Denúncia
Roraima em pé de guerra
Padre
italiano é acusado de ensinar tática de guerrilha a índios
de Roraima e ficar com ouro e diamante extraídos nas reservas
Mino Pedrosa e Ricardo Stuckert - (Aldeia Boa Vista RR)
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Foto:
Ricardo Stuckert
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O padre Giorgio é acusado de comandar invasões
de fazenda. Segundo o deputado Antônio Feijão, relator
da CPI da Funai, o religioso explora os índios
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No
extremo norte do País, próximo à fronteira
com a Guiana, há uma área rica em minérios,
ouro e diamante, onde índios macuxis estão em
pé de guerra contra os fazendeiros da região.
Sob o comando do cacique Jacir e do padre italiano Giorgio
Dall Ben, que vive no Brasil desde a década de 60,
os índios têm invadido propriedades rurais. Durante
anos, padre Giorgio formou dupla com outro cacique macuxi,
Terêncio Luiz da Silva, da aldeia Ubaru, que dava as
cartas no nordeste de Roraima. Bem afinados, os dois chegaram
a ser recebidos juntos pelo papa João Paulo II. Mas
há dois anos eles romperam. Enquanto o padre, com o
apoio da Igreja Católica e da Fundação
Nacional do Índio (Funai), insiste na defesa de uma
demarcação contínua das reservas indígenas
de Raposa e Serra do Sol, seu ex-aliado prega a criação
de ilhas de preservação, proposta enfaticamente
apoiada por fazendeiros, garimpeiros e pelo governo de Roraima.
A dissolução dessa parceria acabou resultando
em denúncias de utilização dos indígenas
como massa de manobra numa guerra de interesses envolvendo
o desvio de minério brasileiro pela Igreja Católica
e o ensino de táticas de guerrilha aos índios.
Em entrevista a ISTOÉ, o cacique Terêncio Luiz
acusa padre Giorgio de ser o pivô dessa estratégia
agressiva da Igreja. Ele anda armado e usa os índios
na exploração de ouro e no garimpo de diamante.
Antes isso era feito com máquinas, e hoje o trabalho
é todo manual, feito pelos índios, conta
Terêncio. O cacique afirma que o padre troca mantimentos
e roupas com os índios por diamantes e ouro. Enquanto
estivemos juntos, sempre vi o padre pegando ouro e diamantes.
Não sei o que ele fazia com aquilo, para onde mandava.
Só sei que ficava com ele.
Disfarçado de mulher Padre Giorgio tornou-se
uma figura lendária em Roraima. Transformou a aldeia
Maturuca em um verdadeiro bunker, onde só permite o
acesso da Funai, de missionários e de representantes
de Organizações Não-Governamentais, especialmente
as estrangeiras. Protegido pelos índios que o seguem,
há anos não é mais visto pelos fazendeiros
da região, que o teriam jurado de morte. Há
cerca de um ano, em uma de suas últimas aparições,
foi reconhecido saindo rapidamente de um posto de gasolina
na capital do Estado, Boa Vista, pelo vereador Jordão
Mota Bezerra, do município de Uiramutã. No Interior,
contam que Giorgio chega a disfarçar-se de mulher quando
precisa passar por alguma das cidades da área de conflito.
Nas vezes em que se sente ameaçado em território
brasileiro, atravessa a fronteira e se esconde na Guiana.
O fazendeiro Wilson Alves Bezerra endossa as denúncias
do cacique contra padre Giorgio: Além de ensinar
táticas de guerrilha, ele faz com que os índios
garimpem ouro e diamante, que, depois, são enviados
para a Itália. Wilson, que tocava as dez maiores
fazendas do Estado, das quais três eram de sua propriedade,
foi anfitrião de Giorgio durante seis meses, em 1975.
Depois, viu seu hóspede, com o apoio da Igreja, de
ONGs e até da Funai, comandar os índios nas
invasões contra nove das fazendas que administrava.
Na última propriedade que lhe restou, Wilson continua
extraindo diamantes e conta, para se defender de invasões,
com a ajuda de outros índios que não seguem
a cartilha do padre. Se eu perder essa última
fazenda e topar com o padre, eu acabo com ele, ameaça
Wilson.
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Foto:
Ricardo Stuckert
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“Se eu perder minha última fazenda e topar com o padre
Giorgio, acabo com ele”
Wilson Alves Bezerra, fazendeiro que acusa o padre
de ter comandado a invasão de suas terras
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ISTOÉ
tentou encontrar o misterioso padre Giorgio Dall Ben, mas
não conseguiu localizá-lo. No sábado
15, a reportagem da revista foi procurá-lo na aldeia
Maturuca, mas foi barrada pelos índios, que exigiram
uma autorização da Funai para o desembarque.
Antes de ir para a aldeia, os repórteres de ISTOÉ
foram à casa que serve de sede da Funai em Boa Vista,
mas não encontraram sequer um funcionário para
dar a autorização. Dez dias antes, a casa havia
sido invadida por índios contrários à
posição da Funai e da Igreja Católica
na demarcação das terras indígenas. Nessa
guerra pela demarcação que divide brancos e
índios, o padre Giorgio está no olho do furacão.
Com sua defesa de uma ampla e contínua reserva que
englobe as principais e cobiçadíssimas jazidas
minerais do Estado, conseguiu arregimentar um verdadeiro exército
de índios estimado pelos adversários em dois
mil soldados. Na esteira das operações militares
que expulsaram os garimpeiros da região, essa tropa
invadiu fazendas e aumentou na marra o tamanho da área
controlada pelos índios.
O projeto original do governo federal previa a demarcação
contínua com o argumento de que os índios são
nômades. Com essa postura, agrada aos organismos internacionais,
às Organizações Não-Governamentais
e à Igreja Católica, que lutam pela preservação
do hábitat natural dos índios. Em Roraima, porém,
a resistência à execução desse
projeto é muito grande. Hoje, as reservas indígenas
tomam cerca de 43,12% do Estado, a maior parte na região
noroeste, fronteira com a Venezuela e divisa com o Estado
do Amazonas. Se a demarcação da área
a nordeste for contínua, os índios tomarão
mais 18% de Roraima.
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