MEDICINA
& BEM-ESTAR
Você
tem medo de quê?
A
medicina aprofunda o conhecimento sobre a fobia, distúrbio
que afeta 14% da população, e aprimora as estratégias
para acabar com o medo
Kátia
Stringueto e Lena Castellón
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Em
busca da terapia
O
empresário carioca Marcos Montenegro, 31 anos,
recorreu a diversas formas de terapias na tentativa
de controlar seu medo de avião. "Durante
uma viagem, o avião em que estava não
conseguia visualizar outra aeronave por causa da fumaça
de uma queimada. Fiquei com pânico da colisão.
Procurei psicanálise", conta. Não
foi suficiente. Ele recorreu a mandingas como jogar
uma balinha debaixo da cadeira do avião e pedir
proteção a espíritos de crianças.
Fez promessa a Santa Teresinha. Passou por hipnose.
Usou florais de Bach e acupuntura. E apelou à
numerologia. Nada deu certo. Ele continua com os sintomas
da fobia. (Foto: MARCELO MIN)
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Com plano de mudança de residência para breve, a professora
paulistana Elizabeth Santana, 52 anos, já decidiu qual será
a primeira aquisição para a casa que pretende montar
em Selviria, no interior de Mato Grosso: um punhado de gatos. Ela
não é propriamente fanática por felinos - em
São Paulo, onde vive atualmente, não cria nenhum animal.
Seu problema é o medo exagerado que tem de ratos. A aversão
ao roedor é comum entre os seres humanos, mas no caso de
Elizabeth o temor é de tal intensidade que se transformou
em um distúrbio que vem ganhando destaque nos consultórios
médicos nos últimos anos. A professora sofre de fobia,
doença que afeta cerca de 14% da população
mundial.
Como se vê, não é pouco. Quem não conhece
histórias de pessoas que reagem temerosamente a certos animais,
objetos ou situações? Muitas vezes esses momentos
viram motivo de piadas, inclusive para o medroso em questão.
A fobia, porém, não é brincadeira. Qualificado
pelos psiquiatras como transtorno de ansiedade, o distúrbio
gera alterações físicas e nervosas em quem
padece do problema. Ante a perspectiva de se deparar com o que lhe
assusta, o fóbico pode sentir tremores, suores e taquicardia.
Em algumas situações, chega ao desmaio e até
a ataques de pânico.
Atenção
Por causa de tamanha gravidade, as fobias vêm recebendo atenção
da ciência. Mostra disso é o lançamento, nesta
semana, do livro do psiquia-tra Tito Paes de Barros Neto batizado
de Sem medo de ter medo (Ed. Casa do Psicólogo). Supervisor
do Ambulatório de Ansiedade (Amban), do Hospital das Clínicas
de São Paulo, Paes de Barros sabe bem o drama que enfrentam
seus pacientes. Por isso, resolveu colocar em livro tudo o que já
se descobriu sobre o distúrbio e também as soluções
para o problema. "A doença passou a ser mais conhecida
no Brasil a partir de 1996. E hoje as pessoas estão cada
vez mais informadas, fazendo, assim, com que os casos apareçam
mais", afirma.
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Mergulho
na pia do banheiro
No
ano passado, o estudante de Educação Física
Paulo (nome fictício), 23 anos, foi colocado
à prova durante uma aula de natação.
O rapaz sempre temeu mergulhar, mas naquela ocasião
sentiu que seu caso era grave. "Estava à
beira da piscina, mas a ansiedade era tão grande
que só pensava em fugir. Tive um ataque de pânico
e falei ao professor que não faria os exercícios",
relata. Para evitar a reprovação no curso,
há pouco mais de um mês iniciou terapia
cognitivo-comportamental. Já pode encostar o
rosto na pia do banheiro. Logo virá a fase de
mergulhar a cabeça num tanque de lavar roupa.
(Foto: RENATO VELASCO)
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De fato, a proliferação de dados e as atividades
relacionadas à doença estão levando muitas
pessoas a descobrir que aquele mal-estar que sentem só de
pensar em matar uma barata ou entrar num avião é assunto
sério. O resultado é que elas acabam engordando as
taxas de incidência da doença, acendendo ainda mais
holofotes sobre o distúrbio. No entanto, há outra
razão para que as fobias ganhem mais atenção
da medicina. Muitos especialistas acreditam que a vida moderna,
com toda sua carga de violência, stress e desigualdades sociais,
pode estar fazendo crescer o número de casos da doença.
