Educação
Sem
ataque de nervos
O
que fazer com a lição de casa dos filhos? É importante orientar,
criar uma rotina e estar atento aos excessos
Rita
Moraes
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Foto:
Hélcio Nagamine
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SOLUÇÃO
Thiago passa o dia na escola e curte a mãe sem
tensões
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Tema
constante de reuniões escolares, a lição
de casa é um tormento não só para os alunos.
Faltam a muitos pais disposição e tempo para sentar
com o filho e orientar os deveres de casa depois de um dia duro
de trabalho. Sobram as reclamações da escola e
a culpa por não estar dando a devida atenção
ao desenvolvimento do filho. Os que têm disponibilidade
e até os que se deliciam fazendo, eles próprios,
a tarefa das crianças não estão livres
de dificuldades. Ficam confusos na hora de orientar, ensinam
de forma diferente da professora, atrapalham a autonomia do
filho ou exigem demais. Resultado: crianças chorosas,
preguiçosas ou birrentas e pais à beira de um
ataque de nervos. Era o que acontecia com a pedagoga Mônica
Borba e seu filho Arthur, o Tuta, oito anos. Ele gosta
de movimento e não conseguia se concentrar. A hora da
lição era o momento das dores. Doía a cabeça,
a perna. Nem sempre eu mantinha a calma, conta a mãe.
Parece difícil evitar que o momento não se torne
a hora do espanto, com choro e ranger de dentes. Mas medidas
simples, como estabelecer uma rotina ou criar um lugar apropriado
ao estudo, podem ser de grande ajuda. Aceitar que o filho está
em processo de aprendizagem também é essencial.
Às vezes, é só uma questão de tempo.
Este ano, Tuta já consegue fazer a lição
sozinho. Ele amadureceu. Só depende de mim para
algo mais complicado, diz, satisfeita, a mãe.
As dúvidas e a ansiedade geradas entre pais e alunos
são tão recorrentes que a Escola da Vila, em São
Paulo, decidiu fazer uma pesquisa para aperfeiçoar o
trabalho de orientação a pais e alunos. O estudo,
iniciado em julho do ano passado, aponta resultados preliminares.
Exercícios mecânicos, com cópias e repetições,
são os mais rejeitados. Os desafios, que incluem pesquisas,
criações e experimentações, são
os preferidos. Lições longas provocam cansaço
só de olhar. A diversificação motiva.
As crianças preferem ter cinco tarefas diferentes que
exijam uma hora e meia para fazer a ter uma que leve o mesmo
tempo, registra Clice Haddad, orientadora educacional
da escola. Outra questão é a importância
da escola na orientação dos pais. A dificuldade
pode estar não na criança, mas sim no modo de
vida da família. Quando os pais não conseguem
se organizar, a criança segue o mesmo ritmo, ou melhor,
a falta dele. Se um adulto pega a criança para ir ao
shopping ou ao dentista no horário da lição,
ele tem de antever que será necessário reprogramar
a atividade. E ajudar o filho a fazer isso. O planejamento é
uma habilidade que os pequenos só desenvolvem com o tempo.
Se forem orientados para isso. A criança adquire
a capacidade de planejamento a partir dos 11 anos, mas nem sempre
ela aprendeu como fazer uso dela, nota Clice.
Horários
Planejar e controlar o tempo é uma arte difícil
até mesmo para os adultos. Mas seguir uma rotina ajuda
muito. Horários predeterminados para as atividades
permitem às crianças e aos adultos se organizarem.
Reservar um local para os estudos é outro meio de ajudar.
Não precisa ser aquela escrivaninha, basta um
cantinho com lápis, caneta, folhas avulsas. Não
dá para fazer tarefa no meio da sala ou da cozinha.
É o cachorro que passa, o irmão que tira um
sarro, a panela que queima ou o telefone que toca, ensina
a psicopedagoga Raquel Whitaker, de São Paulo. Também
nada de fazer lição de casa deitado no chão,
vendo tevê ou ouvindo rádio. Os vários
estímulos atrapalham a concentração.
A criança interrompe muitas vezes o raciocínio
e a lição leva o dobro de tempo para acabar,
afirma Kátia Smole, da Matema, empresa de consultoria
escolar. Nem por isso, vai-se programar a lição
de casa justamente no mesmo horário do programa de
tevê preferido. Os acordos devem fazer parte do dia-a-dia
familiar. O ideal é que seja escolhido um horário
bom para todos.
