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A
PM no limite
Comandante
da PM de São Paulo admite que não há solução a curto prazo para a violência
e culpa a legislação
Florência
Costa e Gabriela Carelli
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Foto:
Hélcio Nagamine
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| Coronel
Melo: “No ano assado foram exonerados 727 policiais” |
As críticas
são inesgotáveis. A violência cresce assustadoramente.
A população tem medo da polícia que bate, mas ao
mesmo tempo reclama da falta de policiais nas ruas. Como não
bastasse, estão-se tornando frequentes os casos de policiais
envolvidos com o narcotráfico. E, em meio a essa crise da segurança
pública que todo o País enfrenta, o comandante-geral da
Polícia Militar de São Paulo, coronel Rui César
Melo, resume o drama: A polícia está no limite de
sua atuação. Já fizemos de tudo, mas a criminalidade
continua crescendo. Há um mês presidente do Conselho
Nacional dos Comandantes-Gerais, o coronel de 49 anos diz que o combate
ao crime depende da mudança na legislação penal
e do sistema penitenciário. Nós prendemos, mas,
por causa da lei e da falta de presídios, o bandido volta para
a rua. Apesar do aparente pessimismo, Melo mostra um outro lado,
surpreendente para quem passou 21 dos 32 anos de profissão justamente
nos batalhões de choque que protagonizaram confrontos violentos
em vários pontos do País. Em São Paulo, a
polícia teve de cumprir a lei e tirar pessoas das casas nas quais
moravam. Você acha que os soldados gostam de fazer isso? Eles
também são humildes e moram, muitas vezes, em condições
iguais. Lamentamos por nossa imagem e pela sociedade.
ISTOÉ Quais os principais problemas das polícias
militares?
Coronel Rui César Melo O principal problema é
a legislação defasada. Temos um código penal da
década de 40, outro código de processo penal idem, e uma
Lei de Execuções Penais perversa com relação
ao combate ao crime. A pena ainda é formulada para quem rouba
galinha. Um exemplo. A pena mínima no Brasil é de 5 anos
e 4 meses. Pela lei penal, a pessoa tem direito a regime semi-aberto,
depois de cumprir um terço da pena, se tiver bom comportamento.
Mas isso é um excelente álibi. O preso dorme na cadeia
e, de dia, pratica seus crimes.
ISTOÉ
E o que o sr. sugere?
Melo Um sistema penitenciário no âmbito federal.
Hoje, o Brasil tem 100 presos por 100 mil habitantes. Nos EUA, há
700 por 100 mil. Mas o que se passa no Brasil se passa nos EUA. Lá,
porém, o combate é mais forte. Não é à
toa que a criminalidade nos EUA cai em todos os Estados. A tolerância
zero americana, que tanto se fala, tem muito mais relação
com o sistema penal deles do que com a polícia. Aqui, se você
for preso portando uma arma sem licença, você pode pegar
dois anos de prisão, mas tem direito a pagar R$ 50 de fiança
e responder em liberdade. Nos EUA, são 6 anos de cadeia. Os legisladores
criam essas facilidades porque sabem que o sistema não funciona,
não tem vagas e não consegue reeducar o preso.
ISTOÉ O sr. quer dizer que a atuação
da polícia fica fragilizada porque os criminosos não são
punidos?
Melo A falta de punição prejudica a polícia
e a Justiça. Nossa Justiça é extremamente ritualista,
protelatória. De tão lenta, ela quase se transforma numa
Injustiça. A lei atual instrumentaliza o mal.
ISTOÉ
Como o sr. avalia as críticas feitas à PM?
Melo A PM deveria fazer a prevenção. Se você
prende e a pessoa fica presa, é um excelente mecanismo de prevenção.
ISTOÉ
Segundo as pesquisas, a segurança pública é
um dos principais problemas...
Melo Ela com certeza é o problema número 1
do País. A gente se sente inseguro porque sai à rua e
tem medo de ser atingido por uma bala perdida, de ser roubado, de ser
violentado de várias maneiras. A gente procura a polícia,
mas ela se torna pouca pelas próprias circunstâncias. Por
exemplo, a minha polícia, preventiva e ostensiva, muitas vezes
está na delegacia acompanhando as ocorrências. Já
se tem pouca polícia e acaba ficando a imagem de que se tem menos
ainda. Muitas vezes, a polícia acaba fazendo o papel da prefeitura
nas questões sociais. Um quarto das ocorrências da PM é
de natureza social.
ISTOÉ
Essa criminalidade, então, tem solução a
curto prazo?
Melo A curto prazo não.
ISTOÉ
O que a polícia pode fazer?
Melo A polícia está no limite, no limite de
sua atuação. Nós prendemos, em 1999, cerca de 90
mil pessoas, das quais 30 mil menores. Nós apreendemos 26 mil
armas de fogo, de todos os calibres, granadas de mão, fuzis e
metralhadoras. Isso, em qualquer país do mundo, seria suficiente
para fazer a criminalidade cair. Mas mesmo com aumento nas apreensões,
os índices não têm cedido.
ISTOÉ
A PM também tem culpa?
Melo Hoje está patente que a questão da segurança
não depende exclusivamente da atuação policial.
Se aumentarmos o número de policiais em atividade, teremos um
pequeno aumento em termos de produtividade, mas não haverá
diminuição da criminalidade. Até porque a pessoa
vai presa e não permanece presa. Dos 90 mil que prendemos no
ano passado, o máximo que ficou detido no sistema prisional foram
15 mil. Vale lembrar que 75% dos crimes são roubos, estupros,
homicídios, latrocínio e tráfico de drogas. São
crimes cometidos por pessoas que deveriam ficar presas.
ISTOÉ
Como o sr. avalia os confrontos ocorridos recentemente na avenida
Paulista e em Guaianases (SP)? Houve abuso da polícia?
Melo Os confrontos não foram violentos, mas enérgicos.
Lamentamos muito o ocorrido, a imagem da polícia acabou prejudicada.
Nos dois casos, só cumprimos a lei. Fatos como esses, com feridos,
acontecem também no Primeiro Mundo. Lamentamos porque a questão
é social, principalmente em Guaianases. Pessoas perderam suas
casas. E você acha que os soldados gostam de fazer isso? Eles
também são humildes e moram, muitas vezes, em condições
iguais. Sou favorável a todas as manifestações
democráticas. Mas nosso papel é fazer cumprir as leis.
Se elas estiverem erradas, que sejam mudadas.
ISTOÉ
E ações da polícia em Porto Seguro, contra
os índios, e no Paraná, contra os sem-terra, onde houve
uma morte?
Melo Não há dúvida nenhuma de que essas
ações desgastam a instituição. No entanto,
é necessário entender que essa atuação de
polícia ocorre tanto no Brasil quanto em qualquer parte do mundo.
O que não se deseja é que haja morte. E procura-se evitar
de todas as formas a atuação das Forças Armadas.
Quando isso ocorreu, na desocupação da CSN, em Volta Redonda,
em 1988, houve três mortes desnecessárias.
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