"O transtorno ansioso depende de facilitações
do meio ambiente para aflorar. Com as características que
as grandes cidades adquiriram, a população está
mais exposta a situações de risco e é muito
provável que isso contribua para o surgimento de manifestações
fóbicas em pessoas que, de outra forma, teriam menos chances
de vivenciar o problema", acredita Miguel Roberto Jorge, presidente
da Sociedade Brasileira de Psiquiatria. A psicóloga paulista
Cecília Bellina, que cuida exclusivamente de pessoas com
medo de dirigir, concorda com Jorge. "As fobias estão
crescendo por causa do stress. A vida moderna deixa todos mais temerosos",
reforça. Desde que iniciou esse atendimento, há seis
anos, já passaram por seus consultórios 1.200 pessoas.
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Ondas
torturantes
Viajar
para a praia provocava pesadelos na secretária
Elza Kosniskas, 47 anos. Ela sonhava com ondas que a
carregavam para longe. "Acordava angustiada. Também
sofria ao ver meu marido e amigos na água",
recorda. Na Terapia de Vida Passada, Elza descobriu
que morreu afogada ao cair de um barco durante uma tempestade.
Soube ainda que, em outra vida, morava em frente ao
mar quando a água invadiu sua casa. O tratamento
funcionou. Elza já foi à praia e planeja
férias no litoral (Foto: JULIO VILELA)
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Felizmente, muita coisa vem sendo descoberta sobre o problema,
incluído pela Organização Mundial da Saúde
(OMS) numa classificação internacional de doenças
vigentes no Brasil desde 1996. Sabe-se, por exemplo, que o transtorno
ansioso fóbico costuma surgir entre o final da infância
e o princípio da adolescência e o início da
idade adulta, de acordo com a modalidade de medo. Hoje, a fobia
está dividida em três tipos: específica (de
objetos e situações), social (que afasta a pessoa
do ambiente público por temer passar por momento vexatório)
e agorafobia (medo de sentir medo e não contar com ajuda
de alguém para resolver o problema). Entre as fobias específicas
estão medos como os de animais, ambiente natural (água)
e doenças. Acrescentem-se ao quadro os temores de dirigir
carro e encarar ferimentos. Na fobia social, o problema são
os outros. A expectativa da avaliação negativa alheia
esmaga o sofredor desse distúrbio. Conduzir um veículo
pode ser enquadrado nesse caso se o motorista evita dirigir porque
se apavora com a idéia de ser criticado ou ridicularizado.
Assinar cheques, escrever o nome, alimentar-se, iniciar ou manter
conversas e falar ao telefone são motivos suficientes para
afastar a pessoa do convívio com a sociedade. Ela prefere
ficar só, o contrário do que ocorre com quem padece
de agorafobia.
A comunidade médica ainda estuda as causas do distúrbio,
mas já se podem apontar algumas razões. Uma delas
teria raiz biológica. A fobia seria desencadeada por um desequilíbrio
em alguns neurotransmissores, as substâncias responsáveis
pela comunicação entre os neurônios. Esse desequilíbrio
deixaria a vítima mais propensa a desenvolver o problema.
Outra causa seria a carga genética de cada um. Sofrer com
a visão de sangue, por exemplo, pode ser uma herança
familiar. "Encontramos famílias nas quais vários
parentes tinham essa fobia, o que é forte indício
de que esse medo tem determinantes genéticos", explica
Paes de Barros. Mas como todo problema que se relaciona à
mente, seria simplista demais creditar a ocorrência das fobias
somente a causas físicas. Há razões psíquicas
e até educacionais para a manifestação do distúrbio.
"Há pais que educam os filhos de forma bastante rígida,
dizendo para não fazer isso ou aquilo. Podem gerar um fóbico
social", afirma Paes de Barros. Por que alguém desenvolve
fobia de altura e outro de água, porém, a ciência
tradicional ainda não sabe responder. O que se conhece são
as mais preponderantes. Segundo pesquisa americana, 13% da população
dos Estados Unidos sofre do tipo social e 11% da específica.
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Taxista
particular
A
advogada Ceci de Brito Costa, 35 anos, não tem
medo de encarar o carro. Ela teme ser criticada no trânsito
de São Paulo. Sofre de fobia social. Apesar de
estar habilitada, Ceci deixou de dirigir por comodismo.
Há três anos resolveu que voltaria para
o volante. Não conseguiu. "Tinha vontade
de chorar", emenda. Ceci procurou a ajuda da psicóloga
Cecília Bellina em maio passado. Já roda
com seu veículo. Mas ainda não dispensa
o taxista que a acompanha há sete anos. (Foto:
MARCELO MIN)
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Um dos primeiros passos para combater o problema, porém,
é definir se o que se sente diante de uma barata ou de um
elevador é medo ou fobia. E para distinguir o medo comum
do transtorno ansioso deve se avaliar a rea-ção ao
motivo do temor. Se ela é exagerada e implica prejuízos
para a vida acadêmica, profissional e social, é fobia.