Referência
É natural que a criança nos primeiros
anos escolares exija a presença de um adulto ao fazer
a lição de casa. Ela precisa de um referencial
que dê segurança e apoio. A participação
e o interesse dos pais na vida escolar do filho influem no
significado e na valorização que a criança
vai dar à escola, afirma Kátia, que oferece
consultoria escolar. Uma interferência equilibrada fará
com que a criança adquira autonomia para realizar as
tarefas. O tema gera muitas reclamações por
parte da família porque, às vezes, nem mesmo
os pais entendem que as tarefas são necessárias
para que a criança reveja o que aprendeu em classe,
aprofunde um assunto por meio de pesquisas e principalmente
para que desenvolva a capacidade de se concentrar e produzir
sozinha. E nunca é bom ressaltar devem
significar castigo. A tarefa de casa tem de ser um compromisso
da criança e não dos pais com
o aprendizado e o professor, sintetiza a coordenadora
pedagógica Sandra Maria Hubner, do Colégio Albert
Sabin.
Há também que se considerar as diferenças
de personalidades e não cobrar o mesmo tipo de atitude
de todos os filhos. Na casa da enfermeira Valdete de Medeiros,
42 anos, a filha Camila, dez anos, faz as lições
com prazer, mas Guilherme, 13 anos, resiste e, se puder, não
faz mesmo. Apesar de não afrouxar o controle, Valdete
está convencida de que o filho não se dedica
mais por opção. Ele é muito tranquilo.
Tem capacidade, mas se contenta em fazer o suficiente para
passar de ano, conta ela. Guilherme confirma: Ter
que ir à escola e ainda fazer lição é
muito chato. Poderia estar jogando videogame, ouvindo música.
Essa é uma questão típica de adolescentes
que estão despertando para tantos outros interesses.
O próprio Guilherme reconhece que quando era menor
não achava tão ruim perder tempo
estudando. Mas é exatamente nessa fase que se nota
o quanto a organização é benéfica.
Se a criança aprendeu desde o começo da vida
escolar a dividir bem o seu tempo, poderá pensar no
namoro, ouvir a banda preferida ou ficar horas se olhando
no espelho sem prejuízo ao rendimento escolar. E a
agenda é uma grande aliada para liberar a mente. Mas,
como ressalta a orientadora da Escola da Vila, não
se nasce sabendo utilizar uma agenda. É preciso
ensinar a planejar as tarefas e os trabalhos, principalmente
quando são de longo prazo: até tal dia, tal
parte deve estar pronta e assim por diante, exemplifica.
Período
integral Para evitar o desgaste da relação
com os filhos, alguns pais apelam à terceirização.
Escolhem uma escola com período integral ou uma pessoa
para acompanhar a criançada, que pode ser o tradicional
professor particular ou até um acompanhante terapêutico,
psicólogo que se dedica a ajudar a criança a
se organizar, criar uma rotina de estudos e fazer suas pesquisas.
Gerente financeiro de uma empresa de eventos, Mônica
Oliveira encontrou no período integral a melhor forma
de resolver o seu problema. Ela não conseguia chegar
em casa antes das nove da noite. Muitas vezes encontrava o
filho Thiago, oito anos, dormindo na mesa em cima dos cadernos.
Ele ficava me esperando para fazer a lição
de casa e caía de sono. Quando conseguia chegar a tempo,
também não era fácil. Era desgastante
para mim e para ele, diz a mãe. Thiago agora
fica dois períodos na escola: de manhã faz o
primeiro grau e à tarde faz as lições
e pratica esportes. À noite, mãe e filho podem,
sem tensões, aproveitar os momentos que têm juntos.
Na maioria das vezes, no entanto, medidas como essa não
são necessárias. A simples reavaliação
do dia-a-dia da família ajuda a substituir o choro
e a bronca por prazer e diversão.
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Tarefa
para os pais
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| Criar
um cantinho de estudo |
| Escolher
um horário bom para todos |
| Cumprir
uma rotina |
| Evitar
críticas e muita exigência |
| Ser
disponível, mas ficar na retaguarda |
| Jamais
fazer a lição pela criança |
| Não
corrigir os erros se não puder explicá-los |
| Caso
a criança não saiba, deixe a lição
sem fazer e comunique a dificuldade ao professor |
Links
relacionados:
www.albertsabin.com.br
www.vila.com.br
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