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Admirável coração novo - continuação

Novas cirurgias, tecnologia de ponta e medicamentos mais avançados contribuem para diminuir a mortalidade por doenças cardíacas

Juliane Zaché, Lena Castellón e Mônica Tarantino

No tratamento das doenças do coração, outra novidade festejada é o desenvolvimento de um marcapasso especial. A partir do segundo semestre, começam a ser usados no País os primeiros modelos do aparelho equipado com dois eletrodos, uma invenção do médico José Carlos Pachon, chefe do serviço de arritmias do Hospital do Coração, em São Paulo. Os equipamentos convencionais usam apenas um eletrodo. Com dois fios – um colocado na ponta do ventrículo direito e outro no meio do músculo cardíaco –, os estímulos elétricos são mais bem distribuídos e permitem que o coração tenha um batimento praticamente dentro do desejado. Por enquanto, 92 pacientes do hospital receberam esses modelos. Muitos desses doentes sofrem de insuficiência cardíaca (incapacidade do coração de enviar o sangue para o resto do corpo). A sensação causada pelo problema é de cansaço e de falta de ar. O marceneiro Nelson Ferraz, 67 anos, não conseguia nem tomar banho ou calçar meias devido à doença. Em agosto passado, recorreu ao Hospital do Coração. “Não saía do hospital. Depois de colocar o marcapasso novo, fiquei ótimo”, brinca.

Indicadores – Não é só na área de procedimentos cirúrgicos que a medicina vem obtendo vitórias. A ciência está olhando com mais atenção para as pesquisas sobre os fatores de risco para as doenças cardíacas. Há cinco anos, Jacob Maschio, 54 anos, descobriu que sofre de hipertensão, um dos vilões causadores do infarto. Como se não bastasse, Maschio, secretário de Educação de Campina Grande do Sul, no Paraná, soube também que tem muita homocisteína no sangue. Essa palavra esquisita é um achado dentro dos estudos de cardiologia. Trata-se de um aminoácido, composto que forma as proteínas. “Altas taxas dessa substância no corpo entopem artérias e veias, podendo levar a uma parada cardíaca”, explica o cardiologista Admar Moraes de Souza, da Universidade Federal do Paraná. Souza foi um dos primeiros médicos brasileiros a desconfiar que a homocisteína está associada a infartos de causas desconhecidas. “Suspeitamos que 10% das pessoas tenham ataque cardíaco causados pela substância”, calcula o médico. “Ela já pode ser considerada o novo colesterol do século XXI”, diz. O acúmulo dessa substância no sangue pode ocorrer pela falta de integrantes do complexo B, como vitaminas B6, B12 e ácido fólico. Por isso, hoje Maschio toma suplementos e a taxa de homocisteína atingiu níveis normais.
Nesse esforço para descobrir o que está por trás das doenças, o capítulo mais recente diz respeito à descoberta de mais um indicador de risco: a proteína C-reativa (PC-r). Ela está associada à inflamação de artérias e placas de gordura, fenômeno cuja importância no processo de desenvolvimento do infarto começa a ser agora mais bem desvendado. Sabe-se hoje que a inflamação colabora decisivamente para o rompimento dos depósitos de gordura. Isso porque, para se defender depois da ruptura, o organismo reage, provocando a coagulação no local onde as placas foram rompidas. O problema é que os coágulos acabam entupindo a artéria. Por isso, identificar o processo inflamatório se tornou tão importante. A forma de fazer isso é medindo a quantidade da proteína C-reativa. “A partir de determinado nível, ela indica que o processo de inflamação é preocupante e pode desestabilizar as placas”, explica Tânia Martinez, do Incor. “Se as taxas da proteína forem elevadas, o paciente é de alto risco e deve ser submetido a um tratamento intensivo para controlar os fatores que predispõem ao infarto, como colesterol e tabagismo”, explica o cardiologista Bruno Caramelli, também do Incor.

