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De volta ao passado - continuação
Polêmica, a regressão a outras vidas arrebata cada vez mais adeptos, chega às universidades e começa a ser desvendada em laboratório

Rita Moraes e Valéria Propato

Foto: Helio Nagamine

Superação Wagner Faneco driblou crises pessoais ao descobrir que morreu por não denunciar um criminoso

Como Michele, a maioria dos pacientes não sabe precisar o que exatamente gera o processo de transformação. Depois da experiência, muitos, como o ator carioca Ricardo Conti, 23 anos, acabam virando espiritualistas. Ele sofria de baixa auto-estima e começou a procurar a explicação para o problema em outras vidas. “Fui uma menina que engravidou e foi expulsa de casa. Mais tarde, tive um marido que abusava de mim e eu não conseguia reagir”, conta Ricardo. Há pouco tempo, ele começou a reunir amigos em casa para ler o Evangelho Segundo Allan Kardec, a bíblia dos espíritas. A experiência também mudou a vida da professora aposentada Sílvia Cury, apesar de sua resistência. “Sempre me recusei a atribuir os problemas a fatores cármicos. Mas tive que me render”, diz. Sílvia sofria da síndrome do pânico havia cinco anos. Tinha taquicardia, pressão alta, sensação de desmaio e chegou a ser hospitalizada três vezes. Tomava ansiolíticos, mas não conseguia chegar à causa do seu mal. “Não tinha nenhuma fobia.” Durante a regressão, ela se viu menina, na Idade Média, com a responsabilidade de cuidar do irmão menor. Ele foi pisoteado por um cavalo e a culpa foi atribuída a Sílvia. “Eu carreguei comigo esse sentimento de insegurança e falha. Agora, todas as vezes que me sinto insegura e tenho pânico, penso que aquilo faz parte do passado e me tranquilizo”, afirma.

Mudança – Muitas pessoas se satisfazem apenas com os resultados e não procuram questionar o que viveram. O editor de uma agência mexicana de notícias Wagner Faneco, 36 anos, amargou um ano numa crise existencial. Não estava satisfeito com o trabalho nem com ele mesmo. Queria mudar tudo e também não conseguia. Foi levado pela namorada a um terapeuta. Depois de algumas sessões de bate-papo, o médico disse que também fazia regressão e sugeriu que ele se submetesse a uma sessão. Cético, Faneco topou porque queria resolver seu problema. Saiu do consultório chocado. “Senti um frio no corpo e vi coisas horríveis. Presenciei um assassinato e fui acusado injustamente de ser o assassino. Sabia quem tinha cometido o crime, mas, como era uma pessoa rica e influente, não tive coragem de denunciar. Minha condenação foi ser enterrado vivo.” Depois do episódio, ele conta que passou a ter menos medo de encarar as dificuldades e conseguiu dar uma virada na vida. Está de emprego novo e feliz. Se tudo foi um produto de sua imaginação, Faneco não sabe dizer. O que vale para ele é que a experiência lhe ajudou a ter uma visão clara do mundo em que vive hoje.

Sem travas

Angélica recuperou-se de um bloqueio na garganta ao saber que morreu degolada numa batalha

Apesar de vender ao paciente a idéia de que o que acontece no consultório pode ser uma vivência de vidas passadas, os terapeutas são unânimes em afirmar que o importante é que a experiência ajuda a conviver melhor com os conflitos e saber por que eles apareceram. Se é realidade ou fantasia, não importa. “Motivada por algum estímulo, a pessoa abre vários arquivos em sua mente e não fecha. Como acontece com a máquina, o cérebro trava. Levamos o paciente a enfrentar racionalmente o conteúdo desses arquivos e fechá-los”, explica o médico e hipnólogo Leonard Verea. Para muitos psicólogos, entretanto, a TVP não passa de uma ilusão. “Quando ouço falar em TVP tenho até urticária. Mas não deixa de ser uma terapia porque o paciente entra em contato com seu inconsciente. No entanto, conversar com a tia-avó ou passear no shopping também é terapêutico”, ironiza a psicanalista carioca Rosane Signes. A seu ver, regressão não é ciência. “Pode deixar as pessoas confusas. Na verdade, elas não aceitam a possibilidade real da morte.”

