Religião
é um perigo
Eduardo
Cruz, professor de Teologia da PUC de São Paulo, analisa a
tragédia de Uganda e acredita que o fanatismo é natural no
homem
Camilo
Vannuchi
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Foto:
Alan Rodrigues
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CRUZ:
“Centenas de pessoas foram mortas e não necessariamente
desejavam morrer”
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A
tragédia parece não ter fim. Cada dia que passa,
uma nova cova é descoberta em Kanungu, Uganda. Chega
a mil o número de cadáveres do Movimento pela
Restauração dos Dez Mandamentos, descobertos
em cemitérios clandestinos. É o resultado de
uma trama macabra liderada por Joseph Kibwetere. Ainda não
se sabe se as mortes foram provocadas por assassinato ou suicídio.
O professor Eduardo Cruz, titular do Departamento de Teologia
e Ciências da Religião da PUC de São Paulo
e doutor em Teologia pela Universidade de Chicago, questiona
a responsabilidade da Igreja na construção de
mentes fanáticas. A religião não
é uma faca, mas uma grande espada de dois gumes, que
pode ser usada de maneira construtiva ou destrutiva,
reconhece.
Kibwetere atraiu uma legião de mais de 4,5 mil seguidores,
afirmando que teria recebido da Virgem Maria a seguinte profecia:
no ano 2000, epidemias e furacões varreriam a Terra
e apenas um quarto da população mundial sobreviveria
ao Apocalipse, incluindo-se aqueles que seguissem Kibwetere.
Desde a metade dos anos 80, fiéis venderam seus bens
e doaram o dinheiro para a seita, seguindo as duras normas
da instituição, até que 2000 chegou e
as profecias não se confirmaram. Os fiéis exigiram
seu dinheiro de volta, o que parece ter provocado a atitude
tomada pelo guru. O líder de Uganda pode ter
agido como um especulador qualquer, alguém que dá
um golpe na praça e foge com o dinheiro, sugere
Cruz, dedicado a investigar os limites entre ciência
e religião.
ISTOÉ
O que ocorreu em Uganda?
Eduardo Cruz O que se pode dizer, a partir do
que foi divulgado, é que não se trata de um
exemplo típico de suicídio coletivo, mas de
um assassinato por razões materiais. Ou seja, ficar
com os bens dos fiéis. Isso não diminui a escala
do horror. São centenas de pessoas ligadas a um grupo
religioso que foram mortas e não necessariamente desejavam
morrer.
ISTOÉ
Mas eles venderam bens e cederam o dinheiro aos líderes
religiosos. Essa não é uma medida extrema?
Cruz Trata-se da interpretação
literal de uma passagem do livro Ato dos apóstolos
em que se diz que os fiéis vendiam os seus bens e colocavam
tudo em comum. Ao longo da história, esse conselho
foi tomado ao pé da letra e aproveitado por espertalhões.
ISTOÉ
Um assassinato coletivo no local de culto das vítimas
é inédito?
Cruz De forma alguma. Há pouco tempo, o
papa beatificou um grupo de pessoas do Nordeste que, no século
XVII, estavam dentro de duas igrejas e foram massacradas por
índios e holandeses. Este é um caso entre centenas.
Existem também formas de religiosidade que nós
chamamos de profanas, como é o caso do nazismo. O fato
de o nazismo ter conseguido assassinar tantos milhões
de pessoas deve-se a um fanatismo de certa maneira religioso.
ISTOÉ
Mas há diferença entre assassinar adeptos
de uma outra religião e ser morto pelo próprio
guru.
Cruz O líder de Uganda pode ter agido como
um especulador qualquer, alguém que dá um golpe
na praça, vende títulos e apartamentos inexistentes
e foge com o dinheiro. Aqui, além da fuga, houve o
assassinato, que concede uma dimensão ainda mais trágica.
Se o motivo foi unicamente econômico, ele agiu como
qualquer criminoso de colarinho-branco.
ISTOÉ
A leitura ao pé da letra do Apocalipse, fixando-se
o fim do mundo para 2000, pode ser responsabilizada pela tragédia?
Cruz Sim, apesar de o Apocalipse não ser
necessário para definir uma seita como milenarista.
ISTOÉ
O que é seita milenarista?
