Planos
de saúde
Uma rebelião de branco
Médicos começam a tornar públicas as pressões que sofrem das empresas
do setor
Cilene
Pereira
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Foto:
Alan Rodrigues
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| “Muitos
planos e seguros embutiram um lucro considerÁvel. Para aumentar
essa margem, começa ram a limitar os gastos” |
Queixas
contra planos de saúde vindas de pacientes são comuns.
Agora, chegou a vez de os médicos reclamarem. Preços baixos
pagos por consulta e pressão para que o profissional deixe de
fazer exames são alguns dos problemas que a classe vem enfrentando
na sua relação com as empresas de medicina de grupo. Disposta
a virar o jogo em favor dos profissionais e dos doentes, a Associação
Paulista de Medicina decidiu botar a boca no trombone. A idéia
é de que, quanto mais informação, mais fácil
para a população escolher o plano que mais respeita o
médico, e também o paciente. Para falar desse relacionamento,
ISTOÉ ouviu o anestesiologista José Luiz Gomes do Amaral,
50 anos, presidente da APM.
ISTOÉ
Quais os problemas que os médicos estão enfrentando?
José Luiz Gomes do Amaral Muitos planos e seguros
transformaram-se em grandes negócios e embutiram um lucro considerável.
E para aumentar essa margem começaram a limitar os gastos. Primeiro,
diminuindo a amplitude da cobertura. As restrições à
cobertura tornaram-se tão importantes que exigiram uma regulamentação.
Mas isso impediu que a margem de lucro avançasse. Os planos procuraram
outra maneira de continuar ganhando: fazer com que o médico gaste
menos e custe menos.
ISTOÉ De que forma?
Amaral A maioria dos planos paga menos de R$ 20 por
consulta. Mas vários, que praticavam valores diferenciados de
consulta, de acordo com o plano do segurado, resolveram pagar exatamente
a mesma coisa. No ano passado, fomos surpreendidos pela Marítima
Saúde, que padronizou os preços. Independentemente da
qualidade do profissional e do plano do segurado, o valor da consulta,
que antes variava de R$ 20 a R$ 40, passaria a custar só R$ 24.
ISTOÉ Que outras medidas os planos estão
tomando?
Amaral Eles simplesmente resolvem não pagar
determinados procedimentos. O médico faz uma consulta na qual
está incluído um eletrocardiograma. E na hora de cobrar,
eles dizem que o exame não será pago e você tem
de explicar por que fez o exame. Isso ficará em discussão
mais uns seis meses e depois eles me descredenciam. E o crédito
posso receber se os acionar na Justiça.
ISTOÉ
Discute-se com quem as questões técnicas?
Amaral Os planos têm auditores, que são
médicos. Muitos recebem ordens para cortar despesas. Se existe
médico que está gastando mais do que acham que deveria,
eles o descredenciam. Como você sabe que corre o risco de ser
descredenciado, fica sob a pressão de: será que peço
esse exame?
ISTOÉ Mas há casos em que o médico
deixa de fazer exame?
Amaral Isso já é mais difícil
saber porque ninguém vai dizer que cedeu à pressão.
E agora está surgindo outro tipo de pressão, ainda mais
perversa. Você é estimulado a se organizar numa estrutura
jurídica. Faço um contrato para dar assistência
a cinco mil segurados. E receberei de acordo com o número de
pessoas que atenderei. Viverei dois, três meses com os horários
do meu consultório tomados. No entanto, todas as despesas correm
por minha conta. Se um doente tiver de ser internado, deduz do quanto
receberei. Você fica numa posição de que quanto
menos exame tiver, menos intervenção, melhor. Se for pedir
muita coisa, fica no prejuízo.
ISTOÉ
Limita-se a internação?
Amaral Como a lei limita isso, a pressão se
faz agora de maneira velada. Vai o auditor do plano e diz que o cliente
tem que ter alta. E o plano liga para o dono do hospital e diz que o
doente precisa ter alta. E o dono do hospital diz para o médico
que ele precisa dar alta senão serão descredenciados.
ISTOÉ
Há mais artimanhas?
Amaral Chegamos a um ponto de um plano de saúde
dizer que, se você internar uma paciente para um parto numa maternidade
de segunda linha, você receberá mais. O plano começou
a oferecer vantagem para o médico para pagar menos o hospital.
ISTOÉ E os médicos aceitaram?
Amaral Houve quem aceitasse. Não é ilícito,
mas é perverso, com o médico e com o paciente.
ISTOÉ O paciente está sendo muito prejudicado
pelas limitações?
Amaral Muito, com certeza.
ISTOÉ
Mas não há um problema ético do médico
em aceitar isso?
Amaral Como você vai saber até que ponto
ele está cedendo ou não? Mas acho pouco provável
que os planos de saúde consigam progredir se não houver
alguém que ceda a essa pressão.
ISTOÉ
Como fica esse médico eticamente?
Amaral Fragilizado.
ISTOÉ Por que os médicos chegaram nessa
posição de subserviência?
Amaral Há um número excessivo de médicos,
sobretudo daqueles que não têm acesso a qualificação
completa. Ele se submete ao que o mercado oferece. E o segundo fator
é o isolamento do médico. Durante anos ele viveu a idéia
de que era dono de sua vida. Agora ele entende que tem de se adaptar
a uma realidade de concorrência.
ISTOÉ O que a associação fará?
Amaral Contar o que estamos vivendo. Contar que o
plano da Samcil paga R$ 10,50 a consulta, que a Marítima fez
o que fez. E a população escolherá o melhor plano.
Não são todos que fazem isso.
ISTOÉ Como escolher o plano?
Amaral Optar por um que permita escolher o médico
e onde fazer o exame. E ver quanto ele paga por consulta. Sugiro também
que a pessoa pegue o caderno de médicos credenciados com o corretor,
escolha algumas especialidades e telefone para dez médicos. Se
eles continuam credenciados, ótimo. Se nove não estão
mais conveniados, o plano é muito ruim porque troca os médicos
a todo momento.
ISTOÉ
Qual plano o sr. não faria jamais?
Amaral O Unicor. Ele não paga vários
médicos há mais de seis meses. E o da Samcil, que paga
R$ 10,50 a consulta.
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