Mas, atenção. Muitas vezes, a doença fica mascarada
devido a outra característica do fóbico: a esquiva.
Quem tem medo de mergulhar, por exemplo, foge de praias. Como a
maioria das pessoas não é obrigada a nadar, o problema
pode ser contornado sem maiores dramas. Mas o que fazer quando um
estudante de Educação Física sente pavor de
enfrentar a água, a exemplo de um personagem que ilustra
esta reportagem? Jogar o medroso logo numa piscina, como podem imaginar
alguns, não é a saída. Também não
se pode tratar do caso como se fosse mera frescura. "O leigo
pode expor a pessoa a momentos de extremo pânico se acreditar
que vencer o temor é só uma questão de força
de vontade. Esse tipo de medo não se trata de covardia",
explica o psiquiatra Miguel Jorge.
Na verdade, a partir do conhecimento maior sobre a doença,
está sendo possível traçar algumas estratégias
para combatê-la. Na medicina convencional, o tratamento mais
eficaz criado até agora consiste em aliar medicamentos como
os antidepressivos a uma técnica da psicologia batizada de
terapia cognitivo-comportamental. O uso dos antidepressivos se justifica
pela simples razão de que, em geral, algumas fobias acabam
ficando associadas a um quadro de depressão. Nos casos de
fobia social, por exemplo, a ocorrência de depressão
chega a atingir 50% dos pacientes. É compreensível,
já que as vítimas desse tipo do distúrbio acabam
se isolando, temerosas de serem julgadas pelo olho alheio. Interessado
em aprofundar o conhecimento sobre a relação entre
a depressão e esse tipo de doença, o Amban, do Hospital
das Clínicas de São Paulo, criou um projeto de pesquisa
para testar a eficácia de antidepressivos aliados à
terapia cognitivo-comportamental. Até o final deste ano,
os primeiros resultados devem sair. Mas a agorafobia também
é frequentemente acompanhada de depressão. Além
disso, 80% das ocorrências de síndrome do pânico
estão associadas a esse tipo de fobia e, nesse caso, também
se indica o uso do medicamento. É importante saber que síndrome
do pânico e fobia são problemas distintos. O pânico
caracteriza-se por crises repentinas e recorrentes de ansiedade.
No caso da agorafobia, a pessoa sofre somente com o temor de ser
acometida por ataques.
Exposição
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Banhos
intermináveis
O
estudante carioca Herbert Salles, 13 anos, é
fã de reportagens de saúde, mas tem pavor
de ficar doente. O menino diz que o fato de sua mãe,
Kátia Salles, ter trabalhado em hospital contribuiu
para a manifestação de seu temor. "Ela
falava sobre problemas de pele. Então, fui tomando
banhos sem parar. Eram quatro a cinco por dia. Parei
um pouco com isso. Tenho mais medo de câncer",
confessa. Herbert buscou ajuda com um psiquiatra para
aprender a dominar o sentimento. (Foto: RENATO VELASCO)
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A abordagem psicológica é, claro, mais complexa.
O processo pode levar de três a seis meses para a criação
de estratégias para lidar com o sofrimento. A idéia
básica é expor a vítima aos objetos de sua
fobia. Se o paciente tem medo de altura, por exemplo, o trabalho
do terapeuta consiste, por exemplo, em acompanhá-lo em várias
jornadas, subindo do primeiro andar para o segundo pavimento de
um prédio. Nessa abordagem, questionam-se os sentimentos
que vêm à tona ao fóbico durante o esforço,
como o temor da queda. Outra técnica seria tentar induzi-lo
a colocar pensamentos prazerosos - o encontro de uma pessoa querida
- no lugar dos perturbadores.
Infelizmente, porém, esse não é um exercício
simples. A primeira e talvez mais importante razão das dificuldades
de se lutar contra a fobia é que o próprio paciente
sabe que não se trata de uma coisa racional. Parece ridículo
alguém ter medo de galinha? Parece, e quem tem fobia desse
animal sabe disso. Mas o problema é que a vítima,
embora não encontre motivos compreensíveis pela luz
da lógica, simplesmente sente pavor quando confrontada com
a pequena ave. Por isso, os tratamentos da medicina convencional têm
eficácia média de 50%. Por enquanto, a fobia não
tem cura. Ela pode ser apenas controlada. Mas o interesse cada vez
maior da ciência em resolver o problema permite vislumbrar
uma perspectiva otimista em mais esta luta contra o medo.
Colaborou Celina Côrtes (RJ)
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