Cruz Ela afirma que, após um acontecimento
mágico, haverá um período de harmonia
e abundância, como anuncia um episódio do Apocalipse.
Foram com idéias milenaristas que portugueses e espanhóis
fizeram as grandes navegações e o discurso protestante
conquistou a América do Norte no século XVII.
Não é necessária a crença no fim
do mundo. Seria milenarista uma seita que pregasse, por exemplo,
a possibilidade de um prefeito de São Paulo acabar
com toda a corrupção.
ISTOÉ O ano 2000 pode ter inspirado o surgimento
de seitas fanáticas?
Cruz Sim, em particular no Ocidente, onde a contagem
cristã dos anos é representativa. Na última
década, apareceram pessoas isoladas e uma série
de grupos que acreditavam que o mundo iria acabar. Acontece
que o ano 2000 chegou e as pessoas se aquietaram, da mesma
forma que o bug do milênio não fez o estrago
que se esperava.
ISTOÉ
A tragédia africana superou o recorde de 914
fiéis mortos na Guiana, após a ingestão
de um suco envenenado oferecido pelo reverendo Jim Jones em
1978. O que leva a essa atitude?
Cruz Tudo pode ser ãÕsumido pela
palavra fanático, que surgiu no século XVI.
Fanático vem do latim fanus e significa templo. Ou
seja, o fanático é aquele que está sempre
dentro do templo e se acha possuído pelo sagrado. Recentemente,
a palavra foi estendida e se admite a expressão corintiano
fanátictõ. Não há diferença
entre o fanático e o san}W, ambos se sentem escolhidos
e dedicam-se totalmente ao contato com essa suposta divindade.
Só distingue quem vive após os acontecimentos.
Quando entendemos que uma pessoa usou esse fanatismo para
o bem, a chamamos de santa, quando usou para o mal, chamamos
de fanática. Ao longo da história, vemos figuras
carismáticas que parecem representar o sagrado e que
congregam milhões de pessoas. Hitler era uma pessoa
fascinante, que fez com que um número muito grande
de pessoas se tornasse fanático. Havia milhões
de pessoas dispostas a dar suas vidas em nome do nacional-socialismo.
Considerando-se os milhões de Hitlers, Stalins e outras
figuras que desencadearam inúmeras mortes, até
que 914 não é um número muito elevado.
ISTOÉ
Como julgar se um líder carismático é
santo ou fanático?
Cruz As religiões se institucionalizam
e criam formas para identificar quem segue sua doutrina adequadamente
e quem a desvirtua. Para que uma pessoa seja considerada santa
na Igreja Católica, há um processo investigativo
que emprega, inclusive, métodos científicos.
Recentemente, na antiga Iugoslávia, algumas crianças
disseram ter visto a Virgem em uma situação
muito semelhante à aparição de Fátima
em Portugal. No entanto, o Vaticano não reconheceu
o fenômeno como autêntico. Toda religião
escolhe seus mestres, gurus, santos, por meio de um processo
institucionalizado que, no decorrer do tempo, seleciona quem
teria seguido os padrões religiosos e quem era fanático.
Ao longo da história do cristianismo, esses fanáticos
receberam diversos nomes, inclusive o de herege.
ISTOÉ
Antônio Conselheiro e Padre Cícero Romão
são considerados fanáticos ou santos?
Cruz Conselheiro foi resgatado recentemente por
sua contribuição política, maior do que
sua relevância no plano religioso. Padre Cícero
é mais interessante, à medida que o povo de
Juazeiro do Norte o reconhece como santo e se serve da Igreja
Católica Romana para os serviços religiosos.
Mas, oficialmente, sua santidade não é reconhecida.
ISTOÉ
O fanatismo religioso escolhe classe social?
Cruz Não. É um preconceito que vem
desde o século XVIII atribuir fanatismo a pessoas simples
e ignorantes. O caso alemão é típico.
A Alemanha era considerada o centro científico e cultural
do Oeste até os anos 30. Surpreende o nazismo ter surgido
justamente nesse meio. Aderiram desde filósofos e cientistas
até pessoas simples. O grande erro de Hitler foi ter
escolhido os judeus, porque eles constituíam parte
significativa da intelectualidade e fizeram um trabalho sistemático
de oposição no exílio.
continua
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