dos descontentes com o Estado. Uma situação
que serve de combustível para o surgimento de um grupo de radicais,
dispostos a qualquer tipo de excesso, que vai de punks a integrantes
da própria Apeoesp. Para Pinheiro, a atitude do governador na
praça da República colocou em risco a vida de seus próprios
assessores. O secretário-geral admite sim a existência
de uma facção extremista dentro da entidade. Mas prefere
não culpá-la pelo conflito, apesar de o grupo ter sido
o primeiro a agredir o governador. O fato é que a ala radical
é atuante e vem se destacando a cada novo protesto da categoria.
Nessa ocasião, o governador foi mais prudente e não se machucou. Assistiu à manifestação de camarote, num helicóptero. Poupou a fúria de seu sangue espanhol para o dia seguinte. |
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