Drama
A
agonia do craque
Ronaldo
sofre nova contusão e especialistas especulam se o atacante
continu ará sendo o “fenômeno”
Juliane
Zaché e Lena Castellón
| DESESPERO
O jogador parte em direção à bola, sofre mais uma lesão
no joelho direito e desaba no chão, atingido pelas dores
da ruptura do tendão. Sai do campo aos prantos |
Era
para ser a volta triunfal. Mas o retorno de Ronaldo aos gramados
após 144 dias parado acabou num drama que comoveu o
mundo. Depois de estar por sete minutos no jogo entre sua
Inter de Milão e a Lazio partida da Copa da
Itália, realizada em Roma , o jogador foi ao
chão. Ronaldo tinha sofrido um novo acidente no joelho
direito. O tendão patelar, tecido que une a patela
(ou rótula) à tíbia, se rompeu. Há
cinco meses, a mesma estrutura tinha sofrido uma pequena ruptura,
o que obrigou o atacante a se submeter a uma cirurgia de reparação
e a um intenso trabalho de recuperação.
No momento do acidente, o estádio se calou. Ronaldo
urrou de dor e saiu aos prantos. No dia seguinte, já
em Paris, o jogador fez outra operação, conduzida
pelo cirurgião responsável pela primeira intervenção.
Gerard Saillant levou duas horas para restaurar o tendão
partido e também as esperanças de que Ronaldo
volte a jogar. A cirurgia foi um sucesso e ele poderá
retornar aos campos em 2001, garantiu um comunicado
da Inter. Em oito meses, ele pode estar recuperado,
calcula Joaquim Grava, médico da Seleção
Brasileira.
No entanto, pode não ser bem assim. Na sexta-feira
14, Saillant lançou a suspeita de que o jogador tenha
de abandonar os campos. Ninguém pode dizer com
certeza se Ronaldo jogará novamente e se voltará
100%. Mas há argumentos que nos fazem pensar que em
cerca de sete meses ele volte a jogar, afirmou. A justificativa
do médico para a cautela é simples. Seu
tendão é fraco. É congênito, como
ser careca. Não existe remédio que fortaleça
o tendão naturalmente.
Além da suspeita de Saillant, o que não se sabe
é se Ronaldo, ao voltar, terá capacidade de
mostrar a mesma genialidade que lhe rendeu, por dois anos,
o título de melhor jogador do mundo. Ao contrário,
suspeita-se que o atacante não dará mais suas
famosas arrancadas. Os efeitos de duas cirurgias desse
nível são devastadoras para um atleta. Ele deve
sofrer perda de força no arranque, ter dificuldade
para dar piques e problemas em manter a velocidade,
afirma Moisés Cohen, da Universidade Federal Paulista
(Unifesp). Se a previsão se concretizar, será
o fim do fenômeno Ronaldo. Mas é
prematuro pensar em sequelas, ressalva Grava.
Ninguém tem resposta sobre as causas desse drama. Há
apenas hipóteses. Uma delas seria a volta precoce aos
campos. Pode ser que o tempo de recuperação
tenha sido menor do que o necessário, afirma
Paulo Zogaib, fisiologista do Palmeiras. Desconfio que
a pressão da vaidade dos médicos e fisioterapeutas,
ansiosos para bater recordes de recuperação,
tenha pesado, acredita o ex-jogador Tostão. Outra
razão: as estruturas nervosas da região não
teriam se recuperado na mesma velocidade dos músculos
e articulações. Existem na região proprioceptores,
célula nervosa que informa ao corpo a situação
das extremidades, ajudando a regular funções
como o equilíbrio. Na cirurgia de Ronaldo, muitas dessas
células foram destruídas ou ficaram ineficazes.
Dependendo da intensidade da perda, pode ocorrer algum grau
de descoordenação neuromuscular, provocando
um movimento anômalo, um passo involuntário que
teria gerado sobrecarga na patela já fragilizada do
jogador.
A última justificativa seria a fraqueza dos tendões
do jogador. Na construção da musculatura, o
ritmo de desenvolvimento dos músculos é mais
intenso do que o dos tendões. E, no caso de Ronaldo,
o investimento numa massa muscular poderosa foi impressionante.
O excesso de desenvolvimento muscular que ele adquiriu
nos últimos anos sobrecarregou a articulação
do joelho, afirma Cohen. Se podemos tirar uma
lição desse drama, é o alerta de que
o corpo humano tem limites.
Colaboraram: Douglas Tavolaro, Mônica Tarantino e
Sara Duarte
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