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Infância perdida Estatuto da Criança e do Adolescente completa dez anos em meio a crises como a da Febem e à discussão sobre maioridade penal aos 14 anos Criado para dar proteção integral à criança e ao adolescente, o estatuto está esbarrando em vários problemas, como rebeliões da Febem, número de menores nas ruas, dependentes de crack e aumento da criminalidade. Hoje, tramitam no Congresso Nacional 43 projetos de lei e de emenda constitucional pedindo a diminuição da maioridade penal. O Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, fundado há quinze anos, é uma das organizações que participam desta campanha. João de Deus Nascimento, coordenador estadual em São Paulo, fala sobre os resultados práticos do estatuto nesta entrevista à ISTOÉ Online: ISTOÉ
Online - Há pessoas que defendem a diminuição da maioridade
penal para os 14 anos, afirmam que o estatuto protege os menores infratores. ISTOÉ Online - Mas como você mesmo disse, há uma falha na educação, na municipalização, há muitos menores violentos... João de Deus - Muitos nem conhecem o estatuto, a polícia continua matando meninos mesmo conhecendo a lei. O povo que está defendendo a pena de morte diz isso porque é muito mais fácil ir pelo elo da responsabilização do que pelo elo da pedagogia, pelo elo de dizer que é possível a gente capacitar as pessoas para entender uma outra filosofia de vida, que não a violência. O estatuto é a lei mais rigorosa, mais drástica que existe no Brasil. Um adulto que comete um crime só vai ser preso depois de condenado e julgado. Os meninos que cometem um crime são presos em flagrante e ficam até seis meses sem ter um relatório técnico, já começam a cumprir a pena a partir da prisão. O governo os está espancando na cara- dura. Todo mundo tem medo da polícia.O estatuto apenas detalha um artigo da Constituição. Ela diz que você não pode ser abordado, pedir identificação porque você é suspeito. ISTOÉ Online - Qual o melhor modelo de tratamento para o menor que está nas ruas? João de Deus - Não se fala mais menor, fala-se criança e adolescente. Menor é um termo pejorativo, do ponto de vista da lei. Dos 12 anos para baixo é criança, dos 12 para cima é adolescente, até os 18 anos. Defendemos a paternidade responsável do Estado, não afastando o menor infrator de sua família de origem. Defendemos que a criança, por exemplo, que cometeu um crime em Ribeirão Preto, cumpra a pena lá, próxima à família, ela não tem de vir cumprir a pena em São Paulo. A pena seria em uma escola que o capacitasse para o mercado de trabalho, não o deixasse atrasado no currículo escolar e o levasse a perceber a besteira que fez. Seria um internato, é uma medida sócio-educativa com privação de liberdade. Tem de ser próximo da família para que ela possa visitá-lo. Na prevenção, pedimos a mesma medida em meio aberto. Desde o programa cultural na comunidade, creche, centro cultural e escola com espaço para brincar. A criança precisa ter o direito de ser criança. Na Febem, cerca de 46% dos internos são da Grande são Paulo, que engloba 39 municípios e o resto, 54%, é do resto do Estado. ISTOÉ Online - Qual a importância do Estatuto da Criança e do Adolescente, a criança hoje em dia é mais respeitada? João de Deus - O ECA mudou a Brasil culturalmente, a criança já é vista como cidadã criança e cidadã adolescente. Os direitos não estão sendo respeitados na totalidade porque isso é um problema cultural, não é só o estatuto que resolve. |
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