Cheiros e cores – De fato, ter provas de que as histórias são reais é difícil. Mas o curioso é que um paciente pode mencionar cheiros e cores vendo literalmente os quadros em sua mente ou descrever detalhadamente a roupa que vestia e os cenários. Foi o que aconteceu com a secretária Angélica Sartori, 33 anos. Ela não conseguia mais falar nem comer porque sentia a garganta travada. Os médicos atribuíam o problema a stress e depois descobriram uma doença auto-imune, que enfraquecia a musculatura e os nervos. Após peregrinar por muitos consultórios, apelou para a regressão e acha que descobriu a causa de seu drama. “Fui um rapaz que, preso e amordaçado, morreu sufocado com um pano na boca. Também me vi grávida e desesperada com a morte do meu amor e me envenenei. Senti uma paralisia na garganta. Em outra vida, me vi de farda; era um soldado e morri degolado numa batalha”, conta ela.

Emoção – Durante a terapia, é raro o paciente precisar datas e locais. “Quando se está falando de um incidente da vida atual, as pessoas não lembram a data. O que fica é a emoção, o sofrimento ou a alegria”, registra a psicóloga Elaine Gubeissi de Lucca, autora de A evolução da terapia de vida passada. Ela trabalha há 20 anos com terapia de vidas passadas e afirma que também não é comum as pessoas se identificarem com um personagem famoso da história, como aconteceu com Collor. “Alguns pacientes simplesmente sabem que aquilo aconteceu. Quando falam línguas ou descrevem fatos históricos que nunca aprenderam, provam que a experiência da regressão é real”, atesta convicto o psiquiatra Brian Weiss. Os livros de Brian já foram traduzidos em mais de 30 países, o que o levou à marca de quatro milhões de exemplares vendidos. O Brasil, com mais de 600 mil livros comercializados, é um de seus maiores mercados. O interesse é tanto que seu último livro, A divina sabedoria dos mestres, foi lançado aqui em agosto do ano passado. Nos EUA, sairá só em maio.

A terapia de vidas passadas cai como uma luva no lado místico do brasileiro e atende ao sentimento de urgência que traz o sofrimento. Hoje muitos livros que tratam do assunto arriscam, inclusive, orientações aos leitores para que treinem a regressão por contra própria. Mas há contra-indicações. Na opinião do psiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, mestre em neuroanatomia pela USP e também diretor do Departamento de Saúde Mental da Associação Médico-Espírita de São Paulo, a regressão virou panacéia para todos os males e é preciso ter cuidado. “Nem todas as pessoas estão aptas para acessar essas memórias. Já tratei pessoas que entraram em surto psicótico depois de uma regressão descuidada”, alerta. A terapia, segundo ele, é totalmente desaconselhada a pacientes com história de desequilíbrio mental, gestantes e pessoas com doenças que se caracterizam por descompensações, como a diabetes e a anemia. Como são comuns momentos de grande emoção na regressão, cardíacos também devem ser cautelosos. “Os terapeutas devem conhecer o quadro clínico de seus pacientes”, conclui.

Como acontece
Há vários métodos de regressão, mas o comum é o paciente sofrer uma indução verbal ou hipnose, o que leva a um estado de relaxamento profundo. “Damos comandos gerais sem sugerir nada para que não sejam criadas situações imaginárias”, explica a terapeuta carioca Célia Resende. De olhos fechados, começa a visualizar cenas aparentemente desconexas. Elas podem ou não se transformar em histórias com princípio, meio e fim, como num filme. Mas, em todas as cenas, ele se verá como o personagem principal. “Peço à pessoa para descrever detalhes como roupas, cabelo, meio de transporte”, diz Célia. As imagens podem parecer confusas, mas as sensações de se estar vivendo a situação naquele momento são fortes. É comum sentir frio, suar, ter taquicardia. Vivem-se emoções intensas e, invariavelmente, o paciente tem uma crise de choro, como numa catarse. Ele é induzido a observar o sofrimento como parte do passado e adotar uma atitude diferente na vida atual. “Buscamos traumas de vidas anteriores que levaram as pessoas a se destruir de alguma forma. Os medos tiram a lucidez para conduzir a vida presente”, destaca a terapeuta.


 

 

 


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