Cone
Sul
O condor passa
STF
dá luz verde para a Argentina investigar desaparecidos no
Brasil na Operação Condor
Eduardo Hollanda e Hélio Contreiras
A
Operação Condor, sinistro plano de repressão
política multinacional que foi posto em prática
pelas ditaduras militares da América Latina nas décadas
de 70 e 80, vai ser investigada também no Brasil. O
sinal verde foi dado pelo ministro Carlos Velloso, presidente
do Supremo Tribunal Federal (STF), e surpreendeu até
o juiz argentino Claudio Bonadio, que investiga os crimes
da Operação Condor em seu país. Foi
uma boa surpresa. As vítimas estão mortas, mas
agora poderemos saber o que aconteceu, afirmou. A operação,
um produto da mente do ex-ditador do Chile Augusto Pinochet
e que teve como sócios Brasil, Argentina,
Paraguai, Uruguai e Bolívia, permitiu que agentes da
repressão de cada um desses países atuassem
em conjunto como parceiros, especialmente na perseguição
a dissidentes políticos e exilados. A decisão
de Velloso, respaldada por parecer do subprocurador-geral
da República, Cláudio Fontelles, endossado pelo
procurador-geral Geraldo Brindeiro, refere-se a uma carta
rogatória encaminhada à Justiça brasileira
por Bonadio. Na carta, é pedido aos órgãos
de segurança brasileiros informações
sobre a Operação Condor no Brasil e sobre o
destino de três desaparecidos políticos argentinos,
que foram presos no Brasil por policiais argentinos em 1980.
Mas
o caso dos argentinos Horacio Campiglia, Monica Pinus de Binstock
e Lorenzo de Ismael Viñas, que integram a longa lista
de desaparecidos do regime militar argentino e sumiram no
Brasil, não é o único que poderá
começar a ser desvendado com a decisão do STF
de permitir as investigações. Estou mais
do que convencido de que a morte de João Goulart em
1976 no exílio na Argentina pode ter sido um assassinato,
dispara o ex-governador do Rio, Leonel Brizola, cunhado de
Jango, que passou parte de seu longo exílio no Uruguai.
Um dos pontos que Brizola destaca é que nunca foi feita
a autópsia de Jango, o que considera estranho. Tratava-se
de um ex-presidente exilado. Como o governo argentino enviou
seu corpo ao Brasil sem ter tomado essa providência
básica?, indaga.
Segundo
o brigadeiro Márcio Calafange, que foi adido militar
em Santiago na ditadura de Pinochet, a cooperação
através da Operação Condor envolvia até
informações sobre economistas brasileiros da
Comissão Econômica para a América Latina
(Cepal) que eram investigados pela Dina (polícia secreta
chilena). Na lista de brasileiros que a Dina deveria acompanhar
estavam Fernando Henrique Cardoso, classificado como agitador
com elevado poder de persuasão, Florestan Fernandes,
Caio Prado Jr. e outros intelectuais e políticos. Mas
àquela altura, FHC, que viveu no Chile nos anos 60,
já se exilara em Paris.
O
brigadeiro Márcio Calafange afirma que o Brasil ajudava
o Chile na busca de subversivos, no intercâmbio de informações
entre os regimes militares. Havia vôos específicos
para ajudar o Chile, onde a Dina agia como um poder paralelo.
O general Dilermando Gomes Monteiro, também já
falecido, disse em depoimento que uma vez o Serviço
Nacional de Informações (SNI) vetou a condecoração
de um empresário paulista com base em informações
dadas por agentes argentinos sobre as atividades esquerdistas
do empresário na sua juventude.
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