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ENTREVISTA

A PM no limite - continuação
Comandante da PM de São Paulo admite que não há solução a curto prazo para a violência e culpa a legislação

Florência Costa e Gabriela Carelli

ISTOÉ – Mas, hoje, é polícia para tudo.
Melo – Em São Paulo, temos a polícia enfrentando problema de fugas e rebeliões. A atuação na Febem tem sido extremamente desgastante para nós, mas o nosso batalhão de choque está agindo com êxito. Apesar disso, temos deficiências de material de proteção individual. Isso gera um certo temor por parte do profissional que pode fazer com que ele se antecipe, partindo para o confronto.

ISTOÉ – No massacre de Eldorado do Carajás, os policiais não estavam preparados para situação de confronto e 19 sem-terra morreram.
Melo
– Um dos únicos Estados que mantêm uma polícia realmente preparada para essa situação, com número adequado de policiais e um equipamento razoável, é São Paulo. As outras polícias têm dificuldade. Elas formam aquela tropa para enfrentar essas situações de uma forma improvisada, sem ter material adequado.

ISTOÉ – As pessoas têm medo da PM.
Melo
– Esse temor da polícia tem um pouco de educacional também. Quando você tem uma atuação dura ou truculenta da polícia ou um desvio de missão no cumprimento da ação, há um reforço do que considero um preconceito.

ISTOÉ – O sr. acha que os PMs devem continuar tendo o direito de serem julgados por uma Justiça própria, a Justiça Militar?
Melo
– Da forma como está é ideal. Todo o crime praticado na atividade de polícia hoje é julgado na Justiça Comum. Os massacres de Eldorado do Carajás e Carandiru estão na Justiça comum. São atuações policiais que não deram certo. A Justiça Militar funciona melhor, é mais ligeira. Quando o policial comete crime de corrupção, em seis meses o camarada está na rua. No ano passado foram exonerados 727 PMs. Nenhuma instituição no Brasil puniu tanto quanto a nossa. Cadê o juiz Nicolau? O nosso amigo Collor, cadê ele? A mulher dele que foi condenada, está onde? E os vereadores de São Paulo? Mas os PMs que pisaram na bola, estão todos presos, expulsos, demitidos.

ISTOÉ – Mas e a banda podre?
Melo
– Quantos PMs foram acusados da banda podre em São Paulo? Um e mesmo assim não ficou comprovado. A disciplina e a hierarquia da PM protege a instituição desse tipo de coisa. Hoje nós temos vários casos de soldados que prendem advogados de porta de cadeia, que tentam comprar o policial.

ISTOÉ – Quais são os crimes mais comuns entre os PMs?
Melo
– Corrupção, furto e roubo. A polícia é uma instituição de 82 mil homens e mulheres que retrata muito do que é a nossa sociedade. O PM não está isento de ter desvios.

ISTOÉ – Têm aumentado os casos de morte em combate?
Melo
– Têm aumentado cerca de 30% a cada ano. Isso nos mostra o que é a violência em São Paulo.

ISTOÉ – A que se deve o crescimento de chacinas em São Paulo?
Melo
– A chacina está ligada a dois tipos de coisa: o alcoolismo e o tráfico de entorpecentes. Acho que tem muito a ver com as sucessivas fugas no sistema penal. Quando a pessoa escapa tende a voltar e buscar o suspeito de tê-la delatado.

ISTOÉ – O sr. comanda 82 mil policiais. É suficiente?
Melo
– A polícia ostensiva deveria trabalhar com 120 mil policiais, até porque as nossas missões são muito amplas. Hoje tenho sete mil PMs guardando cadeias e fazendo escolta de presos. É uma perda terrível para o policiamento temos 8% do nosso efetivo no setor administrativo. Para fazer a prevenção do crime, dispomos de 60 mil. É muito pouco.

ISTOÉ – A polícia comunitária surgiu para mudar a imagem negativa da PM?
Melo
– Nasceu logo após o episódio da favela Naval. Passamos a fazer com que os mesmos policiais se fixem nas áreas, para que eles sejam conhecidos e eles passem a conhecer as pessoas. Isso no Estado inteiro. A filosofia do programa é o policial identificado com os problemas locais, identificado pelas pessoas, e conhecedor das pessoas de uma determinada área. No centro do Jardim Ângela e no Jardim Ranieri, onde instalamos bases comunitárias, a criminalidade caiu 50%, segundo levantamento do Núcleo de Estudos de Violência da USP. Há 260 bases em todo o Estado, sendo 60 na capital. Esse é um processo que envolve mudança de cultura do policial, que demora de 10 a 15 anos. A cabeça do policial tem de ser mudada. Ele tem de se sentir comunitário.

ISTOÉ – A polícia está trabalhando no limite, o policiamento comunitário demora para dar resultados. O que a população faz?
Melo
– A gente tem formulado uma série de conselhos para a população e temos sido muito criticados. A opinião geral é de que a polícia tem de dar segurança e não ficar chamando a atenção. Mas quando a gente faz isso, queremos mostrar que a segurança é dever do Estado e também responsabilidade de todos os cidadãos. Quando a gente aconselha para não sair ostentando muita riqueza, fechar o vidro do carro, verificar na sua casa se as portas estão fechadas, a gente está pedindo à população uma ajuda. Não somos onipresentes. Cada um tem de fazer a sua parte. A gente aconselha as pessoas a não se armarem.

ISTOÉ – O sr. apontou vários problemas na segurança. Mas e quanto aos problemas da PM? Afirmam que ela é truculenta.
Melo
– A truculência da PM em São Paulo tem sido combatida. A polícia deve passar uma imagem de confiança, de uma instituição que está voltada para o público. Mudamos a formação do PM radicalmente. Matérias de direitos humanos, técnicas não letais de intervenção, policiamento comunitário, a exigência do segundo grau para ingresso na carreira. Hoje temos dez mil policiais voltados para o policiamento comunitário. Nossa intenção é ter 80 mil.

ISTOÉ – Esses esforços para diminuir a truculência surgiram quando?
Melo
– A favela Naval foi um marco divisório e custou muito para a imagem da instituição. De certa forma isso abalou a auto-estima do policial. Se por um lado foi negativo, também foi estimulante para buscar outro procedimento. Nós aprendemos muito com esse desvio. Hoje eu acho que somos uma polícia bem mais evoluída e tratável do que éramos até então.

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