"Temos
histórias diferentes"
Defensora
da democracia direta, Luiza Erundina quer eleger subprefeitos
e diz que a petista Marta Suplicy tem dificuldade para entender
o povão
Mário
Simas Filho
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Foto:
Ricardo Giraldez
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CRÍTICA:
Erundina admite dar-se bem com Covas, mas diz que o
governador deveria falar mais alto por São Paulo
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Como
gato escaldado tem medo de água fria, a deputada Luiza
Erundina (PSB-SP) não se deixa seduzir pelos números
das pesquisas que indicam o crescimento geométrico
de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo.
Ela sabe que até agora tem sido uma das principais
favorecidas pelos escândalos que rondam as gestões
do atual prefeito, Celso Pitta, e de seu criador, Paulo Maluf.
Mas, com a experiência de quem já foi eleita
prefeita da maior cidade do País e já foi derrotada
na disputa por uma vaga ao Senado, Erundina adverte: Enganam-se
aqueles que pensam que o malufismo morreu. A ex-petista
não se tem furtado a admitir com absoluta tranquilidade
alguns erros cometidos em sua gestão na prefeitura
(1989 a 1992) e reconhece as dificuldades de disputar uma
eleição por um partido ainda em formação
e com pouca militância. Para conquistar o eleitorado,
ela aposta na experiência adquirida e em projetos concretos,
como a eleição direta de subprefeitos, que substituiriam
os administradores regionais e gerenciariam o próprio
orçamento da região. Evidentemente o poder
do prefeito seria reduzido, mas acredito na democracia direta,
diz.
Erundina não descarta a possibilidade de disputar um
segundo turno com a antiga companheira Marta Suplicy (PT).
O eleitor de São Paulo não vota ideologicamente.
Acho bastante provável a possibilidade de estar num
segundo turno com Marta.
Seria a oportunidade de se fazer política com p
maiúsculo, disse a deputada socialista em entrevista
concedida a ISTOÉ. A política de boa vizinhança,
porém, não indica que durante a campanha Marta
e Erundina não troquem farpas. Temos histórias
diferentes, cutuca a socialista. Sinto que a Marta
não tem uma identidade com aquilo que São Paulo
tem de mais popular. Ela compreende a cidade a partir dos
setores mais bem situados. Na visão da Marta, Fernando
Henrique é mais cosmopolita do que Lula. Erundina
entende que fora do PT poderá fazer uma campanha e
uma administração sem usar uma camisa-de-força.
Aprendi que um governo precisa estar aberto a todas
as forças da sociedade, diz. A seguir, a entrevista
concedida por Erundina:
ISTOÉ São Paulo foi decisivo
na eleição de Fernando Collor, por várias
vezes elegeu Paulo Maluf e até Jânio Quadros.
Não é estranho que esse mesmo eleitorado leve
para o segundo turno duas candidaturas progressistas, como
a sua e a de Marta Suplicy?
Luiza Erundina Isso indica uma mudança
importante. Fruto desses processos dolorosos de denúncias
que a cidade vem acompanhando. Mas o eleitor de São
Paulo é imprevisível. Não há um
comportamento linear. O quadro de hoje eu vejo com muita cautela.
Leio essas pesquisas como tendência, e não como
voto consolidado. Não acredito que a candidatura do
PSDB fique estagnada nem que o senador Romeu Tuma (PFL) não
tenha um crescimento.
ISTOÉ
Depois de toda essa lama na administração
municipal de São Paulo, a sra. acredita que o malufismo
morreu?
Erundina Acho que Maluf não consegue
mais se eleger, mas mesmo com tudo isso as pesquisas creditam
a ele cerca de 12% do eleitorado. Isso é muita coisa.
Ele deve cair, mas não me atreveria a dizer que o malufismo
morreu. Enganam-se aqueles que pensam assim.
ISTOÉ
Não seria natural que os votos malufistas migrassem
para o senador Romeu Tuma?
Erundina Acho difícil que ele consiga
isso espontaneamente. O passado do senador Tuma está
ligado a forças conservadoras, inclusive da ditadura.
Politicamente, o senador Tuma sempre esteve ligado a essa
gente. Não o estou comparando a esse povo envolvido
com corrupção, mas politicamente ele sempre
esteve jogando nesse campo.
ISTOÉ
Então, a sra. acredita mesmo num segundo turno
que reúna duas candidaturas de esquerda?
Erundina Isso não me parece impossível.
O eleitor de São Paulo não vota ideologicamente.
Acho que essa situação seria espetacular. Seria
uma maneira de mostrar para todo o País que é
possível fazer política com p maiúsculo,
discutindo programas, propostas concretas e não nivelar
o debate político por trocas de acusações.
ISTOÉ Como é fazer uma campanha
longe do PT, sem a famosa e aguerrida militância petista?
Erundina Certamente é muito mais
fácil ser candidata de um partido com estrutura, militância
e bases definidas. Mas a condição de ampliar
o arco de alianças e apoios para além dos partidos
é compensadora. Já recebi um apoio enorme de
sindicatos que tomaram a iniciativa de se engajar na campanha
do PSB. Isso se amplia para as bases sociais. Parece que está
havendo um movimento em torno da candidatura e isso é
muito bom. Aposto que desse movimento pode sair uma candidatura
da sociedade e não apenas de um partido. Uma campanha
assim vai para além da busca de votos.
ISTOÉ Mas esse movimento a que a sra.
se refere se traduz em mão-de-obra para a campanha?
O PT sempre levantou um exército para ajudar a carregar
o piano.
Erundina Olha. Isso não é
mais assim. Hoje a militância do PT está muito
profissionalizada. O partido tem um contingente enorme de
pessoas nos gabinetes parlamentares em todo o País.
Na massa de militantes não se encontra mais aquele
tipo de engajamento, de entusiasmo, dedicação
que tinha no passado. Hoje, mesmo no PT, não é
tão certo que se conte com aquela militância
que tirava férias para fazer campanha.
ISTOÉ
A sra. não está dizendo isso apenas porque
está fora do PT?
Erundina Estou dizendo porque isso não
existe mais. Não é uma crítica ao PT.
É um pouco da realidade de todos os partidos.
ISTOÉ
E os recursos para a campanha?
Erundina Não temos nenhum. Vamos
fazer um orçamento realista, modesto e vamos procurar
quem acredita nessa candidatura, mas não iremos nos
condicionar a nada. Vamos buscar as pessoas que já
conhecem meu trabalho.
ISTOÉ
A sra. acredita que poderá atrair os agentes
que normalmente financiam as campanhas políticas?
Erundina Há muitos empresários
que têm a clareza de que é mais fácil
lidar com um governo sério, transparente, em que não
haja favorecimentos, não haja tráfico de influências.
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