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Cores e ritos

Mestre Didi, que por motivos religiosos não fala sobre sua obra, abre mostra em São Paulo


Ivan Claudio

Foto: Hélcio Nagamine
Filho de mãe-de-santo, o artista é um Alapini, o mais alto sacerdote do culto nagô

Existem artistas que não falam com a imprensa por reclusão, capricho, sabedoria ou mero espírito marketeiro. O baiano Mestre Didi, 82 anos, um dos maiores representantes da arte afro-brasileira, age diferente. Não dá entrevistas sobre seu trabalho por razões estritamente religiosas. Tendo recebido, em 1975, o título de Alapini, o mais alto grau da hierarquia sacerdotal da representação religiosa nagô, Deoscóredes Maximiliano dos Santos – seu nome verdadeiro – prestou um juramento privando-se de falar em público fora do Ilê Asipá, sociedade de culto aos ancestrais que ele fundou e preside em Salvador. A palavra de Mestre Didi é considerada sacrossanta, suas obras um encantamento. Para um não-iniciado, suas esculturas coloridíssimas – um emaranhado de linhas, curvas, círculos, triângulos e setas, moldados a partir de materiais usados nos rituais nagô – desenham formas finas, a maioria na vertical, como se apontassem para o céu. Soprados pelo silêncio do artista-sacerdote, no entanto, objetos batizados na língua iorubá como Éwe toto keji (folha reverenciada), Esin mesan awo (as nove lanças do mistério) e Sasara nlá (o grande Xaxará) ganham conceitos abstratos, incompreensíveis ao mundo exterior daquela religião, mas de resultados extremamente belos. É este sentimento raro que perpassa as 25 obras exibidas na Galeria São Paulo, em sua primeira individual paulistana em 36 anos. A bela exposição completa a participação do baiano na Mostra do redescobrimento, no Parque do Ibirapuera, na qual é um dos grandes destaques dos segmentos Arte afro-brasileira e Negro de corpo e alma. Juntas, as mostras reúnem o maior conjunto de trabalhos do artista desde a 23ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1996, quando ganhou uma sala especial.

Como sempre acontece em seus vernissages, Mestre Didi se faz acompanhar da mulher e porta-voz, a antropóloga argentina Juana Elbein dos Santos, com quem está casado há 30 anos. É Juanita, como gosta de ser chamada, que fala do trabalho do marido, função adquirida depois de passar por várias obrigações religiosas, recebendo o título de Abeké. Ao contrário do que se espera, uma das grandes preocupações da antropóloga tem sido desfazer a visão comum de que as esculturas de Mestre Didi são objetos-rituais. “É absolutamente errado vê-las como obras religiosas. Elas são criações de um artista que pensa e imagina segundo os padrões da sua cultura.”

Feitos de materiais naturais como nervuras e palmas de palmeira, palha da costa, contas vegetais, búzios e couro, os trabalhos são recriações de emblemas do culto nagô, que guardam simbologias complexas. Os búzios, por exemplo, sempre trazidos da África – o que contribui para encarecer as peças, com preços que variam de R$ 3.600 a R$ 20 mil – podem representar a fecundidade, a riqueza ou os mortos. As nervuras, colhidas dos brotos de palmeira e submetidas a um longo processo de limpeza e secagem, estão ligadas ao símbolo da árvore como emanação, a partir da terra, do poder dos ancestrais. Também as cores, presentes nos braceletes de couro que marcam os pontos de tensão das peças, guardam seus segredos. O branco (iwá) é o poder que permite a existência, o vermelho (axé) é o que a dinamiza, e o preto (abá) é o que lhe dá finalidade. Desconhecer estes detalhes, contudo, não impede que o visitante se maravilhe com as peças, majestosas em sua simplicidade a exemplo de Opá ossanyin nlá (grande cetro da natureza). “Não é preciso saber do mito do renascimento para se apreciar as cobras que Mestre Didi faz, porque ele cria uma verdadeira suíte de cobras”, afirma Juanita.

Filho único da mãe-de-santo Maria Bibiana do Espírito Santo, Mestre Didi é o mais antigo descendente no Brasil do poderoso reino africano do Ketu, hoje ocupado pela Nigéria e pelo Benin. Em 1983, recebeu o título máximo de Obá Mobá Oni Xangô, do Rei do Ketu, em Benin. Também é autor de uma série de livros, entre eles um dicionário português-iorubá. Aos oito anos foi iniciado no culto aos ancestrais, dedicando toda sua vida a preservar a tradição dos orixá (assim mesmo, sem “s”), força associada aos elementos da natureza. Desde esta época cria esculturas tão belas e originais quanto os ritos que as inspiraram.

© Copyright 1996/2000 Editora Três

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