Novos remédios – Os especialistas acreditam que esse novo indicador é até mais preciso na previsão da ocorrência de um problema cardiovascular como o infarto, por exemplo, do que a medição das taxas de colesterol. Isso porque ter os níveis elevados de colesterol não significa que a pessoa esteja prestes a sofrer um infarto. Mas, se as taxas da PC-r forem altas, suas chances de manifestar algum problema cardiovascular parecem elevadas. A investigação desse mecanismo está produzindo revelações fundamentais também para a definição de novos tratamentos. Já se sabe, por exemplo, que a Chlamydia pneumoniae, um germe que causa infecção respiratória, e a bactéria Helicobacter pylori, entre outros microorganismos, estão presentes nos locais onde a inflamação é intensa. “Desconfia-se que esses agentes possam estar relacionados com o processo inflamatório”, afirma Nabil Ghorayeb, cardiologista do Instituto Dante Pazzanese. Se for comprovado que esses microorganismos desempenham qualquer papel nesse processo, podem-se combatê-los com antibióticos específicos.

Mesmo antes de esse processo ser completamente desvendado, porém, os especialistas já estão contando com remédios eficazes para serem usados antes, durante e depois do infarto. Algumas dessas novas substâncias prometem, por exemplo, abrir as artérias durante o infarto com mais eficácia para impedir o estancamento do sangue. “Os medicamentos mais antigos tinham taxa de abertura das artérias de 35% num período de 90 minutos. Os mais modernos, em fase de testes, podem elevar essa taxa para cerca de 60%”, avalia o cardiologista José Nicolau.

Outro caminho para evitar o entupimento da artéria na hora do infarto são os novos antagonistas do complexo protéico IIbIIIa, usados para diminuir as chances de aderência das plaquetas (células sanguíneas) e de coagulação do sangue após procedimentos como a angioplastia. Muitos estudos também estão avaliando a eficácia de medicamentos antigos com novas finalidades. É o que está acontecendo com os betabloqueadores, indicados para fortalecer o miocárdio. “Pensava-se que eram contra-indicados nos casos de insuficiência cardíaca, mas estudos estão mostrando que eles agem no sistema neuro-hormonal e ajudam a compensar o problema”, observa Bernardino Tranchesi. Para controlar os batimentos cardíacos irregulares e sua evolução depois do infarto também está em curso um estudo internacional, coordenado no Brasil pelo cardiologista José Nicolau, com uma nova substância, desenvolvida pela biologia molecular. O funileiro Hélio Callegari, 47 anos, participa da pesquisa. Ele tem pressão arterial, peso e colesterol normais, mas teve um infarto em agosto passado. “Com o remédio, estou me sentindo muito bem”, garante Callegari.

A medicina também não poderia ficar de fora da Internet. O Hospital do Coração testou há cerca de três semanas um aparelho para recepção de eletrocardiogramas (que mede a frequência e o ritmo cardíaco) transmitidos via modem. “Foi uma demonstração do que ele pode oferecer de auxílio para diagnóstico”, afirma Edson Romano, responsável pela UTI do hospital. Também dentro do Hospital do Coração é possível fazer monitoramento dos pacientes da UTI por uma rede interna conectada por modem. Romano acompanha os principais casos do computador de sua casa.

Para o futuro, uma das maiores promessas da ciência é o campo da genética. “Os defeitos que temos podem ser resumidos em alguns genes”, diz José Eduardo Krieger, diretor do laboratório de genética e cardiologia molecular do Incor. Isso significa que é possível descobrir os culpados dos problemas do coração e alternativas de tratamento. Uma das abordagens em estudo é a angiogenese (criação de vasos). “Poderemos desenvolver drogas ou substâncias para serem injetadas durante uma operação que estimulem a formação de novos vasos”, prevê. Krieger afirma que um vírus modificado pode carregar o material genético que originaria uma proteína fabricante de vasos. Krieger ressalta que os estudos do conteúdo genético ainda são muito complexos. A terapia genética é apenas uma parte desse universo em expansão. Ainda assim, é uma das grandes apostas da medicina.


Colaboraram: Cilene Pereira e Lia Bock



Copyright 1996/2000 Editora Três



 

 

 

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